Augusto Abelaira, janela para o pós-modernismo na literatura portuguesa

Em algum tempo quase perdido da nossa memória era possível encontrar um ou outro livro de Augusto Abelaira nas livrarias brasileiras. Nesse tempo, o livre comércio de livros e outras trocas culturais entre o nosso país e Portugal ainda não estavam integralmente desfeitas como sinaliza os tempos de agora. Salvam-se poucos na cada vez mais diminuta presença dos autores do outro lado do Atlântico entre nós. Essas notas, no entanto, querem avivar a presença, dizendo um pouco do autor em destaque.
Augusto Abelaira nasceu no dia 18 de março de 1926, em Ançã, vilarejo de Catanhede. Viveu parte da infância entre os Açores e o Porto, fixando-se em Lisboa a partir de 1943, onde licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras, depois de uma passagem pelo curso de Direito. É desse período o aprofundamento das suas relações com a literatura e com a escrita, afirmadas a partir da sua estreia literária com A cidade das flores, publicado por sua própria conta em 1959, depois de décadas de negativas das editoras.
Basta dizer que, até a aparição do título que se tornaria o seu livro mais reeditado ao longo dos anos, o escritor tinha no alforje Lugar-geométrico, Beco sem saída e Os anos inúteis, obras que ficaram inéditas. As recusas foram em grande parte por razões políticas. Eram os anos da ditadura e Abelaira, desde cedo, se manteve um empenhado crítico contra o regime; formou parte dos movimentos estudantis de seu tempo e vários dos seus atos de oposição ao governo foram coibidos com a censura e a prisão. Em 1965, por exemplo, porque atribuiu, na qualidade de presidente do júri do Grande Prêmio da Sociedade Portuguesa de Escritores ao livro Luuanda, do escritor angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal; a polícia salazarista também o impediu de exercer as atividades como professor mesmo no ensino particular.
Passado o fim do Estado Novo, Augusto Abelaira ingressou em várias frentes culturais no seu país: foi diretor das revistas Seara nova entre 1969 e 1973, e Vida mundial entre 1974 e 1975; dirigiu programas para a televisão e ocupou o cargo de presidente da Associação Portuguesa de Escritores entre 1978 e 1979. Nesse ínterim, não deixou de continuar com a atividade literária, dedicando-se, especificamente ao romance e obras para o teatro e o jornalismo — colaborou com o Diário popular, o Diário de Lisboa, O jornal e Jornal de letras, além de diversos outros periódicos da época como Almanaque e Vértice.
“Certos romancistas contam histórias, histórias a que assistiram, que ouviram, leram nos jornais, inventaram. Tais romancistas escrevem romances muito diferentes uns dos outros. Mas há aqueles que se contam a si próprios, digamos assim (isto não significa que escrevem autobiografias). Estes últimos escrevem sempre o mesmo romance, variações sobre os mesmos temas (os temas que os preocupam)” — definiu numa entrevista para o Ciberkiosk. “Escrevo sempre o mesmo romance (tanto assim, que não distingo uns dos outros, não sei se certas cenas pertencem a este ou àquele). Embora talvez pudesse dizer que escrevo dois romances — ou sirvo-me de duas perspectivas para escrever o mesmo romance.”
Para Agripina Carriço Vieira, no verbete produzido para o portal do Instituto Camões, “os textos de Augusto Abelaira conduzem incessantemente o leitor para um universo marcado pelo questionamento constante das relações humanas, a análise dos sentimentos amorosos, a importância da arte na sociedade, o olhar crítico sobre as pessoas e as coisas, o sentido arbitrário e casuístico da existência, a fragmentação discursiva, a ironia impiedosamente lúcida, a metaficcionalidade discursiva.” A autora acrescenta que os personagens principais do escritor “para além de serem oriundos de um mesmo espaço social (a burguesia lisboeta), pertencem a um mesmo meio laboral, partilham vivências, convicções e emoções, comungam de uma mesma aversão pela política de direita (simbolizada pelas figuras de Salazar e Cavaco Silva), perfilham de um imaginário cultural e afetivo comum, empenham-se nas mesmas causas (a MUD Juvenil, a contestação ao Plano Marshall), procuram pela escrita uma apreensão mais concreta do mundo.”
Tais qualidades ingressam o escritor na frente da chamada literatura neorrealista, devido o interesse de se colocar em chave documental e intervencionista como questionadora dos motivos sociais, históricos e políticos do seu tempo, ainda que o escritor não tenha, como outros de sua geração e estética, se dedicado a perscrutar a vida de operários e camponeses explorada pelos poderes dominantes ou as desigualdades sociais daí derivadas. “Se as questões nacionais surgem de forma obsessiva (a identidade portuguesa e os destinos da nação), elas estão no entanto circunscritas a um núcleo extremamente restrito da sociedade portuguesa: uma sociedade urbana, lisboeta, burguesa e cultivada, que não tem problemas financeiros, vive confortavelmente instalada, gosta de viajar, ler, ouvir música e conversar. As personagens interessam-se pelo(s) outro(s) com quem partilham o espaço da intimidade, questionam desejos e emoções, discutem convicções políticas. O retrato desta forma esboçado reveste-se de uma grande minúcia, que resulta de uma observação pormenorizada e reiterada, apresentando uma visão irónica, por vezes sarcástica e disfórica, porém parcial porque circunscrita a um grupo particular e limitado da sociedade portuguesa.”, completa Carriço Vieira.
É preciso designar que a passagem de Augusto Abelaira pelo neorrealismo não fixa a sua obra nesse rol. De acordo com Serafim Ferreira em texto sobre Bolor, é sempre difícil enquadrar literariamente a obra do escritor, “por ter sabido urdir a trama dos seus livros numa profunda e bem moderna ambiguidade”. Para ele, foi o romancista “que sempre procurou encontrar um leitor ideal para a compreensão dos seus romances, Augusto Abelaira ocupa desde há muito um lugar de primeiro plano na moderna literatura portuguesa, dotado de um sentido pessoal de excelente escrita e numa voz singular e única, no tom expressivo e grave dos diálogos, no entendimento e desmistificação das relações humanas sempre presentes nos seus livros, podendo dizer-se que toda a sua obra abriu caminho a uma pós-modernidade literária que ainda o situa como um romancista que vale a pena ler.”
Além de A cidade das flores publicou mais de uma dezena de outros títulos neste gênero: Os desertores (1960), As boas intenções (1963), Enseada amena (1966), Bolor (1968), Sem tecto, em ruínas (1979), O triunfo da morte (1981), O bosque harmonioso (1982), O único animal que? (1985), Deste modo ou daquele (1990) e Outrora agora (1996); em 2004, saiu o póstumo Nem só mas também. No teatro, publicou A palavra é de oiro (1961), O nariz de Cleópatra (1962), o monólogo Ode (quase) marítima (1968) e Anfitrião (1980). É também o autor do livro de contos Quadro paredes nuas (1972).
Augusto Abelaira morreu em Lisboa, no dia 4 de julho de 2003.
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