Nunca rimos tão deliciosamente quanto eles. Mikhail Bakhtin e o riso rabelaisiano

Por Felipe Vieira de Almeida 

Gargântua e Pantagruel. Ilustração de André Derain



Estávamos preguiçosamente desperdiçando tempo depois de um almoço de domingo quando meu amigo esparramado no sofá da sala me disse “Olha o que eu te enviei” e eu já tinha aberto a notificação. Era o vídeo infame da chefe do Departamento de Justiça dos Estados Unidos defendendo que o bom desempenho do índice DOW (Over 50 thousand!) e da NASDAQ (Smashing records!) seria o bastante para evitar investigar o caso Epstein e os bilionários, nobres e famosos implicados direta ou indiretamente nos arquivos publicados. Acima do vídeo, o título “The DOW is now below 50K” e  na tarja preta abaixo lia-se “At least we can finally investigate pedophiles again”. Dei uma risada que foi quase só um sorriso enquanto ele me observava rindo feito menino que brinca com fogo; havia um peso naquela piada: era mais uma das muitas derrotas diárias a que somos expostos online. Rimos e em seguida caímos naquele estado curto de desapontamento, ríamos da nossa impotência mais do que daquele vídeo e da obscenidade norte-americana. Antes que pudéssemos nos afundar nessa tristeza risonha escolhemos o outro caminho, fomos pegar a sobremesa e passar um café.

Talvez seja uma temeridade questionar o quão pouco ridentes podemos ser considerando que as redes sociais consomem ou querem consumir todo o tempo desperto da humanidade com memes, teatrinhos de influencers, violência, desastres e propaganda. Ainda assim, é preciso notar que rimos pouco mesmo quando achamos algo engraçado e o fazemos sempre meio tristemente quando finalmente rimos olhando para nossas telas. Rimos tal como nos é possível, ou seja, rimos historicamente, ideologicamente, materialmente, sendo esse um dos argumentos visionários que Mikhail Bakhtin defendeu em seu livro A obra de François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e no Renascimento, publicado pela Editora 34 em uma nova tradução monumental assinada por Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Bakhtin esmiúça a obra completa do autor francês do século XVI: os livros sobre os gigantes Gargântua e Pantagruel, que tinham os pés no medievo, mas o olhar já vislumbrando o Renascimento que despontava no horizonte.

Se vamos falar do riso medieval tal como Rabelais soube injetar em seus livros, convém evitar a interpretação mais direta e errônea que os próprios contemporâneos do autor tiveram ao primeiro contato com seu trabalho. Ao abordar a sociedade medieval ridente importa dizer o que não é o riso medieval, de acordo com Bakhtin: “Não era em absoluto minha intenção considerar o riso como algo alegre, desinteressado e feliz. Ele foi uma das armas mais poderosas de luta. O povo lutou tanto com o riso quanto com armas de fogo, punhos e bastões.”

Se não vamos tratar do riso como algo alegre, desinteressado e feliz é até difícil para nossa sensibilidade contemporânea alcançar outro modo de rir, pensar características que fujam a esse aspecto, a não ser talvez quando pensamos no riso satírico. O riso satírico é o riso que Bakhtin coloca mais próximo do riso renascentista porque seria um riso impregnado de seriedade, um riso negativo que vem de uma posição séria de onde a sátira é feita, mas o riso medieval traz não só características do riso feliz e do riso satírico, é um riso que vai além.

“O verdadeiro riso, ambivalente e universal, não nega a seriedade, mas a purifica e a completa. Purifica do dogmatismo, da unilateralidade, da estagnação, do fanatismo e do categorismo, dos elementos do medo ou do amedrontamento, do didatismo, da ingenuidade e das ilusões, da fixação nociva em um único plano e em uma única significação, do histerismo tolo. O riso não deixa a seriedade se congelar e se separar do todo inconcluso da existência. Ele recupera a integridade ambivalente.”

Bem enraizado no meu tempo, conforme fui lendo as definições de Bakhtin e como separa as características históricas do riso eu já saltei para as perguntas de praxe da nossa intelectualidade. A primeira preocupação que me veio era entender qual a função social desse riso medieval, como ele se encaixa na cultura popular da época de Rabelais e até que ponto molda essa estrutura social.

“Na Idade Média, as pessoas, com uma agudez especial, sentiam o riso justamente como uma vitória sobre o medo.

Ele era sentido não só como uma vitória sobre o medo místico (o medo divino) e sobre o medo diante das forças da natureza, mas, sobretudo, como uma vitória sobre o medo moral que acorrenta, oprime e enturva a consciência do ser humano: sobre o medo diante de tudo que é consagrado e proibido (maná e tabu), diante do poder divino e humano, diante dos mandamentos e proibições autoritários, diante da morte e das punições além-túmulo, diante do inferno e de tudo o que é mais terrível do que a terra. Ao vencer esse medo, o riso iluminava a consciência do ser humano e revelava para ele o mundo de uma nova maneira. É verdade que essa vitória foi apenas efêmera, festiva, e seguida por dias de medo e opressão, mas desses vislumbres festivos da consciência humana se formava outra verdade não oficial sobre o mundo e o ser humano, que preparou a nova autoconsciência renascentista.”

Então, nessa simplificação da posição do autor que tenho feito até aqui, vemos o riso como uma força ao mesmo tempo criadora e subversiva, ainda que contida dentro de manifestações estreitamente monitoradas pelas forças dominantes. Conforme fui lendo, me sobressaltou como o advento das redes sociais tal como se configuram hoje oferecem essa mesma praça pública preenchida pelo riso, a ironia e a sátira, mas sob uma vigilância algorítmica intensa de forma que até mesmo nosso riso, especialmente aquele riso digital, só pode ser um esgar pobre e triste, mesmo quando nossos memes miram alto, se é que um meme é capaz de tanto. A essa altura importa inquirir o mesmo que Bakhtin fez acerca do riso de seu próprio século.

“Aqui se manifesta com muita nitidez a relação de Febvre com as piadas de Rabelais: elas provocam apenas o riso on rit. Contudo, justamente esse on rit é que necessita de análise. Será que nós, pessoas do século XX, rimos do mesmo jeito que Rabelais e seus leitores contemporâneos riam?”

E nós, do século XXI, como rimos? Como é o riso entre dois amigos que não assistem mais programas humorísticos de televisão controlados por grandes emissoras, mas consomem conteúdo digital produzido por desconhecidos em redes controladas por gigantes da tecnologia? Para não dizerem que eu resumo nosso riso ao digital, a força do riso, ou melhor, sua felicidade, segue muito viva e muito intensa nos mesmos lugares de sempre, no carnaval, na mesa compartilhada, na festa, na sexualidade, mas voltarei nesses pontos em textos futuros, acompanhado de outros nomes. Por ora trago esse contraponto para apontar possibilidades daquilo que nosso escritor em destaque chamou de existência extraoficial do riso.

“Toda a riquíssima cultura popular do riso na Idade Média viveu e se desenvolveu fora da esfera oficial da ideologia e da literatura elevadas. Contudo, justamente graças a essa sua existência extraoficial, a cultura do riso se distinguiu pelo radicalismo excepcional, liberdade e lucidez impiedosa. A Idade Média, que proibiu o riso em todos os campos oficiais da vida e da ideologia, concedeu-lhe em compensação privilégios excepcionais de liberdade e impunidade fora desses campos: na praça, durante as festas, na literatura recreativa e festiva.

E o riso medieval soube usar esses privilégios de forma ampla e profunda.”

Aqui surge o problema central: nossa praça pública foi digitalizada e cooptada por conglomerados empresariais que oferecem privilégios excepcionais de impunidade. Racismo, homofobia e misoginia em redes sociais é rampante e com sinais claros de que as próprias empresas pretendem exercer cada vez menos controle desse tipo de conteúdo, enquanto não houver regulação firme. Talvez até em contrapartida criamos entre nós, eu que escrevo esse texto, você que é um ser humano e ainda é capaz de ler mais de 140 caracteres, nós que ainda perseguimos lucidez estamos tão preocupados em não errar e seguirmos nossos princípios de humanidade que em nossos piores momentos nos investimos até de um certo bom mocismo exagerado que nos torna autovigilantes e vigias impiedosos de nossos colegas. 

Em outras palavras, nos impregnamos de seriedade justamente porque levamos a sério a expectativa de remendar as injustiças históricas que sempre foram negligenciadas, mas essa seriedade intensa é também paralisante sem sua contrapartida risonha, mais leve, mais madura e feliz, é aqui que o riso contemporâneo se mostra uma versão pobre do que poderia ser, pois vai tão esvaziado e à mingua que é incapaz de equilibrar nossa seriedade. Ao não rirmos de nós mesmos e de nossa situação precarizada somos impedidos de “destruir a visão oficial da época e dos seus acontecimentos, olhá-los de uma nova maneira, elucidar a tragédia ou a comédia da época do ponto de vista de um coro popular e ridente da praça”.

“Já dissemos que Rabelais deu exemplos notáveis da propaganda com base popular e da praça, ou seja, um propagandismo que não tinha um pingo de oficialidade. Enquanto propagandista, Rabelais não se solidarizou em absoluto com nenhum dos grupos das classes dominantes (incluindo a burguesia), com nenhum dos pontos de vista, nem com nenhum dos eventos e acontecimentos da época. Entretanto, Rabelais soube compreender e avaliar muito bem o relativo caráter progressista de alguns fenômenos da época, inclusive de algumas medidas do poder real, ele saudou em seu romance. No entanto, essas avaliações e saudações nunca foram incondicionais e oficiais, pois a forma das imagens populares e da praça, permeadas pelo riso ambivalente, permitiu revelar ainda toda a limitação desse caráter progressista. O ponto de vista popular expresso no romance de Rabelais sempre revelou perspectivas mais amplas, que ultrapassavam os limites do progressismo limitado acessível aos movimentos da época.

A principal tarefa de Rabelais é destruir a visão oficial da época e dos seus acontecimentos, olhá-los de uma nova maneira, elucidar a tragédia ou a comédia da época do ponto de vista de um coro popular e ridente da praça.”

Não temos esse olhar penetrante e ao mesmo tempo risonho que permite, levando a sério e a cabo nossos projetos mais bem acabados, nos posicionarmos vez ou outra um passo atrás para rirmos com orgulho, verve, sátira e felicidade de nossas próprias limitações e potencialidades. É mesmo uma época que ainda ri, como não poderia deixar de fazer, até Aristóteles atrelava o riso exclusivamente ao ser humano. O riso medieval era um riso dos sofridos, um riso dos sujeitados; o riso que Rabelais conseguiu manter vivo em seus livros é um riso que quando se ria, na festa, no carnaval, no banquete, ao menos naquele momento, o riso era soberano, porque quem ria era o povo soberano em seus raros momentos de inversão. 

Quanto a nós, rimos sem soberania, nos vemos enfraquecidos, desapoderados e oprimidos, tal é o nível de sujeição e humilhação que tem sido imposto de cima, tanto via controle algorítmico e econômico quanto pelo sequestro cada vez mais intenso de nossas sensibilidades por sistemas de IA e vigilância. Os nossos ainda riem, mas riem macambúzios, exceto, talvez, nos extremos improdutivos, mas incontornavelmente felizes da vida humana como ao compartilhar um doce qualquer e uma xícara de café após o almoço em um domingo quente e preguiçoso.


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