As melhores leituras de 2018 na opinião dos leitores do Letras



Xeque-mate, de Maria Azenha
(M Céu Costa)
Escolho este livro pela sua poética muito intensa. É um livro que avisa e alerta o leitor (eventualmente menos atento). É um livro “bélico”. Escolho-o também pela sua identidade e liberdade poética, tão difícil de encontrar nos contemporâneos. Deixo um pequeno excerto de um dos poemas: “Nunca encarei a Poesia como uma epístola aos pobres / nem como um espelho de paz / nem como um passatempo literário / para entreter académicos.”

Orgulho e preconceito, de Jane Austen
(Robertta Marinho)
Por representar a mulher em uma condição de autonomia, com ênfase na personagem Elizabeth, que desconstrói os estereótipos femininos na literatura que li até agora. Principalmente por me fazer acreditar no amor novamente.

Memória de elefante, de António Lobo Antunes
(Gilberto Tavares)
Fazia muito tempo que não lia nada desse escritor tão genial. Aliás, os suecos cometem grande injustiça ao não dar a ele o Prêmio Nobel de Literatura. Novamente, ele visita o tema da guerra e amplia aquilo que descreveu tão acidamente em Os cus de Judas. Recomendo! Mais António Lobo Antunes!

As alegrias da Maternidade, de Buchi Emicheta
(Daiane Falcão Teixeira)
Um livro que me tocou muito falando sobre o amor de uma mãe guerreira.

Doutor Fausto, de Thomas Mann
(Hugo Trajano)
Das leituras de 2018 aquela que mais me dominou, seja no tocante ao tempo, seja no que se refere ao prazer estético, foi, sem dúvidas, a grande obra de Thomas Mann, Doutor Fausto. Livro há muito desejado e adquirido, mas que somente neste ano pude me dedicar à leitura. Confesso ter sido essa a leitura mais densa empreendida por mim nesta minha vida de leitor. Densa no que se refere tanto à questão conteúdo como à linguagem. Livro não fácil que requer dedicação máxima, atenção, cuidado. Mas uma obra grandiosa! É magistral o modo como o autor nos insere na atmosfera dos tempos: o tempo a partir do qual Serenus narra, anos de 1940, e aqueles que correspondem à narrativa da vida de Adrian, décadas iniciais do século XX. Somos, assim, inseridos em tempos múltiplos mas que são, no mesmo instante, faces de uma só expressão. O capítulo final, em que Adrian revela à plateia o pacto realizado com o demônio, assim como a passagem anterior, sobre a doença e morte da criança amada, caíram sobre mim com uma força tal que não me pude conter. Fiquei inquieto. Melancólico, mas ao mesmo tempo feliz, contente por ter podido experimentar algo tão belo, forte. As grandes obras têm esse poder. Creio que por esses motivos e pontos outros esse fora o meu livro máximo do ano. Obrigado, Thomas Mann!

O Pai da Menina Morta, de Tiago Ferro
(Guilherme Mazzafera)
Dos poucos livros lançados em 2018 que consegui ler, para mim o grande destaque é este. É um livro absolutamente impressionante. Partindo de uma perda real, o romance recusa o jargão de autoficção, pondo em xeque os diversos lugares-comuns da perda e do luto em uma busca incessante, profusa, por dar forma à dor, demanda que acaba por questionar a própria dimensão curativa da escrita. Incrível. Leiam.

Desonra, de J.M. Coetzee
(Carina Bortolini)
Neste livro, Coetzee conta a história de um professor de literatura que, envolvido num escândalo sexual com uma aluna, se refugia na casa rural de sua filha. Ali, vai se deparar com o que restou da África do Sul pós-apartheid, um retrato da violência como resposta a séculos de violência. Um enredo seco, profundo, que diz tanto sobre a humanidade e sobre o subjugo e a opressão. Figuras de linguagem magníficas, personagens complexos e nenhuma resposta fácil. Um drama pungente que nos tira de nossa zona de conforto e obriga à reflexão.

Chove nos Campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir
(Fernando Martins)
Eu ainda tô terminando ele, faltam umas 30 páginas, mas já posso afirmar que ele é a melhor coisa que podia ter me acontecido nesse 2018 tão turbulento. Ele é bom justamente por me transportar pros campos, ora queimados, ora alagados pela chuva; ele é bom sem pretensão (pelo menos pra mim), ele é bom justamente por existir, por me permitir esse escape da minha realidade. A literatura é isso: desconstrução. E eu realmente espero que em 2019 a literatura siga sendo desconstrução pra mim, desconstrução do que eu sou, desconstrução do que eu acredito, desconstrução dos muros que me cercam.

O Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores, de Ariano Suassuna
(Gildeone dos Santos Oliveira)
Romance inédito de Ariano Suassuna, que apresenta várias perspectivas de utilização dos gêneros artísticos, como poesia, teatro, música, romance, artes plásticas. Além disso, a obra se apresenta como uma das mais inovadoras da arte contemporânea no Brasil. O enredo do romance se constrói a partir da própria arte e atuação do autor no universo do Teatro, poesia, música e literatura, a partir do Movimento Armorial incentivado por Ariano desde 1970, e ainda pouco conhecido Brasil a fora.

O despertar da senhorita Prim, de Natalia Sanmartin Fenollera
(Andréia Mafra Benatti)
Porque me senti compreendida! Ademais, o livro é rico em referências clássicas.

As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki
(Fernanda Huguenin)
Eu adoro enredos que mostram o cotidiano em família, e nesse senti que aprendi muito da tradição e poesia da cultura japonesa. Mesmo sendo um país com costumes distintos do nosso, as personagens do livro são tão bem construídas que eu me apeguei e passei a entender seus motivos mesmo não concordando com certas ações. No final, família é sempre família mesmo com conflitos internos ou externo. E esse livro teve muitas partes que me lembraram os clássicos de Jane Austen, que é uma das minhas escritoras favoritas.

Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes
(Pedro Belo Clara)
Um livro adorável, daqueles que lendo logo se descobre que foi escrito com o coração. É um dos clássicos da literatura portuguesa do século XX cuja leitura, com o passar dos anos, foi sempre adiada – sem que entendesse muito bem porquê. A história homenageia as crianças pobres de Alhandra, localidade a norte de Lisboa, pela denúncia das suas condições de vida e sonhos desfeitos, inspirado certamente naquelas que o próprio autor conheceu quando trabalhou na região. Fazendo (e em muito) lembrar o êxito de Jorge Amado Capitães da Areia, é um livro ternurento que se eterniza como testemunha fiel das duríssimas condições de trabalho a que tantas crianças estavam sujeitas nos esteiros (pequenos canais) do rio Tejo, retirando e moldando barro para o fabrico de telhas.



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