A história do som: de um conto genial a um filme catástrofe
Por Afonso Junior

“Mas esse cilindro me lembrou do que eu havia perdido — que é, creio eu, uma vida que eu não conheci, mas da qual David fez parte. A vida real.” Este trecho é do conto “A história do som”, presente no livro de mesmo nome de Ben Shattuck. Ele é escritor e pintor, natural da costa de Massachusetts, Estados Unidos, como lemos no final do texto publicado online na The Common, e filho de um pintor e da dona de uma galeria de arte. O livro é uma coleção de contos que estabelecem ecos entre si.
No começo de “A história do som” lemos: “É abril de 1972 aqui em Cambridge”.
No filme, dirigido por Oliver Hermanus (2025), acompanhamos a vida de Lionel (Paul Mescal e Chris Cooper), autor da narrativa, na zona rural do estado do Kentucky e seu encontro com o pianista David (Josh O'Connor) — personagem que ecoa o amor do escritor por Henry David Thoreau —, no Conservatório de Boston, em 1917.
No começo do amor entre os dois homens, surge uma guerra. Algum tempo depois, em 1919, David envia a Lionel uma carta: “que tal uma longa caminhada na floresta neste verão?” E os dois partem para gravar as músicas populares usando cilindros de cera para fonógrafo.
Shattuck permitiu o filme com a condição de que escrevesse o roteiro. Veio a pandemia e o filme só foi anunciado em outubro de 2021. Em uma entrevista para Nirica Srinivasan (Interlocutor), o autor fala do seu interesse pela memória dos objetos, como passado e presente são ligados (e modificados) pelo que é concreto: “A maneira mais óbvia e fácil de mostrar uma conexão é com artefatos, objetos da vida das pessoas que transitam pelo tempo e podem remodelar nossa compreensão de algo de tempos remotos”.
Portanto, o interesse inicial para a narrativa é como uma memória passada pode recompor os elementos que vivemos — um pouco como a memória emergente de Marcel Proust. Remete também para uma objetividade maior, pois desde o começo do conto o personagem Lionel Worthing afirma que escreveu “três livros sobre música folclórica”.
O que o filme deveria mostrar é como só muito mais tarde Lionel consegue minimamente entender como o sonho evaporou sem aviso. É algo positivo que um registro traga conforto, ou pelo menos uma dor mapeada.
Shattuck conta ainda ao Interlocutor: “Um exemplo de pesquisa: li que Edison acreditava que seus cilindros de cera poderiam ser usados para gravar as vozes de pessoas falecidas, e que se poderia reproduzir os cilindros para se lembrar delas, o que me levou a um parágrafo que se tornaria a base de A história do som.”
A base é apenas um detalhe no mosaico de focos do filme de Oliver Hermanus. O crítico da Rolling Stone Brazil, Angelo Cordeiro, analisa com precisão A história do som: “Há uma melancolia bonita ali, mas ela soa calculada, quase coreografada, como se cada silêncio fosse meticulosamente imposto para que o público sofra por um sentimento que existe, mas nunca se torna verdadeiramente palpável”.
De fato, o que parece funcionar como conto, torna-se uma ruptura de expectativa melancólica com o filme. Eu me perguntei por que motivo. E parece claro: no conto, o fracasso é o começo. Observar nosso passado com suas frustrações é algo que pode trazer sabedoria. Acompanhar a unidade dramática de um mundo que desaparece subitamente traz apenas um pessimismo pouco polido.
Algo se perde no filme, tão cronológico. Aqui, mais uma história de como os gays sofrem. De como a paixão acaba em esposas tristes e loucura. Uma cena em que David parece ter ciúme, e tudo desaba.
Ficamos apenas pensando o quanto seria surpreendente mostrar como dois homens foram felizes durante um bom tempo, apesar de desafios e problemas; ou como um homem que pensou ter superado uma dor, pensa: “Eu deveria ter ficado na plataforma do trem em Portland”.
Ao transitar de um meio ao outro, o assunto perdeu sua complexidade, e se deixou arrastar por um hábito do audiovisual, o hábito causal. Pensando ser o visual efeito dos acontecimentos, perdeu a narrativa como reflexo dos sentimentos. Até mesmo o relevo da música e as florestas, que poderiam preencher essa felicidade interrompida, não são matéria do aristotelismo simplista. O filme se tornou um amontoado de perdas.
Existem muitos outros filmes à volta do assunto de A história do som, não há dúvida. Mas precisamos de mais um As pontes de Madison em pleno 2026? É um aviso contra a narrativa linear imperativa. A “vida real” ficaria melhor até mesmo dentro de uma ficção de Philip K. Dick. A história do som deixa ótimas atuações, belas imagens e muita confusão.
Referências
CORDEIRO, Angelo. “A história do som decepciona com romance contido entre Paul Mescal e Josh O'Connor”. In Rolling Stone Brasil. 26 fev. 2026. Disponível aqui.
SHATTUCK, Ben. “The History of Sound”. In The Common. n. 16, 29 out. 2018. Disponível aqui.
SRINIVASAN, Nirica. “Ben Shattuck discusses The History of Sound: Stories”. In Interlocutor Magazine. Disponível aqui.
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