A cartografia do tempo inscrita nos corpos em Ressuscitar mamutes de Silvana Tavano
Por Felipe Vieira de Almeida
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| Silvana Tavano. Foto: Eduardo Knapp |
“Não consegui lembrar da receita, mas minha mãe fazia assim”, foi o que ouvi de um cozinheiro ao tentar cozinhar um prato de sua infância; sem ter certeza da receita usada, ele se viu reproduzindo os movimentos e etapas gravadas em sua memória. Replicou com seu corpo o trabalho que via o corpo de sua mãe executar na cozinha. Aquela tentativa de trazer à comida um sabor através da memória do corpo foi a primeira vez em que pude enxergar a possibilidade de a memória afetiva se entremear na carne, nos ossos, nos nossos movimentos. Reencontrei esse jogo de impregnação afetiva na obra de Silvana Tavano.
Em seu livro mais recente, Ressuscitar mamutes, Silvana Tavano faz uma transubstanciação literária ao amarrar diferentes gêneros textuais em um único fluxo onde recortes que poderiam ter vindo de revistas de divulgação científica se mesclam às reminiscências e explorações psicológicas de uma narradora que reexamina a trajetória da relação com a mãe. A personagem refaz a história da família e transparece a maturidade não só de quem viveu uma vida e teve tempo de elaborar sua própria vivência, mas também a maturidade de uma escritora em pleno controle de sua narrativa, se dando inclusive a liberdade de multiplicar as possibilidades interpretativas através de textos que tomados individualmente fogem às expectativas do que é literatura.
Em certa altura do livro dá as caras o famoso calendário de Carl Sagan em que o físico divide a história do universo em um único ano, iniciando com o Big Bang e terminando em nossa época, e Tavano salta do artifício do físico para a mesma conclusão de Virginia Woolf em seu conto “A morte da mariposa”:
“Sagan chega ao último segundo do ano cósmico com o início do capitalismo comercial e a expansão colonial europeia, às 23h59min59s. Estamos todos em alguma fração infinitesimal desse último segundo do calendário, prestes ao janeiro que virá expandindo ou talvez sugando o Universo num buraco negro sem tempo. Somos eventos prestes a. Ou, como disse o próprio Sagan, somos borboletas que se agitam por um dia e pensam que é para sempre.” (p. 68)
Mas não é só o texto que se transmuta nesse livro. Assim como o cozinheiro repetiu os movimentos da mãe para executar o prato da infância, Silvana Tavano constrói continuidades através dos corpos das mulheres de uma mesma família. Mãe e filha lutam contra as dores e incômodos das unhas encravadas que não são verdadeiramente afecções do corpo, mas somatizações de algo mais insidioso e que segue brotando nas unhas como se o corpo pedisse socorro para algo que não é uma questão fisiológica: “Latejando sob as unhas dos meus dedos, tão parecidos com os dela, encontro a mesma dor, que tento anestesiar com outra dor. // Às vezes sou minha mãe machucando os nossos dedos.” (p. 32)

A história que o psicanalista austríaco Otto Rank contava de uma paciente de 35 anos, bem-estabelecida na vida, feliz e saudável, exceto por um desconforto gastrointestinal leve, mas recorrente e cujas causas “fisiológicas” já tinham sido todas excluídas pelos médicos que a examinaram, vem-me à cabeça. Rank falava desse caso como alerta para o fato de que nosso corpo é também um cartógrafo de nossa história pregressa e uma unha encravada, por exemplo, pode ser o preço a se pagar pela tranquilidade de não lidarmos com questões psicológicas que podem demandar ainda mais sofrimento de nós mesmos. Recordo o psicanalista em A negação da morte:
“Não se pode ter tudo sempre, é provável que ela tenha que pagar. Afinal, que diferença faz se ela tem, de vez em quando, esses ataques de indigestão? Eu tenho isso de vez em quando, você também, provavelmente, e não por motivos físicos, como talvez você saiba. Há quem tenha dor de cabeça. Em outras palavras, não é tanto uma questão de saber se temos condições, ou não, de curar um paciente, se podemos ou não curá-lo, mas de saber se devemos ou não curá-lo.”
O jogo de alternâncias entre gêneros textuais, corpos e memórias constrói uma narrativa afetiva em Ressuscitar mamutes que vai além do propriamente escrito. Parte da beleza desse livro é responsabilidade do leitor e isso justifica algumas críticas apressadas que giram em torno justamente da maior força da obra. O que parece fora de lugar é na verdade um convite da autora a associações interpretativas que ficam em aberto; ela pode não conectar explicitamente tudo o que escreveu, mas há recompensas maiores aos leitores interessados em aceitar o convite subentendido nesse livro.
Ressuscitar mamutes é um livro maior que suas partes e escrito com excelência, porém, talvez por conta mesmo dessa excelência, trata-se de um desses livros que se devora de uma vez só e que, no entanto, descobri nos dias e semanas depois de tê-lo fechado que ele continuava se abrindo para mim, entregando profundidades. A cartografia do tempo inscrita no corpo de suas mulheres, à semelhança do tempo decifrado a partir do corpo do mamute, também pede seu tempo para entregar seus segredos, o tempo enriquece esse livro como o faz com toda boa literatura.
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Ressuscitar mamutes
Silvana Tavano
Autêntica Contemporânea, 2024
120 p.

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