Seis poemas de John Clare

Por Pedro Belo Clara 
(Seleção, versões e notas)*

William Hilton. John Clare, 1820.



RAPAZES DA ESCOLA NO INVERNO

Os jovens estudantes ainda dão os seus passeios matinais
Até à escola da aldeia vizinha, em passo rápido e divertido;
Vadiando, deixam o tempo passar, até que estremecem,
E observam no alto os bandos de gansos selvagens,
Vendo as letras que desenham nas suas viagens,
Ou arrancam bagas de espinheiro, a refeição da tordoveia¹,
E rosa mosqueta e abrunhos — e em cada lago raso
Deslizam suavemente, levando as sombras onde querem,
Até uma nova diversão despertar nas suas ideias;
E lá começam de novo, soprando depressa
Os seus dormentes e desajeitados dedos até cintilarem,
E depois uma corrida, as suas sombras indo selvagens,
Aquelas passadas, uns gigantes enormes, sobre a neve fulgente
No pálido esplendor do sol de inverno. 


LORD BYRON

Um sol esplêndido entrou no ocaso — quando os nossos olhos 
Verão uma tão bela manhã despontar,
Como a que deu vida ao seu génio grandioso 
E todas as luzes menores na terra eclipsou?
A sua primeva explosão crepuscular declarou 
Que além da névoa um sol nascia,
Como quando a manhã, para anunciar o dia,
Vem de leste num sóbrio traje cinzento,
Primeiro, até se aquecer numa alegria selvagem,
Então afasta a sua coberta e luminosa cintila. 
Os trabalhos de mentes pequenas uma era poderão sonhar
E nada mais ser que sombras na corrente do tempo,
Enquanto tal génio numa só hora compõe o que será
A mais nova porção de eternidade. 
 

CHUVA REPENTINA

Enegrece o céu ao sul, prometendo chuva;
As abelhas, zunindo, apressam o regresso à colmeia;
Sentem a mudança — deixemos, então, o cereal,
Tomemos a larga estrada enquanto os pés estão secos. 
Já pequenas gotas humedecem-me a face,
Tamborilam no meu chapéu — está quase a chegar —, 
Olhemos em redor em busca dum abrigo. 
Todas as pequenas coisas, como tu e eu,
Apressam-se pelas ervas, esperando evitar a chuva.
Aqui um freixo inclinado — escuta, o vento aumenta,
Mas não importa, a hera, por uma hora, 
Chova o que chover, manter-nos-á secos aqui.
A pequena carriça² bem conhece o seu abrigo frondoso,
Nem abandona a casa seca, e nós que tão perto chegámos.


LEBRES BRINCANDO

Os pássaros foram-se deitar; as vacas em silêncio estão,
As ovelhas deitadas ofegam sobre antigos montículos de toupeira,
E debaixo do ramo do salgueiro, cinza e verde — 
Como se o labor seu fosse o repouso — eis o arado.
As tímidas lebres afastam os temores do dia 
Na faixa da estrada, para tirar o pó e dançar e brincar,
Depois espezinhar o grão, por nada dissuadidas,
Lamber o orvalho das barbas da cevada,
E de novo desatam em correrias à volta dos montículos,
Como pensamentos felizes — dançam — agacham-se — e vadiam,
Até as leiteiras, bem cedo de manhã,
Gingando com as suas cangas, assustá-las junto aos cereais;
Por cansados trilhos bem conhecidos, cada ágil lebre 
Corre rápida como o medo — buscando a sua toca oculta.


O CONVITE

Vamos para os campos, amor, ver a verde árvore;
Vamos para os prados ouvir a abelha silvestre;
Há contentamento bastante para ti, amor, e para mim,
No júbilo e na música da natureza.
Podemos ficar no trilho, amor, e escutar os pássaros cantando,
E ver o pombo-torcaz³ alto bater as suas asas,
Enquanto permaneces a meu lado, uma coisa maravilhosa,
Saúde e beleza em cada traço teu. 

Podemos ficar junto à ponte e ver as coisas brilhantes
Que brotam alegremente da água pelo sol cintilando,
Como faíscas de fogo em seus labirintos e anéis,
E os insectos passando velozes e reluzentes, e chilreios
Cuja forma não vês, apenas uma funda canção,
Que um dia inteiro dura enquanto o verão subsistir,
Que perfura o ouvido à medida que o calor cresce
E o lago refulge como fogo ardente.

Podemos ficar no campo, amor, e olhar por cima das searas,
Ver a cotovia⁴  agitar da asa o orvalho da manhã;
Pela madressilva vestida de gotas o vento acaba de nascer,
E aí podemos vaguear, querida minha.
Podemos caminhar junto à mata onde os coelhos saltitam,
Onde escassos são os arbustos e as sebes irregulares e ralas;
Há um caramanchão de roseira-brava e lugar para repouso,
Podemos entrar e tomar descanso quando fatigados.

A laverca⁵, amor, na cevada canta,
A lebre desperta no seu assento de trevo orvalhado,
O corvo ao ninho, no grande e ondulante ulmeiro, 
Leva para os pequenos o bico cheio de vermes.
Desceremos o verde prado, subiremos o vale solitário 
E pela orla do bosque, longe de todos os homens,
Falaremos de novo das histórias do nosso amor, 
Onde o ano passado o rouxinol cantou. 


(linhas de) EU SOU 

Eu sou — embora ninguém se importe com o que sou, ou saiba quem sou;
Os amigos abandonam-me como uma memória perdida:
Eu sou o consumidor das minhas aflições — 
Erguem-se e desaparecem nas hostes do esquecimento,
Como sombras nos espasmos frenéticos e sufocantes do amor —
E ainda assim eu sou e vivo — como vapores arremessados

Ao vazio do desprezo e ruído,
Ao mar vivo dos sonhos despertos,
Onde não subsiste sentido de vida ou alegrias,
Mas o imenso naufrágio dos apreços da minha vida;
Até os mais caros, os que melhor amei,
São estranhos — mais estranhos que os restantes.

Anseio paisagens que os homens nunca pisaram,
Um lugar onde nenhuma mulher sorriu ou chorou,
Aí permanecer com o Criador de mim
E adormecer docemente como na infância acontecia, 
Tranquilo e imperturbável onde me deitasse,
Debaixo a erva — em cima o céu arqueado.

______

John Clare nasceu em 1793 na pequena vila de Helpston, em Inglaterra, no seio de uma família bastante modesta. O seu pai trabalhava numa quinta, ofício ao qual o jovem poeta, ainda criança, se juntaria. Acompanhou a exigência do trabalho precoce com os estudos, ainda que tenha terminado esse percurso com apenas doze anos de idade. 

Desempenharia, posteriormente, cargos tão distintos como o de empregado de taberna, jardineiro e operário numa pedreira. Tentou juntar-se à milícia da coroa britânica e até experimentou uma vida livre num acampamento de ciganos.

Fruto, muito provavelmente, de uma infância pobre e desnutrida, John Clare, em adulto, não chegaria a contar com mais de 150 cm de altura. Em 1818, pela sua condição social e física bastante precária, foi obrigado a aceitar o auxílio da sua paróquia, por via da lei estabelecida pela coroa inglesa séculos antes. Era uma forma legal de aliviar a dura existência das classes mais empobrecidas. Em suma, aquilo a que hoje poderíamos designar de apoio social, concedendo roupas, comida e até dinheiro, entre outros.  

Quando “tropeça” num livro do poeta escocês James Thomson, e decide comprá-lo, Clare começa a escrever os seus próprios poemas e sonetos, inspirados em tudo o que o rodeava. Para evitar que os seus pais fossem despejados da casa onde viviam, o jovem poeta reuniu um conjunto da sua ainda escassa obra e entregou-o a um vendedor de livros local. Por sua vez, este entregou o manuscrito ao seu primo, John Taylor, o homem que havia editado John Keats.

Assim, em 1820, publica-se o Poems Descriptive of Rural Life and Scenery (Poemas Descritivos da Vida e Paisagem Rurais). E o sucesso, imagine-se, é imediato. Numa época onde despontavam os grandes românticos da língua inglesa (Wordsworth, Shelley, Keats), John Clare irrompia pela força do génio do seu próprio trabalho, espantando críticos, sobretudo, pelo facto de ser, por ofício, um trabalhador rural. 

Com uma estreia tão promissora, no ano seguinte edita Village Minstrel and Other Poems (O Menestrel da Vila e Outros Poemas). Por esta altura, Clare, já casado e com rendimento estável através de um regime de patronato, parecia um autor a estabelecer-se no seu meio. Porém, dois anos depois encontrava-se totalmente falido e sofrendo crises de saúde cada vez mais complicadas. 
  
Em 1827 lança um novo livro, The Shepherd’s Calendar (O Calendário do Pastor), mas o sucesso, desta vez, é bastante modesto. Algumas elites continuam a desdenha-lo, principalmente pelas suas origens campestres e a falta de estudos académicos superiores. A sua saúde agrava-se, e nem a generosa doação de um nobre inglês, que lhe oferta casa e terreno para cultivar, o recoloca num rumo de equilíbrio e estabilidade. 

É justo dizer que Clare via-se no autêntico “fio da navalha”, dividido por uma dicotomia que a própria vida lhe apresentava e para a qual não descobria solução. Se por um lado sentia-se atraído pela esfera literária de Londres, por outro frustrava-se pelo isolamento que o campo lhe proporcionava, mesmo amando-o fielmente, dado que vizinhos e conhecidos seus eram gentes iletradas (como o próprio escreveu: “Vivo aqui no seio de ignorantes, como um homem perdido”). Como discutir literatura com quem nem o nome sabe escrever? Com receio de se verem incluídos nos seus escritos, os camponeses também evitavam conversar com Clare. Ademais, movia-o a necessidade de escrever poesia, de desenvolver o seu trabalho, mas os rendimentos que daí provinham eram incertos, tantas vezes escassos, como daria para alimentar a própria família? 

Por volta de 1830, com os seus livros a permanecerem intocados nas prateleiras de muitas livrarias e o nascimento do sexto filho, John Clare regista as suas primeiras crises depressivas, acessos esses que um consumo cada vez maior de álcool não consegue combater com um sucesso definitivo. Alguns amigos e patronos de Londres juntam-se para realojar o poeta e a sua família numa casa maior, com terrenos de produção agrícola constante, mas Clare somente manifesta um estado de alienação maior.

O seu último livro foi publicado em 1835, Rural Muse (Musa Rural), e embora alguns críticos tenham tecido apreciações positivas, as vendas não foram notáveis e, assim, as dificuldades em prover para a sua esposa e filhos agravaram-se. Estando cada vez mais insatisfeito em ser ele mesmo, as depressões manifestam-se com maior constância, o consumo de álcool também, e o seu comportamento torna-se errático. 

Sem grande surpresa, John Clare começa a ser um fardo para a própria família. Em 1837, entra pelo próprio pé num asilo privado para doentes mentais, seguindo a recomendação do seu editor e amigo. Nesse momento, começa a manifestar trocas de identidade, primeiro afirmando ser um lutador de boxe, depois o próprio Lord Byron — reescrevendo, inclusive, alguns dos seus poemas (mais tarde, também reclamaria ser o próprio Shakespeare). Extraordinariamente, apesar de um discurso incoerente e percepções fantasiosas da realidade, a poesia que escreve no “retiro” é lúcida em absoluto, e de uma beleza singular. 

Decorria o ano de 1841 quando o poeta enceta a sua célebre fuga. Na verdade, uma façanha empreendida sem que houvesse um plano para o ser; isto é, saiu da instituição apenas porque queria voltar para casa. E foi bem-sucedido, diga-se, caminhando a pé os mais de cem quilómetros (!) que separavam os dois locais, na ilusão de que se iria encontrar com a grande paixão da sua juventude — agora, supostamente, a sua esposa. Recusou-se a aceitar a verdade dos factos, quando lhe foi dito que tal senhora já falecera e que Clare nunca fora casado com ela.    

Permanece alguns meses em casa, mas algures entre o Natal e o Ano Novo desse mesmo ano é internado numa outra instituição mental, o Hospital de St. Andrew — que hoje ainda existe. Todas as despesas são pagas por um patrono de linhagem nobre, embora num regime que era aplicado aos mais pobres, visando somente cuidados básicos. Aí viverá os seus anos remanescentes, acompanhado por um médico que o incentiva a escrever — ajudando-o até a fazê-lo, em vários momentos. Aquele que para muitos é o poema mais célebre de John Clare, “I Am” (Eu Sou), nasce durante a sua estadia nessa instituição médica.  

Tal como qualquer artista, sejam quais forem os seus caminhos, que sempre se sujeita aos efeitos do tempo, geralmente beneficiando a expressão do seu trabalho, também este pobre poeta atribulado, ainda que confinado a um asilo, logrou usufruir da mesma benesse. Diversos críticos apontam a formação, nos seus trabalhos tardios, de uma voz poética distinta, própria na sua intensidade e vibração, elaborando inclusive uma ponte para outra área, a pintura, e o mesmo processo que se identifica nas últimas obras de Van Gogh. 

Em 1864, não longe de completar o septuagésimo-primeiro aniversário, John Clare faleceu na instituição que havia sido a sua casa, vítima de uma apoplexia. 

O essencial da poesia de Clare parte da posição de observador, ao invés, por exemplo, da de pensador. Nascido na era romântica por excelência, não deixou de exercer o seu lirismo, mas contrariando a corrente habitual, em regra abstracta, enveredando por um concretismo absoluto. Na grande maioria dos seus poemas, o que o leitor absorve é uma realidade plena e pura, sem espaço para filosofias, mas nunca estática — sempre deixando a marca de um suave movimento, como se de um pequeno filme se tratasse. Considerando o espaço onde o poeta se movimentava, o seu trabalho encheu-se de motivos rurais. Uma poesia pastoral, portanto, bastante impregnada de pressupostos naturalistas, algo que lhe valeu a simpática alcunha de “o poeta camponês”.

Os seus dotes de observador eram notáveis, ao ponto de, um século depois, os seus poemas sobre pássaros espantarem os entusiastas da ornitologia graças a pormenores bem detalhados, e absolutamente verídicos, neles apresentados. A natureza não era simbólica para Clare, mas uma realidade viva; não encarna um grandioso ideal a que se queira aspirar, é antes um palco quotidiano, íntimo, doméstico. Este aspecto só se altera um pouco nos poemas de teor amoroso, onde o cenário envolvente tende a acompanhar as emoções manifestadas pelo sujeito-poético.   

A estas breves noções acresce a incorporação de regionalismos na sua poesia, tornando-a próxima da fala nos habitantes de Northamptonshire, no centro de Inglaterra. A par destes, toda a espécie animal e vegetal típica da região. Porém, a sua expressão é amiúde simples e directa. 

Pelo tempo em que viveu, nasce daqui um outro trilho, dado que assistiu em primeiro plano à aplicação das Enclosure Acts. De modo sucinto, as leis que tornavam privadas terras de uso até então comum. Trilhos, veredas, azinhagas, baldios e outros tantos do género, que os camponeses conheciam por territórios de todos, zonas sem dono. Com a nova lei, pisar um solo que não fosse estrada, gesto tão rotineiro no passado, era agora um acto de agressão, o trespassar de propriedade privada. 

Essa mudança súbita deixou marca em Clare, que lamentou a perda da liberdade de outros dias. Amplos espaços que antes eram partilhados por toda a gente, agora tinham um dono que os podia murar. Naturalmente, há uma melancolia residual em certas linhas sobre o tema. 

Com o passar dos anos, atravessando todos os problemas financeiros e de saúde antes expostos, a sua poesia começa a amadurecer numa toada solitária, algo saudosista, causas do seu isolamento, de certo modo forçado. Como forma de lamentar a perda de um tempo sem retorno, uma melodia nostálgica é facilmente descortinada. 

É curioso verificar que os poemas originais de John Clare não estavam pontuados. O autor assim o desejou. E com veemência opôs-se às imposições dos editores, que insistiam na pontuação dos versos. Como se vê, ganharam essa contenda. Mas sobra a questão: se anuíssem, será que hoje consideraríamos John Clare um dos precursores da poesia moderna? 

Seja como for, estamos perante um nome maior da poesia inglesa. Gradualmente esquecido no seu século de vida, o dealbar da centúria seguinte confirmou a sua qualidade, o seu génio. Mais distinto ainda: a sua importância no seio da literatura britânica. Um poeta rural, da natureza, um cronista em rima de um mundo em gradual decadência e, para alguns, o semeador da sensibilidade ecológica. 


Notas

1 Ave do género do tordo, mas maior. De cor cinzenta-acastanhada, exibe no peito as manchas castanhas sob fundo claro que distinguem a espécie. É muito comum na Europa, e além de bagas alimenta-se também de insectos e até de caracóis.

2 Ave de tons acastanhados bastante tímida e diminuta, medindo não mais de 10 cm. Espanta, considerando a dimensão, pelo canto forte, translúcido e manifestamente belo. Muito comum nas florestas e jardins portugueses.

3 A espécie silvestre do pombo-comum. De maiores dimensões e padrão e cor algo diferente. É notória a mancha branca que enverga no pescoço e o seu colar esverdeado. É residente tanto em Inglaterra como em Portugal.  

4 Ave com célebres dotes de cantora afinada. São facilmente reconhecidas pelos seus erráticos padrões de voo. Pela manhã, tendem a voar bem alto e daí lançar a sua canção. De tom pardo, em regra, com estrias acastanhadas do pescoço ao peito. O nome pode ser género, englobando várias espécies.

5 Também designada de calhandra, é uma espécie de cotovia. Canta em pleno voo, como é comum na espécie, podendo durar vários minutos. Habitam, entre outros, em Portugal e Inglaterra.


* A partir dos originais compilados em John Clare (Faber & Faber, 2016).

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé

11 Livros que são quase pornografia

Herscht 07769, de László Krasznahorkai

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Boletim Letras 360º #662

Boletim Letras 360º #683