Boletim Letras 360º #682

DO EDITOR

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William Blake. Thomas Phillips, 1807. National Portrait Gallery, Londres (detalhe).





LANÇAMENTOS

O regresso por outras vias à obra de um dos mais singulares poetas da literatura.  

William Blake foi um visionário que, em conversas espirituais com filósofos, pintores, profetas e poetas, criou uma obra poética e pictórica vigorosa e única, na qual se destacam poemas como “Songs of Innocence and of Experience”, “The Marriage of Heaven and Hell”, “Milton: A Poem in Two Books” e “Jerusalem: The Emanation of the Giant Albion”.  Em Milton: um poema em dois cantos, Blake dá voz poética à sua interlocução com Milton ao trazer o autor de Paradise Lost (Paraíso perdido) para dentro de seu poema e guiá-lo rumo à Cidade das Artes, paraíso da imaginação na poética blakeana. Blake e Milton se unem e com eles o poema propõe a união de todos os contrários como motor divino de transformação da existência terrena.  Publicado em edição bilíngue pela Editora da UnB, o livro tem tradução de Juliana Steil e é enriquecida por dois importantes paratextos: a “Nota de tradução”, em que Steil reflete sobre os desafios rítmicos e simbólicos da obra, e o ensaio introdutório “Um imenso número de versos sobre um grande tema”, do professor Mark Crosby (Kansas State University), que contextualiza a gênese do poema, as camadas autobiográficas e a inserção no mitopoético blakeano. Você pode comprar o livro aqui.

Stefan Zweig e uma imagem da opressão imposta pela guerra. 

Mendel, o livreiro é uma novela que foi escrita em 1929 e publicada, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse e narra a história de um espantoso alfarrabista que passa os dias sentado na mesma mesa de um dos cafés de Viena. Com a sua memória enciclopédica, Mendel é admirado pela clientela culta que recorre aos seus serviços. Em plena Primeira Guerra Mundial, quando o Império Austro-Húngaro e a Rússia se encontravam em campos opostos, Jakob Mendel é enviado para um campo de prisioneiros, injustamente acusado de colaborar com os inimigos da Áustria. Quando finalmente é solto, Mendel e o mundo já não são os mesmos. Uma breve e comovente história, uma homenagem de Stefan Zweig ao mundo dos livros e aos livreiros. Publicação da Arte & Letra; tradução de Gisele Eberspacher. Você pode comprar o livro aqui.

Romance de estreia do escritor Karim Kattan, um marco da literatura palestina queer contemporânea entrelaça lirismo, erotismo e uma reflexão sobre sobrevivência e memória .

A narrativa nos apresenta a vida de Faiçal, jovem que retorna sozinho a Jabalayn, na Palestina, após a morte da tia. Separado de seu companheiro, George, ele reencontra o antigo casarão da família, local carregado de lembranças, segredos e delírios. Nesse retorno, passado e presente se confundem, criando um espaço limiar onde o protagonista revisita não apenas a casa da sua infância, mas a própria história, em uma terra marcada pelo apagamento. O autor constrói um romance em que cheiros, vozes e imagens atravessam as paredes de uma casa em decomposição. Mais do que um romance sobre herança, O palácio das duas colinas propõe uma reflexão sobre identidade, política e, sobretudo, de um desejo queer que insiste em sobreviver, mesmo em um mundo em ruínas.  Vencedora do Prêmio dos Cinco Continentes da Francofonia em 2021, a obra, traduzida por Gabriel Semerene. O livro é publicado pela editora Ercolano. Você pode comprar o livro aqui.

Nova edição e tradução da obra-prima de Joseph Conrad.

A partir de sua experiência concreta no Congo, em 1890, Conrad faz uma reflexão sobre as trevas que habitam dentro e fora de nós nesse romance clássico do século XX. A obra relata a viagem de Marlow, comandante de um barco a vapor, que se embrenha pela selva africana para resgatar Kurtz, maior comerciante de marfim, que está sem se comunicar há muito tempo. Durante a viagem, Marlow se depara com as maiores perversidades da exploração colonial dos europeus contra os africanos. Essa visão sombria leva Conrad a mergulhar nos meandros tenebrosos da mente humana, numa narrativa densa, repleta de suspense e horrores. Coração das trevas sai agora pela editora Cultura com tradução de Guilherme Gontijo Flores. Você pode comprar o livro aqui.

O novo livro do poeta Thiago Ponce de Moraes. 

Ao estampar na capa de seu novo livro de poemas a palavra “celacanto”, peixe que é considerado um “fóssil vivo” por representar espécies extintas há dezenas de milhões de anos, Thiago Ponce de Moraes convoca os leitores para uma reflexão sobre o tempo do fazer poético, ou melhor, sobre a persistência da vida — e da poesia — num tempo hostil. Note-se, ainda, que o título-peixe permite ouvir o nome de Paul Celan, poeta fundamental para o autor, e também “canto”, um dos vários nomes da poesia. Dividido em sete partes, Celacanto cobre um arco vasto e coeso de questões. Vasto, sim, porque os poemas movem-se entre o amor, a chegada dos filhos, a partida dos avôs e de um amigo, a escrita, a escuta, o silêncio. Mas todas essas indagações estão lançadas no “abismo do presente”, em que “o porvir se afunda”. Não é por acaso que todas as seções, desde seus títulos, são marcadas pela temporalidade (“A pré-história dos sentidos”, “Depois da colisão”, “O tempo da peste”, “A eternidade mantém-se nos limites”, “Demorar-se no sonho dos bichos”, “Uma data em cada mão” e “Antes”). O poeta é “hóspede do instante”, mas quer saber o que persiste em tudo que se transforma, e busca, em cada verso, “fazer um furo/ no futuro/ lançar uma bomba/ ao futuro”. Por isso, a convocação para que o celacanto, um peixe “contra a lógica do tempo”, desvende “aquilo que insiste em nós” (somos nosso próprio fóssil?). Por isso, descascar as palavras para ver o que elas escondem, o que arrastam do passado. Por isso, manter-se vivo, manter a poesia viva em meio à “fúria obscura/ da passagem do tempo”. Publicação do Círculo de poemas. Você pode comprar o livro aqui.

Nono livro de poemas de um dos mais consagrados poetas, contistas e tradutores brasileiros em atividade, este volume traz Paulo Henriques Britto em sua melhor forma

Avesso ao sentimentalismo, aos arroubos, à autocomiseração, o autor criou uma poética extraordinária, com linguagem afiada e irônica, equilibrada entre o ceticismo e a descrença. Embora os poemas de Paulo Henriques Britto sugiram resignação e pessimismo, uma segunda leitura pode revelar o sentido oposto. A própria insistência em escrever — em tentar encaixar o mundo na forma fixa do verso — opera como um “impulso visceral, orgânico,/ que mantém o cérebro ativo/ e combate ataques de pânico”. Como ele demonstra na série “Intransitivas”, a função terapêutica da poesia não pode ser descartada: “É palavra em lugar de droga,/ espécie incorpórea de ioga”. Não se trata, é claro, de imaginar que o poema possa oferecer soluções para os problemas do mundo ou dar fim às nossas angústias individuais. Longe disso. Mas o humor mal-humorado e desesperançoso do poeta atesta que “o poema cria uma existência/ não real, mas não de todo improvável,/ uma presença falsa que compensa”. É nessa ausência, ou falsa presença, que a poesia mostra ser capaz de oferecer “o gosto, o som, a cor” e, assim, curiosamente, cumprir “o que promete”. Embora é publicado pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Mario Vargas Llosa e os desafios da escrita literária. 

Como transformar uma ideia em uma obra literária? Por onde começar essa aventura? De onde vêm as histórias que os romances contam? Essas são algumas das perguntas que o Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, trata com franqueza e sensibilidade neste breve e impactante livro. Em uma série de reflexões em forma de cartas, Vargas Llosa responde às inquietações de quem deseja trilhar o caminho da escrita. Combinando experiências pessoais, análise de grandes obras e discussões sobre técnica narrativa, o autor reflete sobre elementos essenciais do romance — como tempo, espaço, narrador e ritmo — e oferece preciosos conselhos sobre os mais variados temas, como disciplina e vocação. Ao revelar como a literatura pode ser uma forma de entender o mundo e a si mesmo, ele reafirma a importância da imaginação e da liberdade criativa. O resultado é uma aula magistral sobre o ofício da escrita para todos que partilham da paixão pelos livros. Com tradução de Ari Roitman, Cartas a um jovem escritor sai pela Alfaguara. Você pode comprar o livro aqui.

Da Letônia para o Brasil.

Situado na Letônia soviética, este romance acompanha gerações de mulheres marcadas pelo mesmo ciclo de silêncio e resistência. A mãe, uma ginecologista brilhante, mas sufocada pela ideologia comunista, é punida por desafiar o sistema e exilada em um vilarejo do interior. A filha cresce ao seu lado, tentando compreender e redimir essa mulher que, em nome da sobrevivência, chegou a negar-lhe o próprio leite. Considerada uma das autoras mais influentes da prosa letã contemporânea, Nora Ikstena reflete sobre maternidade, culpa e perdão nesta poderosa narrativa que apresenta o corpo e a memória como territórios de luta. O leite da mãe é publicado pela editora Rua do Sabão; tradução de Adriana Zoudine. Você pode comprar o livro aqui.

Lydia Davis e o ofício de escrever. 

Um livro que disseca mistérios da escrita — prolongamento, como sabemos, dos mistérios da leitura. Segundo Michel Laub, Lydia Davis faz isso com uma erudição particular, criando uma espécie de teoria literária a partir da própria experiência e gosto, e uma generosidade que não abdica da fluidez e do sabor. Partindo de sua dupla atividade de ficcionista e tradutora, Lydia Davis discorre nestes ensaios sobre vários aspectos da (sua) escrita. A influência das prosas não convencionais; a revisão obsessiva; a transformação de eventos reais em ficção; diários, arquivos, fragmentos, notas, hábitos: tudo isso é aqui matéria de reflexão em um estilo leve, inventivo e apaixonado. Esta edição, com uma seleção inédita de textos, apresenta ao público brasileiro a brilhante faceta de ensaísta da autora, já amplamente reconhecida como uma das maiores contistas em atividade. Um pato amado é assado sai pela Martins Fontes; tradução de Camila von Holdefer. Você pode comprar o livro aqui.

A crítica de Heloisa nos tempos Buarque de Hollanda. 

Crítica e rebeldia reúne os textos que Heloisa Teixeira publicou no Jornal do Brasil entre 1980 e 2005, período em que ainda assinava como Heloisa Buarque de Hollanda. Escritos de forma intermitente ao longo dessas décadas decisivas de transformação política e cultural no país, os artigos revelam, em movimento, a formação de uma intelectual pública capaz de interpretar o Brasil em suas tensões, promessas e contradições. Com escrita ao mesmo tempo rigorosa e aberta ao risco, Heloisa transforma a crítica em laboratório: investiga a emergência de novas linguagens, acompanha a força das culturas marginalizadas e antecipa debates que só ganhariam centralidade décadas depois. Seus textos articulam universidade e espaço público, teoria e experiência, mostrando que a crítica pode ser também uma forma de intervenção cultural. Ao percorrer poesia marginal, feminismos, cultura digital, memória política e transformações da autoria, este volume revela uma obra que permanece pulsante e atual ― um arquivo vivo de ideias que continuam a interpelar a cultura brasileira. Organizado por André Botelho e Caroline Tresoldi, o livro é publicado pela Bazar do Tempo. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

O único romance de Dalton Trevisan é o novo título no projeto de reedição da obra do escritor pela Todavia.

Em A Polaquinha, publicado em 1985, encontramos uma jovem funcionária de um hospital, a polaquinha do título, que se prostitui para pagar os estudos. Suas noites são uma sequência de homens que podem ser casados, violentos, sombrios e até ocasionalmente gentis. Nas palavras de Otto Lara Resende, uma busca cheia de culpa e castigo e perdição, mas onde há também o amor, no caso pelo feioso e asmático João. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS 

Tal como concebido por Katherine Mansfield. A editora Nós publica Bliss e outras histórias com tradução de Ana Carolina Mesquita.

Judith Teixeira por inteira. Sai no Brasil a obra reunida da poeta. Com organização, notas e estudo introdutório de Fabio Mario da Silva é a primeira vez que os leitores brasileiros têm acesso à literatura da poeta portuguesa. Feito da editora Polifonia.

Mary Oliver. Outra poeta que chega pela primeira vez ao Brasil. O Círculo de Poemas publica Pequenas glórias, reunião de três livros concebidos na maturidade da poeta estadunidense. A tradução é de Patricia Lino.

O quinto livro da Coleção Estudos Saramaguianos. Produzida pela editora Moinhos, a sequência de títulos que exploram diversos aspectos da obra do escritor português Prêmio Nobel de Literatura recebe, agora, O espaço da memória em José Saramago: literatura e autobiografia, de Denise Noronha Lima.

A princesa de Clèves. A editora Ercolano publica uma edição de luxo com as ilustrações exclusivas de Christian Lacroix e traducao inédita de Jorge Coli deste romance que se sagrou entre os mais importantes da literatura francesa do século XVII.

OBITUÁRIO

Morreu Alfredo Bryce Echenique.

Alfredo Bryce Echenique nasceu em Lima, em 19 de fevereiro de 1939. Formou-se em Direito pela Universidade de San Marcos, instituição à qual regressaria para obter o Doutorado em Letras; a vida acadêmica se prolongou fora do seu país: estudou literatura francesa clássica na Sorbonne e foi professor em diversas instituições na França, Itália, Grécia, Alemanha e Espanha, país onde se exilou durante os anos de ditadura. Considerado pela crítica um continuador dos modelos literários estabelecidos com Julio Cortázar, Manuel Puig ou Julio Ramón Ribeyro, Echenique construiu um vasta obra estruturada pelo conto, novela, romance e ensaio. No Brasil, saíram, entre outros títulos A vida exagerada de Martin Romaña, O homem que falava de Otavia de Cadiz e Um mundo para Julius. Entre os prêmios que marcaram o reconhecimento da sua obra estão o Prêmio Nacional de Literatura (1972) e FIL de Literatura (2012). O escritor morreu no dia 10 de março de 2026, na sua cidade natal.

DICAS DE LEITURA

1. Nem santos nem anjos, de Ivan Klíma (Trad. Aleksandr Jovanovic, Record, 336p.) A partir das experiências e incertezas de uma dentista divorciada nascida no dia da morte de Stálin, este romance revisita a história de três gerações desde a Segunda Guerra à República Tcheca do começo deste século. Você pode comprar o livro aqui

2. RUR, de Karel Čapek (Trad. Erick Fishuk, Aleph, 258p.) Um futuro em que todos os trabalhadores são robôs até que sua fórmula de fabricação é adulterada para desenvolverem a capacidade de odiar. A sátira de 1920 que deu origem ao termo robô e antecipou o medo da IA. Você pode comprar o livro aqui

3. Appassionata, de Helena Kolody (Arte & Letra, 128p.) Um conjunto de poemas inéditos publicado duas décadas depois da morte da poeta paranaense. Você pode comprar o livro aqui

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

Neste 14 de março de 2026, celebramos o centenário de Carlos Heitor Cony. No Instagram do Letras, um recorte em que o escritor brasileiro comenta sua relação com o trabalho da escrita do romance. Aqui.

O site do Instituto Moreira Salles dedicado à obra de Clarice Lispector disponibilizou um longo ensaio de Elizama Almeida que explora o conceito de desedição a partir dos manuscritos que deram origem ao romance póstumo Um sopro de vida. É uma oportunidade de o leitor mergulhar no complexo universo de anotações da escritora. 

BAÚ DE LETRAS

Neste endereço, o leitor encontra algumas das nossas incursões pela obra e biografia de Carlos Heitor Cony: um breve perfil, as resenhas de A tarde da sua ausência e Pessach: a travessia, escritas por Rafael Kafka.

O jornalista e escritor português Mário Zambujal também foi outro nome que nos deixou esta semana. No nosso arquivo, o leitor encontra duas resenhas de Pedro Belo Clara de dois livros do autor: Crónica dos bons malandros, talvez o livro mais conhecido dele; e Serpentina

De Alfredo Bryce Echenique, Rafael Kafka, escreveu em 2020, uma resenha de A vida exagerada de Martín Romaña, um romance, segundo ele, “primordial para entendermos a dimensão do realismo mágico e de sua influência literária e política”. 

DUAS PALAVRINHAS

A arte toda é truque. A literatura também.

— Carlos Heitor Cony

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