Jacó ou a ideia da poesia
Por Alfonso Reyes
Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem até que a alva subiu. (...) “Lutaste com Deus e com os homens, e venceu.”
Gênesis 32, 24-28
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| Rembrandt. Jacó lutando com o anjo, c. 1659. |
Hoje em dia, estamos passando por uma crise que, resumidamente, tem sido classificada como uma luta pela liberdade artística. No que diz respeito à poesia, de um lado estão os defensores da tradição prosódica, como diz Claudel: metros, estrofes, combinações simétricas, rimas perfeitas e imperfeitas e até mesmo o acadêmico verso branco que o hábito vinha arrastando como um tronco. Do outro lado, as mil escolas e os punhados de dissidentes. Estes vão desde o rigor espiritual mais extremo, embora isso não apareça nos âmbitos formais, à negligência mais desleixada. E ainda há momentos ruins em que a obra poética pretende erguer as funções da escrita mediúnica ou sonâmbula; em que o poema usurpa a categoria de documento psicanalítico ou confissão aberta sobre o fluxo irrestrito de associações verbais para uso dos xamãs do Subconsciente. O que equivale a agarrar o rabanete pelas folhas ou a plantar flores para criar terreno fértil para a lama, já que o sentido da arte é o contrário: vai da subconsciência para a consciência.
Um toque de confusão sempre se insinua nessas disputas. Faltam os pingos nos “i”, que os deixam bem-enfeitados.
Dispensar a tradição prosódica é, artisticamente, tão legítimo quanto se render a ela. A arte opera sempre como um jogo que se dá a si mesmo suas leis, coloca seus obstáculos, para depois ir os vencendo. A ingenuidade imagina que, por negar as formas prosódicas, já há o direito de negar toda norma. Pelo contrário: a efetivação da estrofe e da rima ajuda o poeta como os andadores ajudam a criança: e soltar os andadores significa ter alcançado o passo adulto, seguro e exato em seu equilíbrio; ter conquistado outra lei: a mais imperiosa, a mais difícil, a que não se vê nem se palpa. Aquele que abandona a tradição prosódica, que muitas vezes até permite certas liberdades em relação à linha espiritual estrita do poema, assume compromissos ainda mais severos e caminha como por uma trilha aberta entre abismos. Ele anda na corda bamba sem equilíbrio. A seus pés não há rede para ampará-los.
Para mostrar o caso com que se deve abordar este assunto, relatarei uma conversa que ouvi há muitos anos em Madrid, sem lhe atribuir qualquer significado maior do que o de um mero epigrama literário nem aos seus interlocutores qualquer intenção maior do que a de uma conversa informal:
Gabriel Alomar, num acesso de impaciência com o excesso de formalidades, começou a dizer:
“O terceto, cuja única justificação é Dante...”
E Eugenio d'Ors o interrompeu gentilmente:
“Pelo contrário, caro Alomar: Dante, cuja justificação é o terceto...”
Em suma, é legítimo se libertar de qualquer procedimento que se tornou rotina e que, em vez de provocar uma reação frutífera no artista, é apenas um peso morto e um fardo inútil, sem justificativa para sua existência contínua além de já ter existido antes. Mas isso em nada afeta a ideia de liberdade, porque o verdadeiro artista é aquele que se submete às disciplinas mais rigorosas, a fim de dominá-las e extrair virtude da necessidade. “Fazer das tripas coração” parece simplesmente significar fazer um grande esforço para enfrentar bravamente algum perigo; mas também significa e descreve com precisão a situação do poeta, cuja função é transformar em um novo e positivo impulso tudo o que lhe foi imposto na clausura.
O artista certamente alcança a liberdade; ele produz liberdade (ou melhor, libertação) como resultado final de seu trabalho, mas ele não opera dentro da liberdade; ele faz coração de entranhas: é corajoso. E como na Idade Média chamavam “cortesia” de gaia ciência, aqui podemos brincar com outro clichê e declarar mais uma vez que, também no caso do poeta, “a cortesia não impede a coragem”. Ser poeta exige coragem para entrar em labirintos e matar monstros. E muito mais coragem para sair cantando no meio da rua sem dar explicações, em tempos como os nossos, quando a invasiva preocupação política — bastante justificada em si mesma — torna a palavra “liberdade” compreensível apenas em um sentido muito limitado e nada livre. Sou escravo das minhas próprias correntes — diz o poeta, enquanto canta as fazendo tilintar. Ora, como ele é um animal político, é bem possível que ele também traga seu punhal de Harmódio envolto em flores: a cortesia não exclui a coragem.
O que importa ao poeta é impedir que o espírito sucumba ao seu declínio natural, à sua pureza cósmica, o que o levaria rapidamente à mais nauseante vagueza e ao mais insípido vazio. A arte poética não é um jogo de esporas e freios como a equitação; pelo contrário, é um jogo ainda mais sutil, pois se trata de brincar com fogo. E o fogo, deixado à própria sorte, como sabemos, só consome. Em contraste, o fogo com esporas e freios é o motor das civilizações. De maneira semelhante, dizem os biólogos, os hormônios retardadores — os freios — determinam a hominização do homem, impedindo que seu crânio se descontrole e se desenvolva em outra coisa. O poeta, portanto, não pode ser indiferente ao elemento formal: na religião, o rito; na ideia, a palavra; na arte, o verso; na alma, o corpo. E aqueles poetas ortodoxos que tremem diante desta última proposição — na alma, o corpo — devem se tranquilizar recordando o dogma há muito esquecido da ressurreição, uma noção que reconhece a necessidade de uma reincorporação das almas para decidir seus destinos futuros. O poeta não deve confiar demais na poesia como um estado de espírito, mas sim insistir fortemente na poesia como um efeito das palavras. A primeira lhe é dada como um dom: “os deuses a concedem a ele livremente”, diz Valéry. A segunda ele deve extrair de dentro de si. Até os cães sentem a necessidade de uivar para a lua cheia e isso não é poesia. Por outro lado, Verlaine, falando de poetas, confessa: “nous… qui faisons des vers émus très froidement”. Ao pintor que queria escrever versos em seu tempo livre, pois não lhe faltavam ideias, Mallarmé costumava repreendê-lo: “mas versos, ó Degas, não são feitos com ideias, mas com palavras”. O poeta deve fazer de suas palavras “corpos gloriosos”. Toda imprecisão é um estado de espírito anterior à poética, assim como é anterior à matemática. Pois finalmente estamos começando a acreditar que o espírito de finesse e o espírito da geometria se comunicam através de mil canais subterrâneos, algo que a filosofia do grande Pascal jamais sonhou.
Poderíamos dizer que o poeta, às vezes, e até na maioria das vezes, precisa e deseja expressar emoções imprecisas. Como se a própria poesia nascesse do desejo de sugerir o que não tem nome, já que a linguagem é, acima de tudo, um produto de nossas necessidades práticas. Concordo; mas mesmo assim, e ainda mais do que nunca, o poeta deve ser preciso ao expressar o impreciso. Nada pode ser deixado ao acaso. A arte é uma vitória contínua da consciência sobre o caos das realidades externas. É uma luta com o inefável: “a luta de Jacó com o anjo”, chamamos.
* Publicado em Obras completas de Alfonso Reyes — Tomo XIV (México: Fondo de Cultura Económica, 1997, p. 100-104), este texto foi traduzido por E. Galeno.

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