Cuidado com quem te ama, de Tiago Correia

Por George Henrique


Tiago Correia. Foto: Arquivo do escritor.



“tem um abismo abrindo lá fora/ e meu coração começa a sentir o tremor do mundo”; assim escreve Tiago Correia nos versos iniciais de um de seus poemas. Sensação semelhante àquela vivida pelo leitor, tão logo ele abre as páginas de Cuidado com quem te ama (Editora Mondrongo), coletânea de poemas publicada pelo autor soteropolitano em 2023. Nela, impera uma tônica de advertência, conjecturada desde o título, que, na capa da obra, encontra-se inscrito em uma placa, reforçando, através da visualidade, a urgência de se redobrar a atenção no momento da leitura. Isso porque os poemas de Correia nos colocam, de fato, na iminência do abismo, que, embora se abra lá fora, não deixa de incidir um segundo sequer sobre os abismos que carregamos fundo em nosso âmago e nem sempre se mostram. Não à toa é no coração que se sente o tremor do mundo, afinal, por mais que tentemos, é difícil dissociar o espírito daquilo que se coloca em nosso entorno — tarefa que se torna impossível, se nos lançamos à poesia.
 
Em Cuidado com quem te ama,  o poeta apresenta um caleidoscópio de estilos e temas, os quais se encontram dispostos ao longo de mais de 100 poemas — 110, se o cálculo não for falho. De todo modo, a despeito de toda essa diversidade, há, no livro, linhas de força comuns, sobretudo no âmbito temático, que se fazem patentes e que colaboram para a construção de uma certa linearidade, erguida a partir das consonâncias que vão se estabelecendo entre os textos.

Logo a princípio, chama a atenção a força acentuadamente política que atravessa a maior parte dos poemas. Muitos deles são hasteados sobre críticas, ora irônicas, ora melancólicas, à situação política brasileira entre as décadas de 2010 e 2020, perpassando, assim, o Impeachment de Dilma Rousseff em 2016; a ascensão dos discursos de extrema-direita no Brasil, que culminaram, em 2018, com a chegada de Bolsonaro à presidência; o seu mandato, marcado por ataques constantes à democracia, intensificados durante a Pandemia de Covid-19, em 2020; até chegar à eleição que trouxe Lula ao governo pela terceira vez, algo, até então, inédito na história de nossa nação. 

De modo geral, portanto, os textos de Correia captam o clima de instabilidade social que se configurou no recorte histórico supracitado, evidenciando como o íntimo e o público se fundiram — e, em certo sentido, entraram em colapso —, de maneira que até mesmo as pequenas alegrias, as mais simples do cotidiano retratado em seus versos, são contaminadas pela aura hostil constatada entre nós; aura essa que, a bem da verdade, parece longe de cessar. Nesse sentido, embora evoque imagens de alegria, suscitando, até mesmo, um tom bucólico e nostálgico, a depender do momento, essas são atravessadas pela carga social já referida, que nelas imprime sua marca e as macula.

Tal panorama já se faz presente no jogo arguto que o poeta compõe com a palavra “cuidado”: partindo da máxima “quem ama, cuida”, Correia vai ampliar os significados do termo em questão, chamando a atenção para os tipos de afeto que são lançados ao Brasil. Dessa forma, ele se levanta contra os discursos conservadores e protecionistas, que, supostamente, buscam defender a nação e aparecem como aqueles que realmente amam o país, quando, na verdade, lutam em prol de seus interesses, apenas. 

*

dois caças militares cortaram bem raso o céu.
pode ser que seja o anúncio de uma segunda intervenção militar
no brasil
no brasil que ainda sente o cheiro das ratazanas famintas 
e mantém os fios desencapados prontos para serem religados. 
alguns especialistas dizem que cuidado com quem te ama
é o ideal para que uma relação possa ser saudável
mas meus olhos desacreditados no amor
me dizem que cuidado com quem te ama
está mais próximo de uma intervenção
no coração.
os militares e o atual presidente do brasil flertam
um cuidado com quem te ama brasil. (Correia, 2023, p. 19)

Em 2024, o rosto atônito de Fernanda Torres, interpretando a advogada Eunice Paiva, no filme Ainda estou aqui, ganhou notoriedade mundial. Logo na cena de abertura do longa, a personagem tem seu sossego na praia perturbado pela presença de helicópteros militares que sobrevoam o mar. O tom aflitivo da cena, ambientada durante a ditadura militar brasileira, mais especificamente no ano de 1970, é bem semelhante àquele que se coloca nesse poema, escrito mais de 50 anos depois e 1 ano antes do filme brasileiro nos colocar diante da difícil realidade de que o Brasil lida muito mal com o histórico de seus traumas e que tal negligência incide sobre nosso presente, abarcando as afetividades mais corriqueiras de qualquer indivíduo. Como fica patente nesse poema de abertura, é justamente o “cuidado” que as ratazanas famintas nutrem pelo Brasil que pode levá-lo à derrocada — algo de que a história recente é prova. No texto, o amor, sentimento dos mais sublimes, aparece corrompido, lançando, pois, uma suspeita quanto à autenticidade desse sentimento, que, aqui, parece guardar consigo uma armadilha cruel. 

Dessa forma, não é incomum que os poemas de Correia emanem a apatia e a impotência do indivíduo diante do mundo que o cerca, que o detém e o paralisa, minando seus sonhos e suas fantasias. Não à toa, uma outra linha de força em seus versos é a morte, que parece perscrutar a todo instante, como um fantasma, uma imagem espectral que por vezes se coloca mais concreta, seja nos óbitos retratados no telejornal, no carro funerário que desponta na rua, ou, até mesmo, na contagem dos calendários vividos, como se cada mínimo dia importasse; e, noutros momentos, apresenta-se de maneira mais metafórica, representando as mortes que se enfrenta diariamente, seja na falência das instituições que, definitivamente, não cumprem aquilo que pregam, seja nas relações que se afastam ou que, porventura, não chegaram a ser o que se idealizava, ou, até mesmo, nas memórias que evocamos de quem um dia fomos.



Se, diante do exposto, é nítida a presença de Tânatos e sua propulsão à destruição e ao caos, nada mais justo que destacar também a presença de Eros, que também espraia sua força na coletânea, sobretudo no âmbito do homoerotismo, reiterando, assim, o caráter político da obra, haja vista ser óbvia a repressão que pessoas LGBTQIA+ ainda enfrentam na sociedade, principalmente se buscam viver livremente seu desejo. Os versos de Correia retratam um desejo visceral, seja pelo caráter transgressivo que lhe é intrínseco, seja por representar, em certo sentido, uma escapatória ao caos do mundo, um afastamento da racionalidade e do comezinho, enquanto se mergulha na agudeza das fantasias.

*

o poema me vem à meia-noite 
se deita comigo 
me roça o pau
a língua 
o cu 
o buraco do nariz

o poema faz de mim 
seu sol 
seu céu 
seu mar

meia-noite 
me toma o corpo 
o movimento 
o sexo

goza na cara e sem dizer se volta 
amanhã 
ou depois de amanhã 
ou no carnaval 
vai embora como se eu fosse sua casa
 
a casa de veraneio (Correia, 2023, p. 49).

Nesses versos, o poema surge próximo de quem o enuncia, a relação com ele é, antes de mais nada, gozosa. O poeta se apropria do poema (e vice-versa), como numa espécie de atenuação da babel que se apresenta no estrato social; em certo sentido, é como se a lírica do autor nos lembrasse da importância da arte em tempos obscuros, não só como uma via de combate, mas como salvação e expurgação para os combatentes, mostrando que a poesia, ainda que inútil dentro de uma lógica neoliberal — ou principalmente por sê-lo —  constitui elemento fulcral para que a vida se faça.

 Há de se destacar também uma certa verve metapoética que, não ocasionalmente, dá as caras na coletânea em pauta. Há ainda diversos diálogos intertextuais, os quais se referem tanto a autores contemporâneos, alguns, inclusive, colegas do autor, como também a autores clássicos, além de diálogos com obras de outras semioses. No entanto, constata-se mais significativamente referências a título de menção, estabelecendo, usualmente, uma continuidade lógico-discursiva entre o que exprime o poeta primeiro e Correia. Há de se destacar, de todo modo, que são referências explícitas, o que esboça um movimento que contraria, portanto, certas noções arraigadas de originalidade. Ainda assim, trata-se de um recurso que já se tornou costumeiro dentro do panorama poético contemporâneo.

Diante de toda essa amplitude de temas, é natural que um sentido específico de unicidade seja esgarçado no decorrer da leitura, sobretudo se focalizado o título da coletânea, que deixa, infelizmente, de ressoar em alguns poemas. Todavia, é possível afirmar que, ao adentrar toda essa multiplicidade de ideias, o autor consegue transpassar a quem o lê o abismo vertiginoso que é a contemporaneidade, esse termo já tão amplo em suas significações. Sem dúvida, Cuidado com quem te ama é uma obra que consegue sintetizar o sentimento de urgência que acompanha a vida no presente momento, esboçando um olhar crítico e reflexivo sobre esse estrato ainda tão espinhoso.

Sob o prisma da estrutura, o verso livre predomina, não havendo, logo, usos significativos de uma métrica clássica, de formas fixas, tampouco de rimas. A linguagem empregada por Correia nem é rebuscada demais, nem se coloca popular demais, à guisa do que se constata na poesia dos marginais cariocas setentistas, por exemplo. Trata-se, portanto, de uma linguagem equilibrada, com alguns poucos experimentalismos em poemas ocasionais.

Em suma, ao término da leitura, o que se constata é a força de um poeta que, a despeito da recente inserção no circuito literário, já demonstra uma maturidade palpável, tomando da arte poética não apenas para traçar um testemunho de seu tempo, mas, sobretudo, para inquiri-lo em suas contradições intrínsecas. Seus textos são uma investigação aguda sobre as dissidências de um Brasil fraturado e desconfiado de si próprio. É, sem dúvida alguma, uma leitura cara ao momento de instabilidade em que vivemos, no qual seus versos surgem como lampejos de lucidez em meio à devastação do presente.


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Cuidado com quem te ama
Tiago Correia
Editora Mondrongo, 2023
130 p.

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