Antonin Artaud: entre a arte e a loucura

Por Ricardo Marín


Antonin Artaud. Foto: Man Ray.


 
“Toda escrita é porcaria”, expressou Antonin Artaud em “O pesa-nervos”, um texto singular de prosa poética, um híbrido central para a obra de Artaud, em que a conformidade com um estilo único não é suficiente. Como bem pode revelar a citação inicial, o conformismo em geral não agrada a Artaud, um referente vanguardista do século XX dedicado à escrita, ao pensamento e às artes, conceitos que detestava na sua forma convencional, apesar de se dedicar a eles. Esta perturbação não é gratuita, uma vida de saúde mental instável, agravada por intensas dores de cabeça ao longo da vida, bem como a dependência de vários entorpecentes e drogas, fizeram dele uma figura atormentada que, curiosamente, se tornou um fiel reflexo do século em transição.
 
Para falar de Antonin Artaud, é importante mencionar — mesmo antes de contextualizar — que suas maiores aproximações não são por meio de sua obra, mas por meio de suas ideias e, principalmente, das ideias interpretadas por outras pessoas. Susan Sontag, Gilles Deleuze, Samuel Beckett, Jacques Derrida, todos eles ocuparam — de uma forma ou de outra — as ideias de Artaud para extraí-las do mundo de seus textos, e fazer interpretações e reflexões sobre sua vida e obra com uma perspectiva universal. Artaud não foi apenas um importante pensador de vanguarda, mas é uma figura cujo impacto filosófico, social e artístico ainda ecoa no mundo contemporâneo.
 
Antonin Artaud nasceu em 4 de setembro de 1896 no interior de uma família abastada de Marselha. Apesar do que sua imagem de loucura e delírios possa dizer, Artaud sempre esteve perto de sua família e encontrou um lugar de pertencimento entre sua mãe, pai e irmãos, de acordo com sua correspondência. Em suas cartas, constantemente perguntava sobre sua mãe e irmão. Artaud foi o primeiro a nascer vivo, pois seus pais perderam seis bebês antes dele. Apesar da felicidade por finalmente ter nascido, o bebê Artaud ainda não havia completado um ano quando foi acometido por problemas de saúde e uma série de dores intensas. Dizem que foi meningite, mas a única certeza é que Artaud passou anos de sua vida na cama, com nevralgias e profundos danos à saúde mental. Ele foi internado pela primeira vez aos 19 anos por se recusar a morar com mais pessoas ou sair de casa.
 
Logo após esse período, e com o apoio financeiro dos pais, Artaud foi para Paris desenvolver uma paixão que começou desde muito jovem: as letras. Leitor ávido de Poe, Rimbaud, Baudelaire e outros escritores, Artaud decidiu se concentrar em escrever e tentar conseguir empregos relacionados ao ofício. Seus pais, embora não muito convencidos dessa carreira, o apoiaram por causa dos avanços médicos que existiam em Paris. Foi quando conheceu Génica Athanasiou, o único relacionamento moderadamente sério sobre o qual se tem registro, e também começou a se envolver com outros cineastas ou artistas da época.
 
Alguns de seus textos mais conhecidos e acessíveis não são seus poemas, manifestos ou ensaios, mas suas cartas. A relação epistolar com Athanasiou é romântica e amorosa, mas talvez a sua troca postal mais célebre, bem como a que o catapultou para a fama, tenha sido com Jacques Rivière, conceituado crítico e divulgador literário. Rivière o rejeitou da revista N.R.F (Nouvelle Revue Française), mas mostrou interesse em seu estilo poético. Embora a amizade tenha continuado, essa recusa seria fundamental para a trajetória de Artaud. A partir desse evento, sua perspectiva em relação à poesia e à arte mudaria radicalmente.
 
Ficou para distante o artista que busca satisfazer artisticamente e permaneceu um monstro inovador, perpetuamente insatisfeito com a arte e uma pedra no sapato mesmo para a vanguarda ou movimentos artísticos como o surrealismo. Artaud não se considerava escritor nem mesmo artista, era contra ambas as instituições e decidiu fazer da arte algo pessoal, um retrato — não de si mesmo ou de sua condição —, mas do processo psicológico e mental pelo qual passam pessoas como ele. Susan Sontag o chama de “uma presença singular, uma poética e estética do pensamento, uma teologia da cultura, uma fenomenologia do sofrimento”. Este talvez seja o grande legado intelectual de Artaud: fazer com que sua obra e sua personalidade ressoem muito mais do que obras individuais.
 
Artaud, então, se concentraria quase inteiramente em fazer um trabalho que fosse artisticamente inovador, mas esse também se livraria do rótulo de “arte”. Apesar de ter influenciado um número imenso de disciplinas, Artaud contribuiu primária e voluntariamente para duas formas de arte: o teatro e a poesia. Seus interesses também eram cinematográficos (particularmente sua aparição em A paixão de Joana D’Arc, de Carl Theodor Dreyer), mas esses foram menos relevantes do que suas outras contribuições. Primeiramente, ambas as manifestações — a poesia e o teatro — ancoravam-se na escrita, em pegar uma folha de papel e escrever com o punho e a cabeça, um processo extenuante e doloroso para Artaud, mas que falava da arte em questão. Para Artaud, escrever tinha uma ligação inexorável com sofrimento e o flagelo (daí porque uma frase como “Toda escrita é porcaria” faça sentido).
 
Talvez isso fique mais evidente em sua contribuição mais reconhecida: o Teatro da Crueldade, projeto que, segundo Glenn D. Lowry, diretor do Museu de Arte Moderna, consiste em “sua visão da crueldade como verdade e experiência transformadora”. No primeiro manifesto sobre o Teatro da Crueldade, Artaud explica que “não podemos continuar a prostituir a ideia de teatro, cujo único valor está na sua relação demente e mágica com a realidade e o perigo”. O teatro, uma atividade principalmente física para todos os envolvidos, precisava estar fisicamente conectada de maneiras excruciantes. Gritos, adereços, iluminação, algum tipo de histrionismo, todos esses elementos se apoiavam em temas nefastos como o incesto, o estupro, o assassinato e a tortura para uma experiência teatral única.
 
O Teatro da Crueldade está ligado a outras atividades contestatórias de Artaud: escrever mal, de forma interrompida, incomodar o público ou, em um de seus atos mais conhecidos, fazer leituras de poesia enquanto gritava os versos e acabava em convulsões. Artaud queria alcançar novos patamares artísticos livrando-se da arte pré-existente, obliterando noções de bondade e bom gosto para fazer uma experiência dolorosa e extenuante. Essa mesma busca o levou até o México em 1935, para fazer explorações pessoais quase psicodélicas com o povo Tarahumara.
 
Em retrospecto, Artaud teceu uma ligação inescapável entre a dor, a loucura e a criação artística. Suas obras não são tão lembradas quanto sua influência, assim como sua personalidade, imagens e atitudes em relação à arte. Sempre instável, Artaud morreu aos 51 anos em um hospital psiquiátrico em 4 de março de 1948, sem ver o resultado de sua revolução: aquela que buscava não tanto uma mudança política, mas uma transformação metafísica, englobando valores e limitações sociais. Artaud, mais do que retratar sua loucura, procurou fazer um comentário sobre esta, sobre como a apreciação e a percepção da arte estão ligadas a um padrão de dor e vínculo comunitário.


* Este texto é a tradução livre para Entre el arte y la locura, publicado aqui, em Gatopardo.

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