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Mostrando postagens de 2026

Os monstros da nação em A febre, de Marcelo Ferroni

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Por Douglas Sacramento Marcelo Ferroni. Foto: Chico Cerchiaro Ao pensarmos em nação, alguns símbolos surgem de forma imediata: a bandeira, o hino, os feriados nacionais — como o 7 de setembro. Mas, existem narrativas que estão escondidas ou silenciadas quando pensamos na historiografia de um país. Lidamos com um campo de batalha entre lembrar e esquecer. A literatura, enquanto gestora e movimentadora de narrativas, pode tanto atestar a história oficial — varrendo para debaixo do tapete versões dissidentes — quanto trazer novas possibilidades de compreensão do país e da construção da nacionalidade.   Rachel Esteves, no ensaio “Literatura em regime de urgência no Brasil pós-2013”, faz um mapeamento da produção literária contemporânea e sua relação com as questões políticas do país. Para isso, a pesquisadora estabelece um período histórico que vai da Queda do Muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, passando pelas Jornadas de Junho de 2013, culminando no impeachment da então p...

A cartografia do tempo inscrita nos corpos em Ressuscitar mamutes de Silvana Tavano

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Por Felipe Vieira de Almeida  Silvana Tavano. Foto: Eduardo Knapp “Não consegui lembrar da receita, mas minha mãe fazia assim”, foi o que ouvi de um cozinheiro ao tentar cozinhar um prato de sua infância; sem ter certeza da receita usada, ele se viu reproduzindo os movimentos e etapas gravadas em sua memória. Replicou com seu corpo o trabalho que via o corpo de sua mãe executar na cozinha. Aquela tentativa de trazer à comida um sabor através da memória do corpo foi a primeira vez em que pude enxergar a possibilidade de a memória afetiva se entremear na carne, nos ossos, nos nossos movimentos. Reencontrei esse jogo de impregnação afetiva na obra de Silvana Tavano. Em seu livro mais recente, Ressuscitar mamutes , Silvana Tavano faz uma transubstanciação literária ao amarrar diferentes gêneros textuais em um único fluxo onde recortes que poderiam ter vindo de revistas de divulgação científica se mesclam às reminiscências e explorações psicológicas de uma narradora que reexamina a traj...

Boletim Letras 360º #685

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Michel Nieva. Foto: Coni Rosman    LANÇAMENTOS O segundo livro do escritor argentino Michel Nieva a chegar aos leitores brasileiros .   Bilionários do Vale do Silício são leitores devotos de ficção científica: investem montanhas de dinheiro no desenvolvimento de alta tecnologia para conquistar o futuro. Querem colonizar outros planetas, acabar com o envelhecimento e ser a porção ínfima e privilegiada da humanidade que vai se salvar, depois do fim do planeta Terra. Com uma prosa sarcástica para leitores desconfiados, Nieva faz uma crítica aguda ...

Cuidado com quem te ama, de Tiago Correia

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Por George Henrique Tiago Correia. Foto: Arquivo do escritor. “tem um abismo abrindo lá fora/ e meu coração começa a sentir o tremor do mundo”; assim escreve Tiago Correia nos versos iniciais de um de seus poemas. Sensação semelhante àquela vivida pelo leitor, tão logo ele abre as páginas de Cuidado com quem te ama (Editora Mondrongo), coletânea de poemas publicada pelo autor soteropolitano em 2023. Nela, impera uma tônica de advertência, conjecturada desde o título, que, na capa da obra, encontra-se inscrito em uma placa, reforçando, através da visualidade, a urgência de se redobrar a atenção no momento da leitura. Isso porque os poemas de Correia nos colocam, de fato, na iminência do abismo, que, embora se abra lá fora, não deixa de incidir um segundo sequer sobre os abismos que carregamos fundo em nosso âmago e nem sempre se mostram. Não à toa é no coração que se sente o tremor do mundo, afinal, por mais que tentemos, é difícil dissociar o espírito daquilo que se coloca em nosso en...

Objetivação e metaficção no romance de Andrea Jeftanovic

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Por Gabriella Kelmer  Andrea Jeftanovic. Foto: Guillermo Barquero Há uma medida em que a literatura suspende a vida. Em que ela nos arrebata do mundo, da realidade, da sensação física das coisas. É nesse estado de letargia, de entrega a um limiar outro que não o nosso, não mais aquele que nos foi relegado por circunstâncias, irremovíveis ou escolhidas, que é gerado o desprendimento, a confusão, a necessidade de nos recolocarmos em um corpo vivo. A literatura também gera desconhecimento. Ao menos tem sido assim na minha vivência. Habito por vezes um estado de desconexão, ora maravilhada, ora apática e entorpecida, que momentaneamente afrouxa meus laços com quem eu sou, com o que eu prezo, com tudo aquilo que não é a experiência imediata do simbólico, do linguístico, do ficcional. Escolher a literatura tem sido muitas vezes ver a mim mesma através de uma lente que conserva as distâncias, objetiva meus desafios e a minha vida, enquanto estabelece com maior generosidade os contornos di...

O estrangeiro, de François Ozon

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Por Pedro Fernandes Em 1967 Luchino Visconti realizou uma adaptação para o cinema de O estrangeiro , de Albert Camus, daqueles romances, diga-se, indispensáveis ao desenvolvimento de algumas das nossas extensões existenciais por nos oferecer um protagonista radicalmente preso na certeza de que as nossas ações apenas nos pertencem e é exclusivamente nossa toda responsabilidade do que fazemos ou deixamos de fazer porque não existe o sentido inerente à vida. O filme do cineasta italiano era até agora a versão mais bem avaliada. Tantos anos depois, quando as diretrizes do existencialismo parecem circunscritas a um tempo fora do nosso em que, contraditoriamente, fixou-as como prática, François Ozon (depois de Zeki Demirkubuz) achou por bem retomar tal interesse. Fez uma obra que concorre com a leitura de Visconti. E aqui com uma qualidade a mais: embora universal e atemporal, o absurdismo camusiano aparece como se uma coisa muito distante de nós e é possível que não exista uma razão para is...

O retorno do Barão de Wenckheim, de László Krasznahorkai

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Por Henrique Ruy S. Santos László Krasznahorkai. Foto: Johan Carlberg Permitam-me, à guisa de introdução, uma breve digressão de caráter anedótico.  Em 31 de março de 1913, na famosa sala de concertos Musikverein, em Viena, o compositor austríaco Arnold Schoenberg conduziu uma performance de trabalhos musicais de alguns de seus estudantes, como Alban Berg e Anton Webern, para um público de, segundo relatos, 2 mil pessoas. Ou, poder-se-ia dizer, o que seria mais acertado, “tentou conduzir”. Não foi possível concluir o programa do concerto, uma vez que a audiência, enfurecida pelas “extravagâncias” e pelas verdadeiras “loucuras” da música de Schoenberg e seus discípulos, irrompeu em um inesperado mas contumaz protesto não só contra os músicos e compositores, mas contra toda a organização do evento. Sob pedidos exacerbados de intervenção psiquiátrica e o barulho crescente do tumulto, os envolvidos, plateia e organização, chegaram às chamadas vias de fato, com troca de socos e pontapés...

As máximas de Ptahhotep

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Por Afonso Junior Saiu entre nós uma nova tradução das máximas de Ptahhotep, a cargo do doutor em teologia pela Universidade de Bonn, Alemanha, frei Volney José Berkenbrock. A coleção Sabedoria Universal, na qual a obra foi inserida, traz a produção sapiencial de diversos povos, do filósofo chinês Confúcio ao ensaísta libanês Khalil Gibran.  Ptahhotep era o administrador geral do faraó Isesi (da quinta dinastia egípcia, governou entre 2414 e 2375 a.C.), cuidava dos bens, dos milhares de funcionários e da justiça, o que depois se chamaria de vizir . No século XIX, um engenheiro e arqueólogo de origem francesa, Prisse d'Avennes, comprou, próximo a necrópole de Tebas, um papiro com uma cópia das máximas do vizir (“ensinamentos” diz o papiro). No seu “prólogo”, anuncia o rei: “Ensina primeiro o discurso! Assim, ele será um exemplo para os filhos dos altos funcionários”.   Os “discursos” curtos e diretos ensinam o comportamento adequado, mas também o comportamento que corresponde à...

Seis poemas de John Clare

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção, versões e notas)* William Hilton. John Clare , 1820. RAPAZES DA ESCOLA NO INVERNO Os jovens estudantes ainda dão os seus passeios matinais Até à escola da aldeia vizinha, em passo rápido e divertido; Vadiando, deixam o tempo passar, até que estremecem, E observam no alto os bandos de gansos selvagens, Vendo as letras que desenham nas suas viagens, Ou arrancam bagas de espinheiro, a refeição da tordoveia¹, E rosa mosqueta e abrunhos — e em cada lago raso Deslizam suavemente, levando as sombras onde querem, Até uma nova diversão despertar nas suas ideias; E lá começam de novo, soprando depressa Os seus dormentes e desajeitados dedos até cintilarem, E depois uma corrida, as suas sombras indo selvagens, Aquelas passadas, uns gigantes enormes, sobre a neve fulgente No pálido esplendor do sol de inverno.  LORD BYRON Um sol esplêndido entrou no ocaso — quando os nossos olhos  Verão uma tão bela manhã despontar, Como a que deu vida ao seu géni...