Objetivação e metaficção no romance de Andrea Jeftanovic

Por Gabriella Kelmer 

Andrea Jeftanovic. Foto: Guillermo Barquero


Há uma medida em que a literatura suspende a vida. Em que ela nos arrebata do mundo, da realidade, da sensação física das coisas. É nesse estado de letargia, de entrega a um limiar outro que não o nosso, não mais aquele que nos foi relegado por circunstâncias, irremovíveis ou escolhidas, que é gerado o desprendimento, a confusão, a necessidade de nos recolocarmos em um corpo vivo. A literatura também gera desconhecimento.

Ao menos tem sido assim na minha vivência. Habito por vezes um estado de desconexão, ora maravilhada, ora apática e entorpecida, que momentaneamente afrouxa meus laços com quem eu sou, com o que eu prezo, com tudo aquilo que não é a experiência imediata do simbólico, do linguístico, do ficcional. Escolher a literatura tem sido muitas vezes ver a mim mesma através de uma lente que conserva as distâncias, objetiva meus desafios e a minha vida, enquanto estabelece com maior generosidade os contornos diversos de outras experiências.

Foi essa a reflexão a que o romance da chilena Andrea Jeftanovic, Cenário de guerra, lançado em 2000 e editado pela Mundaréu em 2021, foi me conduzindo, pouco a pouco, mas é primeiro necessário falar da obra, para chegarmos ao efeito que sua leitura produziu.

A perspectiva em primeira pessoa é a da protagonista, Tamara, que ressimboliza o passado a partir do que ela mesma virá a chamar de “imagens-matriz”. O romance tem uma estrutura bem definida: é um drama em três atos, cada um iniciado por um capítulo em que as personagens se manifestam como atores de uma peça, ficando nus, por essa escolha, os fios que articulam a narrativa. Símbolos e papéis são designados nesse interregno, aos quais os demais capítulos do ato se sucedem sem divisão estrutural. A partir da visão dessa primeira pessoa, Tamara evidencia a parcela de si que os outros ocupam, os lugares designados a eles, menos na vivência factual do que nos fantasmas que a assombram e nas memórias que verticalizam para ela o passado. Refigurados pela parcialidade e pela perspectiva, vez e outra reveladas, os outros servem a um propósito narrativo indiscutível, ganhando propósito e razão de ser, em mecanismo que reflete a própria criação ficcional. 

“Aprendi a escrever imitando os desenhos de outras crianças, com grande esforço para preencher a página. As perguntas de papai iluminam minhas buscas, as coisas que depois leio. Procuro respostas juntando fragmentos, indícios, frases incompletas que encontro em livros, revistas da época, cartas de família. Monto um quebra-cabeça combinando as interrogações de papai com os meus achados. Procuro o sentido de frases soltas, termos estranhos e seu significado no dicionário. Anoto valas comuns, epidemia, deportações. Algumas dessas palavras não constam, e então se abre um novo abismo” (Jeftanovic, 2021, p. 31).

Dentre esses papéis, há o pai, eterna criança de lugar longínquo e assemelhado à antiga Iugoslávia, eternamente aprisionado no menino que foi quando assistiu a seu próprio pai ser levado embora por militares nazistas (semelhantes, embora inteiramente diferentes, daqueles que controlaram o Chile até os anos 1990). Seu lugar é uma pátria inexistente, apagada dos livros de geografia, alheia à história das enciclopédias; seu símbolo, pelo filtro oferecido pela palavra e pelos sonhos da filha, é o cheiro fétido de um passado que fora “um rio coagulado de detritos e fezes” (Jeftanovic, 2021, p. 23). Divide, durante alguns capítulos, a infância com Tamara, que não deseja superá-lo em idade, mantendo uma cumplicidade com a dor que, embora a atravesse, não é sua, mas a herança difusa de uma guerra que ela não viveu.



A mãe lança sombras sobre os filhos e corredores, manifestando uma tristeza profunda, abrasiva. É ela também a mulher sedutora e displicente de casos extraconjugais e de indiferença perante os filhos e seus interesses. Seu pragmatismo e sua fúria são avassaladores e tomam de assalto a vida das crianças. É a sua ausência e a sua impossibilidade de relembrar lâminas que atravessam a caçula, nossa narradora.

Os três filhos ocupam as margens desse núcleo familiar, mantendo essa posição nas outras configurações que sucedem o divórcio entre os pais. Nesses termos, a guerra, inscrita desde o título, é vivenciada primeiro como realidade privada, na insegurança alimentar, na indiferença parental e no desrespeito absoluto perante filhos cujas vontades e personalidades não encontram terreno seguro para manifestação. Há outra guerra, aliás outras guerras, que ocorrem fora das paredes de casas variadas, mas dessas sabe pouco a protagonista (autodesignada personagem secundária da própria história). Mais tarde, quando reaparece o cenário de devastação iugoslavo, é evidente o paralelo traçado entre a vivência nuclear da família e a terra arrasada deixada depois do conflito bélico, pois o elemento humano – manifestado no horror, no sofrimento, na memória obsessiva ou no esquecimento absoluto — costura as duas pontas, manifestando em que medida dores de cenários de guerra diferentes se correspondem. 

“Há um menino. Suas pernas finas flutuam como muletas debaixo da calça. Penso que é o último menino que sobrou. O último menino, não há mais. Suas unhas têm terra. Brincou de guerra no quintal. Pergunto seu nome e idade. Chama-se Erick. Me mostra nove dedos” (Jeftanovic, 2021, p. 169).

A protagonista, também narradora, ocupa durante muito tempo o silêncio do sofrimento inefável, sendo a escrita – é o romance metaficcional — uma saída arrematada ainda durante a infância. Carrega o fardo paterno, de um lado, e o eco de um sofrimento que atravessa o Atlântico, mas também vive dilacerada pela negligência, pelo assujeitamento, pela violência a que se tornou vulnerável na ausência de uma parentalidade presente ou saudável. É sobrevivente duas vezes, como filha e como indivíduo, e talvez por isso sinta muita dificuldade de ocupar outro tempo que não o do passado, espaço intangível em que se origina a sensação de constante desajuste. Para ela, o tempo é uma linha vertical. Lembra obsessivamente, repisando os mesmos temas; sua linguagem, talvez por isso, é ocupada por períodos curtos, por verbos no presente, em um recurso da autora de demonstrar a não superação, a maneira com que o passado se rearticula perante os olhos.

É verdade que a todo o tempo não perdemos de vista que essas escolhas são duplo artifício, na dramatização a que a personagem se rende e na ficção escrita por Jeftanovic, as duas comparáveis pelo elemento artístico. Todavia, ser artifício — visualizá-lo, avaliá-lo, medi-lo — não significa à literatura perda de autenticidade nem de verdade, como aliás comprovam muitas obras contemporâneas; há legitimidade na perspectiva adotada, o sofrimento de Tamara existe, ecoa outros sofrimentos. Existe, é difuso, ocupa vãos e silêncios, articula-se após diversas perdas, mas é tocado pela intenção, pelo efeito, pela objetivação. 

Há uma cena no capítulo “Sessão entre quatro paredes” em que Tamara leva a relação com sua mãe à terapia, articulando que multiplicou “as duas paredes do útero pelas quatro do consultório” (Jeftanovic, 2021, p. 77). Fica evidente desde esse ponto o desejo de se fazer outra, de nascer novamente, de constituir — por meio da linguagem, embora em contexto outro que não a arte — nova subjetividade. A terapeuta poderia ser sua mãe, nessa nova vida, e ela seria uma filha comportada, organizada, quieta. A lacuna deixada pela figura materna é evidente e desoladora; a necessidade de se afastar de si mesma, vislumbrada inclusive na apatia com que relata o passado, é mais uma vez reafirmada. 

Por meio da aparição desse capítulo, notabilizou-se definitivamente, na minha leitura, a impressão da escrita metaficcional — paralela à terapia e à dramatização — como uma necessidade de estabelecer distanciamento. Tamara precisa disso, precisa despir as coisas do excesso, enxergá-las longe de si; pela mesma via que o faz, viabilizando a experiência do leitor, ela foge, desvia-se, esbate-se perante a própria história. 

“Sou Tamara. Eu sou. Quero ser invisível. Quero existir debaixo de uma mesa. Quero pôr o armário em ordem. Meu tempo é vertical. Na memória, as coisas ocorrem pela segunda, terceira vez. Temo amanhecer diluída em uma mancha. Minha tristeza vem me encontrar quando deito na cama. Quem quer escovar meu cabelo? Quem quer cuidar do meu relógio e do meu cão de porcelana? Sou” (Jeftanovic, 2021, p. 189).

É nesse sentido que retorno à objetivação produzida inevitavelmente pela literatura, o que a própria narradora afirma, notabilizando que “Minhas palavras são um grito na folha. À medida que escrevo a respeito da minha vida, deixo de fazer parte dela; vou criando outra existência nas entrelinhas” (Jeftanovic, 2021, p. 163). É nesse contexto que cada personagem se articula simbolicamente, que os espaços ganham contornos parecidos, que fatos aparentemente insignificantes — uma coleção de cães de porcelana, o barulho do coração, o número dois — preenchem-se de sentido apenas sob a luz analítica, difusa, por vezes grotesca lançada pela protagonista. É tudo intencional, propositado, e sua escrita é a primeira ferramenta que organiza, de dentro do universo ficcional, uma tentativa de fazer significar uma vida profundamente cindida pelo trauma. Assim, a escrita é para Tamara, como a leitura é para muitos de nós, uma via para que a realidade imediata se apazigue. Jeftanovic, com seu romance e sua protagonista, diz também sobre a escrita, sobre a maneira como ela permite – não se sabe em que medida — redimensionar um mundo de sofrimentos, de injustiças, de silêncios, a se reposicionarem algum dia como linguagem.

Curioso que o distanciamento ficcional de Tamara tenha ocasionado em mim um naufrágio momentâneo perante o ato literário; curioso que eu tenha demorado a voltar para mim mesma depois da experiência. Se é isso que se busca na literatura, uma parcela de verdade que gera um certo desajuste, uma certa dificuldade de retorno, recomendo essa obra, de grande autenticidade temática e de soluções estéticas bastante interessantes. Aliás, em tempos nos quais a guerra se reafirma como realidade de um mundo em devastação, o romance comunica sobre efeitos, sobre as consequências nefastas que os conflitos geram naqueles que os assistem sem alternativa. 


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Cenário de guerra
Andrea Jeftanovic
Luís Reyes Gil (Trad.)
Mundaréu, 2021.
192 p.


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