A Ilíada de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

Por Afonso Junior




Os estudos clássicos passam por uma crise. A formulação de Werner Jaeger de que Homero, como “mestre da humanidade inteira”, demonstra o dom especial dos gregos para chegar à “formulação daquilo que une e move todos nós” (Paideia, 1936), nos mostra como envelheceu o mito do “grego como modelo da cultura”, do qual a Europa bebeu para seus próprios impérios. Se as epopeias sobrevivem, é porque são maiores e mais fortes (também mais multiétnicas) que esse brilho falso.
 
É um texto central e, ao mesmo tempo, precisamos de um Guia. Uma vez, fiz uma obra teatral com a Ilíada. Um desafio, e não apenas a multiplicidade de enredos dos quais fala Aristóteles. Há algo no poema de distante e estranho. Seus valores são anteriores até mesmo à subjetividade. A Odisseia, provavelmente retrato da era dos comerciantes, é cheia de magia, monstros e gente como a gente, mas a Ilíada é a era das lutas por terras, saque de riquezas e colonização. Ainda falta muito tempo para que Sócrates proponha que o verdadeiro heroísmo é o controle sobre si mesmo, mas não mutilar o cadáver dos inimigos vencidos já é um começo. 

Além disso, a “religião” de “Homero” não consola ninguém: para os aristocratas gregos, a morte com glória é uma imortalidade suficiente. Apenas mais tarde (ou não) as “coisas de Orfeu”, propondo salvação também a escravos e mulheres, imaginam uma vida boa no outro mundo a partir da purificação pessoal. Eu pensava que, mesmo com os relatos interessantes que se enredam na aventura do irado Aquiles, que acaba por levar à morte seu hetaîros (“companheiro de armas, amigo”) (Ragusa, 2024), numa espécie de Romeu e Julieta com saque (relatos divertidos como o do sonho enganador de Zeus, a nuvem com que Afrodite salva Páris de Menelau, a despedida de Heitor e Andrômaca, o engano de Zeus por Hera, sua astuta esposa divina, o personagem de Helena), ainda é sobre nobreza na batalha, bronze e ferro, e, digamos, machos tóxicos.

Ou pelo menos isso eu pensava antes do livro de Giuliana Ragusa, professora da Universidade de São Paulo, a quem tive a oportunidade de entrevistar sobre o tema “O Ditirambo e a cultura da canção grega”. Ela explica na introdução que esse guia surgiu de um conjunto de textos elaborados no decorrer de anos na atividade de explicar a poesia antiga tanto ao público inserido nos Estudos Clássicos quanto ao público leigo. Se os Homéridas compuseram esta poesia heroica junto com seu público, a autora a torna nova e vibrante. 

A Ilíada, oriental como é, está entranhada na árvore do ocidente, de modo que cada época jogou sobre ela seus preconceitos e seus sonhos; uma das tarefas é desfazer as camadas acumuladas sobre o livro: por exemplo, parece-me incrível que muitos ainda falem dele como um “poema de autor”, que teria buscado a unidade de ação, e não como o trabalho conjunto de performers ao longo de séculos, unindo bons plots e fazendo costuras mais ou menos visíveis na medida em que se arma um corpo Frankenstein. Aqui, a autora traça o contexto da composição como o de uma cultura oral, na qual é central, por exemplo,  o princípio da repetição, a história cantada nos festivais públicos das cidades por um poeta acompanhado de lira. 

Neste processo, o mais interessante é o esforço de desnaturalização: como dizem o mundo os gregos antigos, que significa cada palavra que tentamos domesticar traduzindo em um vocabulário contemporâneo? Por exemplo, ela afirma que “não se pensa o indivíduo a partir de sua dimensão psicológica interior”. Outro exemplo: por que afinal Aquiles chega ao extremo de pedir a morte de companheiros gregos a Zeus para restaurar sua honra? Precisamos conhecer os conceitos de géras (prêmio do saque), timé (consideração pública, honra), kléos (glória), areté (excelência). A autora nos traz, por exemplo, o conceito de “compaixão”, que encerra o poema com o retorno da ordem através do respeito aos mortos. É como se o passado se chocasse com o presente do canto: Aquiles quer comer as carnes cruas de Heitor, protetor de Troia, o mesmo que a mãe de Heitor, a rainha Hécuba, deseja fazer com o aqueu no final do poema.

Giuliana examina cada momento com uma estrutura similar: um resumo, um esquema geral que expõe grupos de versos, comentário detalhado de cada passagem. O resultado é um olhar fresco e claro, ágil e preciso, que engaja o leitor nessa descoberta riquíssima. A força da Ilíada reside nessas pequenas rachaduras por onde crescem lágrimas humanas. Uma leitura detalhada ilumina a dor, a perda, a solidão desses grandes homens e mulheres, presos à “cultura da vergonha”. A Ilíada me parece agora um poema sobre a morte — sobre a forma de ser que é a humanidade, sobre os limites, sobre o quanto nossa ação impacta ou não o jogo do destino no tempo curto que o divino sublinha.
 
A visão do passado que as Musas propiciam por meio de um aedo-narrador, que move as emoções do público, nos aponta a autora, gera na audiência uma espécie de feitiço, alguns chegam às lágrimas vivendo com os personagens seus dramas. Não podemos imaginar de fato isso, a presentificação do invisível, ver o imaginário, nós que vivemos dentro da rede das imagens em movimento. No Canto IX, Aquiles mesmo, com sua lira, canta as glórias dos heróis, enlevando Pátroclo — a autora ressalta que a cena remete à formação aristocrática — nas armas e nos mitos — e mostra como a poesia preserva os valores ético-morais heroicos. A “cultura da canção” (a autora cita John Herington, autor de Poetry into Drama [1985]) tem como pilar a memória, e o cantor tem como função dar memória aos feitos notáveis dos homens excepcionais (enquanto eles vivem como sombras sem força no inframundo). Ainda assim, o mais feroz dos guerreiros é julgado como dedicado à selvageria por Apolo, pois perdeu os limites.
 
A análise verso a verso nos traz imagens que podem ter passado desapercebidas: por exemplo, como o desrespeito a um sacerdote (Crises, que vai até Agamêmnon pedir a devolução de sua filha Criseida) emoldura a narrativa revelando a importância do gesto de reciprocidade nas sociedades pré-letradas: fidelidade de Apolo (senhor das flechas e dos ratos da peste) com seu sacerdote, do sacerdote que oferece presentes em troca da moça raptada ao líder dos gregos.  Não por nada a instabilidade do coração é contraposta à ordem das relações, por exemplo, a hospitalidade, rompida por Páris quando o impulso de Afrodite o faz seduzir a esposa do seu anfitrião, a filha de Zeus e Leda.
 
A imagem de Helena que, da muralha de Troia, enquanto significa para os troianos o movimento dos aqueus, do mesmo modo que tece a guerra no seu tear, chama a si mesma de “promíscua” (quando sabemos que Afrodite a deu a Páris em troca de uma maçã dourada); o rei Príamo, sábio, responsabiliza os deuses pela guerra. A cena do desespero dos pais de Heitor quando Aquiles avança em sua direção, ambos implorando que não lute. Hécuba prevê que nunca poderá enterrar o filho. 

Giuliana nos faz parar para observar como Heitor luta com seu coração para aceitar que, apesar de não poder escolher não morrer, pode escolher como morrer; como Pátroclo implora em sonho ao amante por um funeral, para que possa descansar no Hades; como Andrômaca vê o que sofrerá seu filho, Astianax, “Sob um cruel senhor escravo indigno” (na tradução de Odorico Mendes); como o rei Príamo, aos pés de Aquiles, fala de seu pai, Peleu, que também chorará um filho morto. Observar e compreender, nessa jornada o Guia nos leva. 

Talvez a Ilíada seja um arquivo de todas as coisas que precisam aprender/ lembrar os gregos, mas não é um simples manual do massacre, no qual os monstros são os homens. Essas imagens são antes de tudo intensas, extraordinárias, boas de contar. São as imagens que o ocidente guardou: de Virgílio, a Marsilio Ficino e Luís Vaz de Camões, o “Homero português”. No Canto VI, Heitor retira seu elmo para que o filho não se assuste e, por um momento, emergem os seres humanos num mundo de funções sociais — o tear, para a mulher, a guerra, para o homem.  

Diz a pesquisadora: “A educação ou formação (paideia), nessas sociedades, dá-se pela repetição dessas narrativas e mitos.” O maior dramaturgo gay de todos os tempos, Platão, quis repensar os valores que eram tecidos nos cantos antigos, novos versos, nova vida. Se a tragédia e a filosofia dialogam tanto com os cantores homéricos é porque uma sabedoria prática profunda pode ser colhida desses contos de caçadores, e serviram de alimento à era de Péricles. 

As memórias do tempo das conquistas, depois que deixamos a floresta, precisavam ser contadas, e os povos teceram belos quadros para humanizar esse legado de sangue. O que a torna a Ilíada especial é a forma como um arco a princípio pouco interessante (rapto, ruína) apresenta no seu desenrolar, nas relações dos corpos, seres vulneráveis e cenários impactantes (sem falar dos deuses, que podem fazer tremer a terra e oferecer alívio cômico). O livro nos aproxima desse olhar sobre o verso-coisa, detalhando o como do conflito. Afinal, lembra a autora, como diz Apolo, as Moiras deram aos mortais um “paciente-resistente coração” como remédio contra sua condição, que lembra a de ramos de oliveira arrancados pelo vento... 


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A Ilíada de Homero: guia de leitura
Giuliana Ragusa
Mnēma, 2024
320 p.

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