Para tempos de isolamento: Uniões, de Robert Musil


Por Paula Luersen

“Deveríamos todos estar sozinhos com aquilo que acontece e, ao mesmo tempo, deveríamos estar juntos, mudos e fechados, como um recinto de quatro paredes e sem janelas que formam um espaço onde tudo pode acontecer realmente.”

Gravura do livro Uniões 


               
Descrever o que o leitor encontrará em Uniões, de Robert Musil, é um grande desafio. Textos e livros costumam ser apresentados a partir de alguns modos já bastante conhecidos do público e os contos do livro resistem à maioria deles. Eu poderia dizer, por exemplo, optando por inserir Uniões entre as obras do autor, que o volume apresenta dois contos que constituem algumas das experimentações mais ousadas feitas pelo escritor austríaco. Diferentemente de O jovem Törless ou O homem sem qualidades, o autor parece abrir mão aqui de toda a mediação entre a visão das personagens principais e sua compreensão objetiva do entorno. Nos contos de Uniões estamos inteiramente submersos no que se passa na mente e no corpo de duas mulheres – Claudine e Verônica – e é de dentro de suas percepções e evocações que acessamos a vida que lhes cerca. Isso ainda é pouco, entretanto, para apresentar esses escritos.

Eu poderia recorrer, então, à sinopse como maneira de situar o que se passa na narrativa. Tomando como exemplo “A perfeição do amor”, diria que a história trata de uma breve viagem de trem, contada a partir da imaginação da protagonista. Durante a viagem, ela revisita experiências eróticas passadas e se entrega à infidelidade como forma de analisar o sentimento amoroso que nutre pelo marido. Entretanto, soa insuficiente e quase errôneo referir-se ao conto nesses termos. A esfera das ações que movimentam a trama não nos informa sobre a intensidade do que é narrado. O autor nos insere em um fluxo de atmosferas que as reflexões das personagens motivam e projetam.

Vamos a uma cena: quando acompanhamos Claudine à estação de trem, pouco sabemos sobre o lugar que ela percorre. É somente a partir das sensações experimentadas na estação que, pouco a pouco, acessamos o entorno. Primeiramente, há o nojo em relação aos gestos negligentes das pessoas, que empurram e pressionam Claudine enquanto esperam pelo trem. Há, então, a percepção da luz do sol delineando os semblantes empalidecidos daqueles que habitam a estação. Há a humilhação frente à superioridade física daquela massa de gente que diminui a personagem, já retraída. Mas há, também, paradoxalmente, o arrebatamento no contato com estranhos que a faz lembrar de um período quase esquecido, reavivado em suas marcas. Ela protege esse sentimento, em meio à multidão, pois procurará retomá-lo. Há, por fim, uma suave dor de cabeça acompanhada dessa impressão de lembrança que ela quer proteger: “pensou que estava sentindo ao redor da testa um círculo cortante, tão invisível e irreal como se fosse feito de vidro e sonho, mas às vezes podia ser somente um sibilar agudo e longínquo girando na cabeça”. Os contos, desse modo, são feitos de cada pequena perturbação do sentir, do que é trazido pelas sensações, tocando por vezes os limites de um delírio.

Tentar descrever ou apresentar o livro de modo sumário está, assim, fadado ao fracasso.  E esse quem sabe seja um forte indicativo da resistência dos contos – e de Musil – ao consumismo literário que, como hoje, dominava a sua época. Esse dado está presente nos ensaios que compõem o livro, assinados pela professora e pesquisadora Kathrin Rosenfield - que traduziu o livro juntamente com Lawrence Flores Pereira. Segundo os ensaios da autora, Musil sabia que esse era um livro exigente e até enervante para o leitor, mas que se inseria de modo decisivo em seu projeto estético. O autor considerava tais contos alguns de seus melhores escritos, ainda que conforme anotações em seu diário pensasse que seriam melhor apresentados fora do formato livro, com páginas colocadas entre vidros para serem espalhadas e trocadas de vez em quando. É desse modo que tento trazer o livro, destacando alguns trechos de minha escolha que, mesmo descolados da narrativa, causam uma forte impressão.

A experiência de leitura de Uniões é, de fato, inebriante. Somos conduzidos de atmosferas densas, feitas de elucubrações, ideias e lembranças, a experiências extremas de vazio cuidadosamente elaboradas. Vagamos entre temporalidades, desejos negociados com a culpa e a fantasia, desvendando tramas que nos levam muito rapidamente da distração ao abismo: “Ela estava sentada muito tranquila, brincando com seus pensamentos. Há um mundo, algo oblíquo e remoto, um outro mundo ou apenas uma tristeza... paredes como que pintadas de febre e fantasias, entre essas paredes as palavras dos sãos não ressoam, tombando, vazias, no chão, como tapetes pesados que impedem o gesto de prosperar.”

Mas o que me leva a trazer um comentário sobre Uniões nesse momento é a capacidade do autor de dizer as sensações e emoções, de mostrar como pouco nos resta de tudo aquilo que nos perpassa, embora se perturbe um fundo que não nos é de todo acessível à consciência. Emoções e intelecto tocam-se mutuamente no fluxo que atravessa o corpo: “E de repente, ela teve de pensar em algo que ouvira certa vez: que há milhões de pequenos seres instalados em cada pessoa e que, a cada sopro, vão e vêm incontáveis torrentes de vida, e ela hesitou por instantes, surpresa com aquele pensamento e tudo ficou tão quente e escuro quanto numa imensa onda púrpura (...).”

A imensa onda púrpura, quente e escura, que toma Verônica de assalto mostra a habilidade de Musil em dar novo nome ao sentir. Sabemos que tais emoções existem, embora às vezes não saibamos descrevê-las. Ou mais, sabemos que elas existem apenas com o corpo. Mas o autor nos leva a percorrer esses estados, como em outro trecho de “A tentação da quieta Verônica” em que ressitua o ato de lembrar: “Era como se ela afundasse, sem parar, passado adentro. Porém, quando olhava ao redor, sentia o acaso nesse mergulho através das épocas da alma que eram como camadas de águas profundas, sedimentadas e sobrepostas: não pelo fato de essas coisas se apresentarem assim, mas porque esse aspecto nelas continua sendo, como se solidamente pertencessem àquele lugar, suas garras firmes e inaturais similares a um sentimento que, embora já esgotado em seu tempo, não quer sair do rosto”.

O passado que “não quer sair do rosto” é feito de marcas que as personagens revisitam, levando-nos a um sentir tão profundo que libera amarras, expõe contradições, elabora fantasias e revela os limites das ações das personagens. Acompanhamos estados que se sobrepõem e se esvaem, deixando Claudine e Verônica a procurar seu nexo entre ruminações e lembranças, como se confusas entre um mundo racional que quer explicar e um outro mundo, mais vivo e fundo, que as desnorteia. Em alguns pontos do texto, no entanto, Musil chega a formulações que nos falam diretamente, expondo com extrema lucidez e precisão questões que vão além do sentir das personagens: “Há coisas que nunca podemos fazer, não sabemos por quê... talvez sejam as mais importantes. Sabemos que sobre a vida há um terrível pesar, uma rigidez dura como dedos expostos à geada. E, às vezes, isso se dissolve, às vezes o gelo derrete nas pradarias e ficamos pensativos, tornamo-nos um breu luminoso que se espraia rumo à vastidão. A vida, rígida como osso, a decisiva vida se rearticula para além, laço após laço, mas nós, nós não agimos.”

O trecho, através de ricas metáforas, nos leva da rigidez – como dedos expostos à geada – para a vastidão – tal qual gelo derretendo nas pradarias. E a beleza das metáforas nos passeia entre o corpo e a natureza, que desde O jovem Törless colocavam-se como lugares intercambiáveis para as sensações. A paisagem reage ao corpo, assim como o corpo lhe pega emprestado névoas, grãos, faíscas e crepúsculos para dar nome ao sentir. Claudine e Verônica vertem pensamentos “em pequenas e intermináveis gotículas”; vivem a solidão “como um lago sem margens (...) sem escoadouro ao redor”; captam “uma realidade sob a qual fluímos, inalcançados por nós mesmos, num rio de coisas nunca reais, e cujo ruído solitário, terno e remoto ninguém ouve”.

É emocionante essa busca do autor por alcançar o pairar de duas mulheres em meio a sensações que contrastam ou retratam um mundo que lhes é hostil, considerando que Uniões foi escrito no contexto de esgotamento e descompasso que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. Quem sabe tenha sido por esse fundo de espaço, a vivência de um período hostil, que o livro me alcançou a ponto de querer dividi-lo. Tateando em busca de Claudine e Verônica, o autor acaba por tratar de um sentir que me toca particularmente nesses tempos, embora ainda não conseguisse explicá-lo: “Do lado de fora a paisagem se enfurecia em silêncio. Sua mente sentia que as pessoas haviam se tornado tão grandes e ruidosas e seguras que ela teve de se enroscar em si mesma como para se proteger delas, não possuindo mais nada além do não-ser, do seu peso nulo, e uma deriva em direção a algo”.

Uniões é uma leitura para esse momento. Para devolver à linguagem e às palavras a potência e a importância que lhes vem sendo roubadas.  

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