La vie en rouge: a Medea de Sêneca por Gabriel Villela
Por Afonso Júnior
![]() |
| Ilustração de Guilherme Crivelaro. Cartaz de Medea. |
O edifício do teatro estava sem luz, com geradores há três dias. Umas calçadas na quadra próxima pegaram fogo, foram abertas pela empresa privada, ficam à vista pedras e terra. Há pouco, uma mulher desapareceu porque sua casa ficou sem luz. Policiais dão aula (e erram o português) porque os pais têm medo e preferem disciplina. Quem será o próximo Nero?
O brasileiro tem um pote até aqui de mágoa.
Os monstros de Sêneca também.
Quebrar o clássico é uma tarefa titânica. Existe algo que Gabriel Villela entende, algo sobre o barro do teatro catastrófico, suas rupturas. Trazer uma peça esquecida assim já demonstra sua seriedade.
Qualquer artista que aceite o desafio de montar um Sêneca merece louvores.
Os textos apresentam muitas dificuldades dentro da mentalidade comum de teatro (uma espécie de aristotelismo realista mediano).
São muitas descrições, muitas falas intermináveis, nunca estamos certos se se trata de um ser humano ou uma máscara.
O teatro senequiano apresenta três qualidades muito imediatas: a descrição da alma (remetendo ao estudo estoico do interior); a mistura com a retórica e a medicina (refletindo a farmacoterapia do discurso, como se mesclam no período do autor todos os gêneros e disciplinas); um lado macabro e violento, gótico (que remete ao núcleo psicótico da alma, como diria o psicanalista Bion). Não sabemos nem mesmo o que era teatro nesse tempo, porque essas tragédias é (praticamente) tudo que temos.
Por isso, uma leitura contemporânea tem muitos desafios (apesar do contemporâneo nos nutrir com bombas atômicas e genocídios que nos dão uma compreensão do desmembramento e do absurdo).
Em primeiro lugar criar o ambiente terrorífico sem cair num realismo impossível no teatro; depois, aceitar a distância metateatral sem cair no ridículo (um dos debates, por exemplo, é se Medeia seria uma performer de si mesma, já que tudo gira em torno de seu autoconhecimento e de sua decisão).
A própria extensão dos textos, a mania de Sêneca de remeter continuamente a outros mitos (que chamei teatro alquímico) é um dos complicadores. Sua ilusão do fragmento será escola para Shakespeare.
A montagem de Gabriel Villela e Ivan Andrade vence a maioria desses desafios. Com quase 40 anos de carreira, Vilella soube escolher uma tradução fluída (de Ricardo Duarte, que manteve o título latino) e ótimos colaboradores. O que dizer de quem fez Romeu e Julieta com o Grupo Galpão? Quando se tem quase 50 peças no passado, o desafio é ouvir o novo texto.
Talvez em outro contexto, começar falando do figurino (de Vilella) e cenário (J. C. Serroni, esse gênio) seria inoportuno. Não aqui. Pois imediatamente o figurino cria uma presença ausente, por exemplo, cobrindo o rosto da protagonista e trazendo o oriente (e o folclórico) para a cena (um pouco a la Pasolini).
O cenário é uma maravilha, com sua cortina vermelha de morcego anterior à cena, com seus potes de barro e um cenário de teatro... Compreende muito esse medo que emana do texto: os romanos temiam muito a feitiçaria — e a praticavam; temiam também os larvae, espíritos que erravam entre os vivos (larvae como as máscaras ou esqueletos para aterrorizar as crianças...).
Tudo é muito coerente até que desvelam a atriz Rosana Stavis: Medeia, que era poderosa e imponente, toca o chão, mas a atriz está no tom certo. Nada pode derrubar essas mulheres.
E são muitas Medeias, sim. Um acerto adicional da montagem é essa tripartição da protagonista, não só vencendo tantas páginas, mas também falando dessa personagem que Sêneca torna uma bruxa (a obra inspirou Lady Macbeth), mas de quem não pode tirar o conflito interno herdado de Eurípedes. (Lembro de outra montagem, gaúcha, em que a tragédia do grego já tinha a protagonista duplicada).
A peça tem algo de ritual, que a montagem resgata. Quando a nova Medeia surge (Mariana Muniz), um espanto revigora a cena: são movimentos orientais, máscaras brechtianas.
A imagem de um cabelo negro, face congelada, que inverte o corpo, é o reflexo dessa mulher “invertida”, que o próprio texto chama de viril. Quando mostra sua face, há luz demais, o teatro Kabuki — ao qual remete o figurino — fica isolado neste rosto.
Oscilamos assim entre a tragédia sombria e a farsa (com tons suassunianos), ambas viáveis: eu questiono a imagem dos filhos nos panos bordados. O desafio é vencer a ameaça do fantasma de uma linguagem vinda de um outro mundo, “extextorâneo”; talvez o circo, que é a máxima distância; chegará a desmontar a ilusão? Parece que a magia da experiência afasta este terror.
Não importa: o texto não perde a vivacidade. Os atores sabem o que estão dizendo e estão em cena. O coro de três resolve o enigma dos coros no mundo atual, um puzzle para os grandes (Antunes Filho, justamente, com seu butô, foi outro a vencer este enigma).
Nos comovemos com a atriz Walderez de Barros (85 anos), que coloca os óculos para ler o texto sentada, erra, retoma. Faz reverência ao público em cena aberta, é aplaudida. Nem sempre a farsa é triste.
O Jasão de Sêneca (agora, Jorge Emil) tem tudo para ser como a gente, já que casou com uma vilã, mas algo não funciona. Aqui é o inferno, e ele é apenas um garoto. Por outro lado, por que mesmo Medeia fica ajoelhada nesta longa cena com ele? Essa fera nunca apela de verdade a nossa piedade, como em Eurípedes. No texto, ela é a gigante, da linhagem do Sol.
Medeia diz: “Só terei descanso/ quando vir o universo desabar em ruínas juntamente/ comigo: que tudo desapareça comigo” (vv. 425-427, trad. Ana Alexandra Alves de Sousa). E os espelhos em cena nos lembram: somos Medeia.
Era algo necessário: ser mastigado, trazer Sêneca para a linguagem de criadores brasileiros, aqui, para o olhar trágico-barroco de Villela.
Tudo poderia virar carnaval, mas o diretor tomou distância de seu próprio vocabulário. Por isso, comunica-se com o participante além da parede, nós.
Eu acho que eu a faria mais diabólica e escura (afinal, Georgette Fadel fez isso com sua assustadora Medeia em Gota d’Água, um Breviário, de 2007), mas acreditei nesta mentira. Sêneca já pode esfregar esta montagem na cara de todos que disseram que eram textos impossíveis. Já faz parte do teatro brasileiro.
No todo, a peça convence. O final é operístico, e mostra que o importante é o mar que arrasta todos esses seres. La vie en rouge, como as paredes de Serroni em seda bordada.
Porque a força desta vingança é a paixão tempestuosa que Sêneca mostra numa impiedosa fantasia macabra.

Comentários