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Nos tempos da grande mentira

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Por Carles Geli Não há quem sustente que a literatura tem a força para criar uma vida real? Não é o maior encanto da ficção nos permitir convertermo-nos em outros? Em todo caso, não fomos todos enganados – desde 2008 e ainda hoje – com a bolha financeira? Nessa linha, o escritor Jorge Volpi criou uma macrometáfora criando em seu livro  Memorial da fraude  (Alfaguara) “um narrador que é, aos olhos do leitor, uma fraude”. Completamente. O romance não é escrito por ele, mas por um tal de J. Volpi, nascido em Nova York em 1953 e não no México, em 1968;  não um escritor reconhecido mas o fundador e diretor geral da J V Capital Management; uma figura de paradeiro desconhecido e fugitiva da justiça depois de uma fraude bilionária em 2008. O vigarista entregou uma espécie de memórias ao seu agente literário A. W., seguramente o temível Andrew Wyle (ex-agente verdadeiro de Volpi escritor) que torna público este relato com a tradução de um tal de Gustavo Izquierdo e seguido ...

Lawrence Ferlinghetti

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Lawrence Ferlinghetti numa leitura pública no Jazz Cellar A Geração Beat não está tão longe de nós – espacial e temporalmente. Ainda que muitos continuem a acreditar que todos os nomes que deram forma a uma das estéticas mais importantes da literatura estadunidense contemporânea só estão acessíveis pela leitura de suas obras ainda é possível citar pelo menos numa ocasião dessas que ainda há alguém biologicamente vivo. Clássico e muito bem vivo, diga-se, porque está em pleno estado de lucidez e em atividade: com 97 anos, há alguns meses fez uma participação num sarau em San Francisco e seu livro – o segundo – Um parque de diversões (publicado em 1958) – ainda é lembrado como uma obra inquestionável para a poesia contemporânea na literatura dos Estados Unidos. Agora, além dessas qualidades, todas elas grandiosas, qual a importância de Lawrence Ferlinghetti, é este seu nome, nessa ocasião? Ele foi – respondendo com mais atrativos sobre seu trabalho – o editor do popular e ta...

Borges antes e depois de Borges

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Por Jorge Carrión A obra de Borges é repleta dessas personagens subalternas, um pouco obscuras, que seguem como sombras o rastro de uma obra ou uma personagem, ambas mais luminosas. Tradutores, exegetas, estudiosos de textos sagrados, intérpretes, bibliotecários, incluindo sedutoras figuras e arruaceiros. Borges define a autêntica ética da subordinação [...] Se uma nota de pé desse texto que é a vida do outro: não é essa a vocação parasitária, a um só tempo irritante e admirável, mesquinha e radical, a que prevalece quase sempre nas melhores ficções de Borges? Alan Pauls, O fato Borges 1 A lápide de Jorge Luis Borges em Cimetière de Rois de Genebra, com sua inscrição em inglês arcaico e à sombra de uma árvore que só floresce em anos ímpares, encontra-se ao lado da tumba de uma prostituta. A de quem escreveu “Pierre Menard, o autor do Quixote ”, um conto cujo protagonista escreve em francês a cerca de mil quilômetros daqui, é kitsch : ninguém entende essa homenagem ...

Viagem à origem da identidade

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Por Karl Ove Knausgård Este ano cumpre-se um século da aparição de Retrato do artista quando jovem . A história de seu nascimento é longa e tortuosa – Joyce começou o romance em 1904 –, e o caminho até sua canonização como um dos romances fundamentais da literatura ocidental tampouco foi curto: em resenhas daquela época se escreveu sobre “cloacal obsession” (obsessão cloacal) e “águas sujas”, algo que nos é estranho hoje em dia, quando talvez sejam os aspectos psicológicos do livro, a luta que se arma na alma do jovem protagonista, o que mais chama a atenção. O que então resultava desconhecido no romance é o que hoje estamos acostumados, enquanto que aquilo que então estavam acostumados é o que hoje é esquecido dele.  A razão pela qual o romance segue vivo, ao contrário de quase todos os demais romances publicados em 1916, é simplesmente porque Joyce buscou nele uma linguagem idiossincrática, uma linguagem própria para a história que queria contar sobre o jovem Stephen...

O Gênese da Anfitriã

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Por Ester Chaves Pieter de Hooch. "Paying the hostess". Aquele era o dia perfeito para ela reagir, já que tantas vezes não tinha tido tino para outros assuntos que não fossem relacionados à casa, agora estava diante de uma oportunidade; ia receber visita. Logo ela que sofria tanto porque era sozinha, não sabia o que fazer de si e da sua solidão, imaginava-se ganhando uma amiga. Talvez futura cúmplice. Como se é quando se têm amigos? Nunca o soube. O que a gente faz após o chá? Jogam-se cartas, assiste-se a um filme ou joga-se um inocente dominó? A resposta era um fiapo de tecido preto na roupa preta, o exercício de lavar pratarias e deixá-las como espelhos d'água dava ao metal uma outra luz que não a iluminava nessa hora, era um brilho que não respondia nada, apenas a confundia como a opacidade da pergunta. Ela era fanática anfitriã, dessas que fazem o próprio sabão e trazem os panos da cozinha asseados como roupa de baixo. A casa imitava direitinho o j...

Boletim Letras 360º #173

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2016 o ano de Ana Cristina Cesar. Nova edição reapresenta outras faces da poeta e coleção Poesia de Bolso tem A teus pés  como uma das principais publicações. Mais detalhes ao longo deste Boletim.  Esta edição reafirma o convite para participar da promoção que celebra a chegada dos trinta mil amigos que se encontram no nosso Facebook; no dia 12 de junho um leitor levará três livros à sua escolha da rica produção literária de Lygia Fagundes Telles. Para participar basta acessar aqui . Verá que já somos mais que trinta, somos trinta e um mil amigos e ficamos sempre felizes com a chegada de novas figurinhas para o nosso mundo!  Segunda-feira, 06/06 >>> Brasil: Uma nova editora com um rico catálogo de poesia Há uma palavra que se constrói depois de uma visita às publicações já disponíveis da novíssima Martelo Casa Editorial: qualidade. Obras de nomes como Horácio Costa, Micheliny Verunschk, Glauco Mattoso, Ruy Espinheira Filho, por exemplo, ate...