O ministério da verdade

Por Daniel Gascón




 
No início de 2017, 1984, de George Orwell (1903-1950), voltou à lista dos mais vendidos. Quatro anos antes, também estivera na mesma lista da Amazon, quando as revelações de Edward Snowden sobre a NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, foram tornadas públicas. Em 2017, após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais estadunidenses e a popularização da expressão “fatos alternativos” fenômenos para os quais muitos comentadores recorreram ao adjetivo orwelliano, que nem sempre significava o mesmo e isso provavelmente teria surpreendido Eric Blair, o verdadeiro nome do autor do livro em evidência.
 
Richard Rorty escreveu em Contingência, ironia e solidariedade que Orwell alcançou reconhecimento porque escreveu exatamente os livros certos na hora certa. De toda maneira, este sucesso veio quase no fim de uma curta vida, com A fazenda dos animais e 1984. Antes disso, publicou vários romances e livros jornalísticos, e escreveu muitas resenhas e artigos. Era um homem austero, de temperamento um tanto romântico. Pode não ser o melhor da sua obra, mas 1984 é o seu livro mais conhecido, tornou-se relevante há décadas e diferentes gerações nele projetaram as suas preocupações: como alegoria do totalitarismo, como um romance de antecipação, como um retrato da perversão política da linguagem, como parábola do controle da vida privada. Foi um êxito instantâneo e, como acontece com os clássicos, não apenas o lemos, ele nos lê. O seu fascínio e a quantidade de interpretações, continuações e spin-offs que inspirou são surpreendentes. Foi um desses livros que, como sugeriu Rorty, uma sociedade precisa mesmo que não saiba disso.
 
O ministério da verdade, de Dorian Lynskey (Norwich, Reino Unido, 1974), colunista de música para The Guardian e especialista na intersecção entre cultura e política, é uma apaixonante biografia do famoso romance de Orwell: rastreia as fontes, situa-o em seu contexto, retrata seu autor, analisa algumas das interpretações, adaptações, mal-entendidos ou problemas que o cercam e mostra casos marcantes de fascínio, como o de David Bowie.
 
George Orwell, que nasceu na Índia e pertencia ao que descreveu como a lower upper middle class, estudou em Eton e foi soldado britânico na Birmânia. Foi assim que conheceu bem o imperialismo. Segundo Christopher Hitchens, um dos grandes sucessos do escritor foi saber distinguir e denunciar os três grandes males do século XX: o imperialismo, o fascismo e o comunismo. Conheceu os dois últimos diretamente na Guerra Civil Espanhola, uma experiência decisiva na sua vida e para a escrita de 1984. Foi o único contato direto com o totalitarismo (embora o internato também o tenha inspirado). 

Como se sabe, um dia ele entrou na redação do suplemento The New English Weekly com uma mala e disse que estava de partida para a Espanha. “O fascismo: alguém precisa detê-lo”, explicou. Alistou-se no Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), uma ala mais ou menos trotskista. Esteve no front em Aragão, onde se entediou, ficou com nojo dos ratos, não quis atirar em um soldado inimigo porque estava defecando e recebeu uma bala no pescoço. Logo então testemunhou as lutas dentro do lado republicano em Barcelona ​​e viu como os comunistas acusavam os trotskistas e anarquistas cooperarem com o inimigo. Alguns acusados foram assassinados (por exemplo, Andreu Nin, fundador do POUM); Orwell e sua esposa escaparam por pouco. Outro escritor que sofreu com as mentiras comunistas — no seu caso, de Lister — é Sender. Alguns dos que ordenaram as purgas foram posteriormente expurgados por Stálin, seguindo o mecanismo habitual.
 
Em seu ensaio “Por que eu escrevo” (há diversas traduções brasileiras, a mais recente em Na livraria com Orwell), George Orwell escreveu: “A Guerra Espanhola e outros eventos de 1936-37 mudaram tudo, e depois deles eu entendi a minha posição. Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e em prol do socialismo democrático, como eu o entendo”.¹ Na guerra e no que se escrevia sobre a guerra ele viu também como a ideia de verdade objetiva aos poucos desaparecia, como o passado poderia ser reescrito e como a linguagem era a ferramenta para realizar essas operações. Obsessivo, coletou muitos exemplos desses fenômenos — não apenas em torno do conflito — e essa pesquisa serviu e está no romance.
 
Alguns elementos de Winston Smith — o sentimento de desamparo, por exemplo — aparecem em outros romances de Orwell, como o maravilhoso Um pouco de ar, por favor ou A flor da Inglaterra. A leitura que Lynskey faz da obra desse escritor é inteligente e crítica. Ele também aponta suas contradições: no início da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, estava contra a guerra e, depois de mudar de ideia, foi muito duro com os pacifistas. Tentou participar em combates, mas não pôde por motivos de saúde, e trabalhou em funções de propaganda, uma experiência que, para a informação e para sua investigação, também foi útil para 1984. Enquanto estava nessas funções na BBC (odiava rádio: parecia-lhe um veículo para o fascismo), coincidiu com William Empson, um importante crítico literário. Se “A política e a língua inglesa” é uma célebre denúncia da linguagem corrompida pela ideologia e do uso da obscuridade lexical e sintática para justificar o injustificável e embotar o pensamento individual, o livro mais famoso de Empson, Sete tipos de ambiguidade, descreve as vantagens da complexidade e da ambivalência.²
 
Uma das grandes personagens do livro é a primeira esposa de Orwell, Eileen O’Shaughnessy: sobre O leão e o unicórnio, ela escreveu a uma amiga que seu marido havia escrito “um livrinho” explicando “como ser socialista sem deixar de ser conservador”. Em outra ocasião, dizia que talvez pudessem se mudar para um apartamento melhor “se não fumassem tanto”. Inteligente e leal, morreu após uma intervenção médica quando o marido se encontrava no exterior.
 
Outro aspecto importante é o gênero. Dorian Lynskey escreve sobre as utopias e distopias que fizeram sucesso desde meados do século XX. Muitas delas foram inspiradas pela percepção de mudança, houve algumas com temática industrial, feminista, proto-ecologista, de advertência dos perigos da tecnologia; uma das mais famosas é Olhando para trás: 2000-1887, do estadunidense Edward Bellamy. Orwell não conheceu todas essas obras, mas algumas delas. Além disso, podemos ler inúmeras resenhas e comentários do escritor, que tinha o curioso hábito de criticar as obras que mais o fascinavam ou eram mais fecundas. Entre os autores importantes do gênero de 1984 estão H. G. Wells (com quem teve um convívio pouco amigável) ou Jack London (por O tacão de ferro, que antecipou o fascismo). Dois escritores particularmente próximos são Aldous Huxley (que foi seu professor em Eton e autor de Admirável mundo novo, outra das grandes distopias do seu tempo) e Ievguêni Zamiátin (autor de Nós, um dos romances mais próximos a 1984). Lynskey apresenta esses romances e seus autores de forma sucinta e apaixonada.
 
Uma das grandes influências é O zero e o infinito, de Arthur Koestler. O escritor e Orwell se admiravam, embora este certa vez o tenha repreendido por seu “hedonismo” e resenhado duramente uma de suas peças. Certa vez, conta Michael Scammell na biografia de Koestler, eles conversaram sobre o que faziam na banheira: Orwell disse que pensava em tortura para seus inimigos, Koestler disse que pensava em tortura para si mesmo. O autor de 1984 é um caso exemplar de dissidência da esquerda dentro da esquerda, e o romance de Koestler, que realizava um trabalho de propaganda comunista às ordens de Willi Münzenberg, também era uma poderosa denúncia do stalinismo. Orwell, que sempre se considerou de esquerda e apoiou o governo trabalhista de Clement Attlee, estudava e criticava os truques retóricos da esquerda, mas, ao contrário de alguns dos seus amigos que detestavam o comunismo como um amor do passado, nunca foi comunista.
 
Outro autor decisivo para George Orwell vem do passado: Jonathan Swift, de quem, dentre seus escritos, produziu uma entrevista imaginária e o ensaio “Política vs. literatura: uma análise das Viagens de Gulliver”. O escritor quase sempre definiu 1984 como uma sátira na tradição desse livro de Swift, que relia todos os anos. Tinha fama de pessimista, mas segundo Dorian Lynskey sua visão era muito mais otimista do que a do escritor irlandês. Embora 1984 tenha sido interpretado sobretudo como um aviso, também contém alguma sátira herdada do Iluminismo: os temas centrais são a anulação da liberdade individual e o desaparecimento da verdade.
 
Em “Literatura e totalitarismo”, reunido em Por que escrevo e outros ensaios, George Orwell escreveu:
 
A peculiaridade do Estado totalitário é que, embora controle o pensamento, não o fixa. Estabelece regras inquestionáveis, mas modifica-as de um dia para o outro. Ele precisa de dogmas, porque precisa da obediência absoluta dos seus súditos, mas não pode evitar as mudanças, que são ditadas pelas necessidades de uma política baseada na força. O Estado totalitário declara-se infalível e, ao mesmo tempo, ataca o próprio conceito de verdade objetiva.³
 
Como muitos dos grandes livros, 1984 é fruto de uma obsessão. Reúne anos de reflexões, leituras e polêmicas. Na opinião de Dorian Lynskey, foi também o fim de um ciclo para o seu autor, embora não possamos saber o que ele teria escrito depois. Há paradoxos em seu sucesso posterior: o fato de estar morto facilitou que se tornasse um símbolo que talvez o incomodasse. Sabemos que gostava que os oprimidos pelos regimes totalitários encontrassem consolo ou uma descrição dos seus problemas na sua obra, mas talvez não gostasse de algumas leituras da guerra fria (uma expressão cunhada por Orwell): a sua reticência e a sua retidão são proverbiais e ele mesmo escreveu que “todos os santos são culpados enquanto não se demonstre o contrário”. Fez sucesso nos Estados Unidos, país que não visitou mas que não apreciava, e depois tornou-se uma espécie de ícone pop, uma sensibilidade que nem sempre é fácil de associar a Orwell, que era, em alguns aspectos, um conservador cultural. Mas tudo isso também enriquece o romance. O ministério da verdade amplia nossa compreensão de um livro decisivo, com informações sobre as fontes, o contexto e as interpretações que o gerou, e nos traz de volta a um romance fértil e presciente além do mito.


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Notas da tradução:
1 O excerto aqui apresentado é da tradução de Gisele Eberspächer (São Paulo: Lote 42, 2021).

2 A política e a língua inglesa também está no referido já Na livraria com Orwell (São Paulo: Lote 42, 2021).

3 A tradução apresentada aqui é a partir da versão em língua espanhola.
 
 
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O ministério da verdade
Dorian Lynskey
Claudio Alves Marcondes (Trad.)
Companhia das Letras, 2021
488 p.


* Este texto é a tradução livre de “El Ministerio de la Verdad”, publicado aqui, em Jot Down.

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