Estamira, insolações contra o descuido — notas sobre o que restou

Por Lucas Paolillo

eu fedo/ tu fedes/ ele fede/ nós fedemos/ vós fedeis/ elas fedem
mas que eu não feda no metrô/ que tu não fedas na aliança francesa/ que ela não feda na sanduicherie/ que nós não fedamos na brasserie/ que vós não fedais nos escritórios/ que eles não fedam na hora do sexo
fede tu!/ feda você!/ fedamos nós, porra!/ fedei vós/ fedam vocês!
eu já fedi/ tu já fedeste/ ela já fedeu/ nós já fedemos/ vós já fedestes/ eles já federam
quando eu feder, irei para Paris/ quando tu federes, poderás ser gerente/ quando ela feder, estará pronta para o serviço/ quando nós federmos, acabaremos com a corrupção/ quando vós federdes, acabareis com a guerra/ quando eles federem, abraçarão uns aos outros
eu federa um dia/ tu federas pra caralho!/ ela federa, mas dava para aguentar/ vós federeis como cachorros molhados de rua/ eles federam e continuavam fedendo
não fedeu!?/ em algum instante da vida eu federei/ tu federás/ ela federá/ nós federemos/ vós federeis/ eles federão

— Manuel Veronez, Guia prático para viver em Paris e região (2024). 


Eu sou a beira do mundo. Eu sou Estamira. Eu estou lá, eu estou cá, eu estou em tudo quanto é lugar. E todos dependem de mim. Todos dependem de Estamira. Todos. E quando desencarnar vou fazer muito pior

— Estamira, em Estamira (2004), documentário, 120 min., direção: Marcos Prado.


Estamira. Foto: Arquivo Marcos Prado.



É desafiador revisitar o enigma Estamira. Observá-lo supõe tatear uma infinidade de camadas carregadas e escorregadias, oscilantes entre os desalentos e encantos mais extremos. Contudo, justamente por isso, examiná-lo beira a uma atualidade desconcertante: ele conversa com a destruição contemporânea do mundo e faz pensar em como lidamos com ela. Enigma recoberto por espetáculo, notável pela sua desenvoltura inventiva e insolações nas ruínas do social, os extremos em Estamira encontram intersecções raras de expressão e vivência, acentuando, como veremos, percepções em resposta ao transbordo. Repostas em vídeo on demand, as mediações de acesso às feridas imediatas do enigma Estamira são gravações. Continuam, assim, a pintar e bordar: “eu sou a beira do mundo”. Ainda que, do outro lado da tela, a fissura se aprofunde dia a dia, enquanto continuamos entrincheirados.

Estamira, como sabemos, se tornou conhecida devido ao documentário de 2004 que filmou suas peripécias no Jardim Gramacho. Vinte anos se passaram e, de lá para cá, não foram poucas as retinas atingidas pela sua áurea. Agora, quantas delas não liquidaram apressadamente seus mistérios? Para nós, a maioria dos mortais, falar em Estamira é sustentar um itinerário desconhecido, é se referir a isso: aos flagras dos seus gestos filmados corajosamente entre 2000 e 2004 e encadeados por Marcos Prado, diretor que nos conduz ao próprio espanto diante da musa em seu labirinto de fora e de dentro, no qual os contornos entre violência e alumbramento se agitam esvoaçados, inconformados. Quando penso que há estudos que comparam Estamira à Carolina Maria de Jesus, não posso deixar de lamentar que o documentário premiado de Prado não tenha sido um pontapé expressivo para Estamira, mas um vigoroso ponto final.

Estamira visível, homem par, sanguínea. Estamira assim, consciente, lúcido, ciente, sentimentalmente, conforme assistimos dizer de si mesma, não há mais. Embora persista transparente e invisível, no oco dos seus recados, nas imagens, na memória. Presença-ausente, o que restou de Estamira deixa no ar a sensação de descuido. Embora, como vemos, continue a render assunto. Muitos escritos, como este, foram lançados ao mundo refletindo sobre a miríade de fios desentranhados ao seu nome. Na companhia deles, falar em Estamira compõe um verdadeiro cipoal, um sistema de encontros e sinapses entre posições que interpelam a sua imagem: a fala dos subalternos; a luta antimanicomial; as vidas desperdiçadas; a tematização dos restos e descuidos; os corpos das mulheres negras, pobres e periféricas; a relação destrutiva entre meio ambiente e capitalismo; o caleidoscópio das psicoses, mais especificamente da esquizofrenia; as dinâmicas institucionais do biopoder; as condições de enunciação dos subalternos; as fronteiras entre poesia, delírio e profecia; a relação entre fé e afirmação; os limites da forma documentário; o senso de comunidade; as possibilidades de insurgência. 

Um fardo e tanto, as referências agrupadas têm direito a intersecções no interior da cultura filosófica, timbrando com gregos antigos, Espinosa, Nietzsche, Artaud, Deleuze, Guattari e la nave va. Além deles, há paralelos, como já mencionado, com Carolina Maria de Jesus ou então com Arthur Bispo do Rosário e Rosa Egipcíaca. Se todo esse esparramado não bastasse, o espanto é reposto através de outros transbordos: Estamira se tornou enredo de escola de samba, peça de teatro e teve seu nome emprestado a organizações aqui e acolá, como a Frente Estamira de CAPS. Dimensões que conferem sabor especial a uma das suas frases filmadas: “quando desencarnar vou fazer muito pior”. Entretanto, diante de tudo isso, Estamira queria era ser ouvida — ela foi?

Acredito que em termos. No que se refere ao documentário, especificamente, são conhecidos os depoimentos em que ela celebra o seu encontro com Prado. Não obstante, pouco é conhecido sobre o seu passado. Em vida, as possibilidades de testemunho de Estamira não transbordaram os limites do filme. Os levantamentos complementares ficaram minguados. A maioria dos comentários se contentou com a reprodução das imagens de Estamira, não com ela. Exceção é a reportagem “Estamira, o preço da fama” (2008),¹ não assinada, que oferece um quadro significativo para a compreensão do que ocorreu com ela no day after ao fuzuê: “As discussões mais amplas, presentes na euforia dos discursos no filme, param por aí. Estamira está cansada”. No quadro geral apresentado, Estamira é encontrada psiquiatricamente medicada, com problemas de saúde, distante do lixão desde o ano de 2004, preocupada com a regularização de seu terreno e em relativa paz de espírito com a fé professa de seus herdeiros. Também ficamos sabendo que morou com João Carlos Vicente (companheiro de aterro que aparece no filme) e passou a ser assediada pela vizinhança, que associou de pronto a difusão massiva de sua imagem a um enriquecimento inexistente. Falando no valor de troca, a matéria levanta ao menos duas fontes de renda: uma mesada oferecida por Prado, que também colaborou com a reforma do espaço de sua casa, e o seu cadastramento como beneficiária do programa do Bolsa-Família. Dos fármacos ao seu benefício de público-alvo, Estamira, em chamas, foi desativada.

No montante de informação produzida a respeito de Estamira, se o interesse mais detido em sua pessoa para além do documentário foi bastante restrito, houve, a partir das leituras do vídeo, incidências preferenciais em torno dos temas elencados. Parte significativa das meditações sobre ela, quer dizer, sobre a sua imagem, constata que os seus ditos filmados são atraentes: questionadores e combativos, caracterizam problemas e cobram atitudes. Ao menos com a peneira da edição — dimensão que pode ser averiguada com vagar comparado junto ao documentário-suplementar Estamira: para todos e para ninguém (2007), de Prado —, apresentam recorrência, sugerindo certa arquitetura epistemológica. Sobre isso, há quem fale em produção de conceitos e metafísica. Entretanto, essa compreensão supõe posicionamentos: como relacionar a formalização astuciosa de Estamira ao seu ardil? Como considerar as generalizações propostas pelos recados diante do sofrimento íntimo de quem os enuncia? Circunscritas, essas e outras questões formam um conjunto mais geral: quer dizer, como escutá-la?

Com a morte de Estamira, parte das respostas sobre a sua vida ou as possibilidades de expandir o seu conjunto de enunciados se perdeu. Ainda assim, considerando o que temos, as incidências preferenciais tendem a se delinear a partir de um movimento mais ou menos pendular — em alguns casos complementar — entre a hermenêutica das falas e a escuta do sofrimento. Circuito que diluiu outro plano fundamental: a história. Muito poderia ser dito sobre isso, mas, diante dessa porta fechada, basta lembrar, por enquanto, que ela pode e deve ser aberta. Retomemos, então, alguns marcos: Estamira nasceu em 1941, sendo parte de uma geração que testemunhou a passagem à Ditadura Militar, e morreu aos 70 anos, em 2011, no auge da aprovação popular dos governos petistas. Nascida em Goiás, circulou por algumas cidades daquele estado comendo o pão que o diabo amassou, refém de uma miríade de relações abusivas, até se radicar em uma franja de estrada na antiga Rio-São Paulo. Sabe-se também que foi alfabetizada pelo Mobral, programa criado em 1967 pelos militares, em contraponto ao método Paulo Freire. No mais, ela sugere, no filme, que começou a revelar a partir do ano de 1986. “Só comecei a revelar em 86, a revelar de verdade mesmo, porque era muito abuso”. No arco desses dias, temos um novo tempo e o acompanhamento de uma abertura a novos modos de administração. Um olhar atento reparará que os marcos pinçados por Estamira não demarcam ocorrências triviais: a atitude de cobrança brota justamente na passagem à Transição. Ao mesmo tempo, sua morte em hospital público, fruto da negligência médica, foi precedida por uma série de abrandamentos pessoais de temperamento, coincidindo com toda uma atmosfera de estabilização social. 

Abrir essa porta da história faz lembrar que Estamira não é apenas imagens, frases ou esquizofrenia, mas uma subjetividade afinada ao seu tempo. Tempo de transformações significativas para a massa de rejeitados à espera de mudanças. Quem se permitir dançar no labirinto de dentro de Estamira, mostrado pelo documentário, mantendo isso em mente, reparará que uma das suas frases dela mais conhecidas é lapidar para a caracterização desse transbordo de beiras: “Eu nunca tive aquela coisa que eu sou: sorte boa”. Frase forte, que separa e enlaça, no contraste entre ter e ser. Começando pelo fim: Estamira reconhece a sua existência como um acontecimento, como maravilha, dignidade. Do fim ao início: Estamira confessa o desamparo total nas incidências que lhe ocorreram, como pesadelo, indignidade. Entre uma ponta e outra, a fortuna é a mesma mas é, também, duas. Contradição encaminhada no plano prático, em posse da lei moral de seu íntimo, com autonomia espontânea, desamparo de suas crenças. “A minha missão, além de eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade: seja a mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara... ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem”.

Situado historicamente, o sentimento de missão afirmativo de Estamira cobra responsabilidade ao sujeito na formação das subjetividades periféricas. Mais: cobra diante da violência em seu corpo, cobra no que lamenta ser descuido no aterro, cobra na frustração prática com as promessas da doutrina (“Quem anda com Deus dia e noite, noite e dia, na boca, e ainda mais com deboche, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome?”). De maneira que mais perguntas se somam: que jogo é esse ao qual o delírio criativo de Estamira arquitetou contraponto? “Não tem mais inocente. Tem ‘esperto ao contrário’. Esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não”. 

Ao fundo, uma nova razão do mundo bagunçava o coreto da estabilidade na cultura popular, mudando a cara do capitalismo. E frustrava antigas formas de organização mais brandas. Com dedo em riste, e de olho em tais incidências, Estamira sentencia: Trocadilo! “Sabe o quê que ele [o Trocadilo] fez? Mentir para os homens, seduzir os homens, cegar os homens, incentivar os homens e depois jogar no abismo”. Na cosmologia em sobras de Estamira, a experiência humana associada ao Trocadilo degenera em figuras opacas do servilismo oportunista: o copiador, o esperto ao contrário, o poderoso ao contrário etc. “Eu já tive dó de escravo, não tenho mais dó de escravo também não”. As revelações, alarme de incêndio, cobraram atitudes dos vencidos. Põe a eles o desafio de serem nomes próprios ou designações de figuras.

Contra todos os esquemas, um dado curioso é que a cosmologia acessível de Estamira — fermentada no garimpo quixotesco pela salvação do valor de uso no Jardim Gramacho, é bom lembrar — pode ser tomada como um recibo da chegada dos bárbaros. Porém, ela não prescinde de uma noção sua de civilização. “O homem não pode ser incivilizado. Todos os homens têm que ser iguais. Tem que ser comunista. Comunismo é igualdade. Não é obrigado todos trabalhar num serviço só, não é obrigado todos comer uma coisa só, mas a igualdade é a ordenança que deu quem revelou o homem como o único condicional. E o homem é o único condicional, seja que cor for. Eu sou Estamira, eu não importo. Eu podia ser da cor que fosse. Eu formato homem par, mas eu sou Estamira, mas eu não admito, eu não gosto que ninguém ofende cores, nem formosura. O que importa, bonito, é o que fez e o que faz. Feio é o que fez e o que faz. Isso é feio. A incivilização é que é feio. Comunismo superior. O único comunismo”. 

Com isso, o que Estamira talvez dê a observar seja uma formação de conjunto do fim do social. Discernindo o que é resto do que é descuido, Estamira propõe, na órbita do seu delírio, o sentido mesmo da sua missão: nada menos do que uma refundação do gênero humano, para fazer valer a condição de único condicional — expressão repetida constantemente e que aponta à diferença humana fundamental com relação às outras espécies. “Quem revelou o homem como o único condicional, ensinou ele a conservar as coisas”. Desse apelo à qualificação, a constatação do seu avesso: “As doutrinas erradas, trocadas, ridicularizou os homens. Fez o homem ficar pior do que um quádrupulo. Então, que deixasse os homens como fosse antes de ser revelado como o único condicional”. Essa frustração afirmativa com os rumos da modernidade surpreende por dizer respeito ao que tangencia e, ao mesmo tempo, por ser aposta no respeito ampliado. “Me trata como eu trato, que eu te trato. Me trata com o teu trato, que eu te devolvo o teu trato. E faço questão de devolver em triplo”. Para ela, a convivência, o grande palco da vida compartilhado entre os viventes, impõe um sentido de totalidade dado, aberto a perspectivas variadas, mas com composição inegociável. “Eu, Estamira, sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

Ao fim das contas, levamos a sério demais a letra no enigma? Se a força nos gestos de Estamira não passa de uma insolação, ao menos ela fez deles um desenho no ar de dignidade ao desamparo. E, o mais surpreendente, ao transbordar beiras extremas. “O além do além é um transbordo. Você sabe o que é um transbordo? Bem, é toda coisa que enche, transborda”. Indo além dos além da produção de imagens, o enigma Estamira emana sentido a partir de demandas concretas, uma condição historicamente pressentida pelas camadas populares. Em torno dele, há achados e perdidos. Mas, agora que o lixão transborda cada vez mais para fora de seus limites, engolfando a tudo e a todos que não são os grandes bilionários em seus bunkers, talvez estejamos orbitando o mesmo raio de questões. Que temos a ouvir? Que temos a dizer diante delas? “Felizmente, nesses anos que eu comecei revelar, já está quase todo mundo alerta. Erra só quem quer”.


Notas:
1 Ela pode ser conferida aqui.


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