Texaco, de Patrick Chamoiseau
Por Amanda Fievet Marques
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| Patrick Chamoiseau. Foto: Lea Didier |
Publicado em 1992 e laureado com o Prix Goncourt do mesmo ano, Texaco é o terceiro romance do escritor francês de origem martinicana, Patrick Chamoiseau. O romance traça um afresco da história da Martinica, por meio da narrativa fragmentária e não-linear das reminiscências de Marie-Sophie Laborieux, que começa a rememorar pela vida do seu avô, depois pela de seu pai, Esternome e, por último, pela sua.
A narrativa mnemônica de Marie-Sophie, que opera pela exposição intermitente das suas lembranças, trabalha pela tessitura das oralidades, as histórias que lhe contaram e que agora ela reconta, e que existem sob a História oficial: “(…) histórias das quais nenhum livro fala, e que para nos entender são as mais essenciais” (Chamoiseau, 1991, p. 49).¹
Seu avô, senhor Pol, havia sido um escravo envenenador — ofício que se praticava contra as colheitas e o gado do branco escravagista, o Béké, em língua crioula da Martinica —, que definhou e morreu na prisão, porque havia envenenado sete bois, nove mulas, três cavalos e porque o ouviram murmurar um canto que julgaram ser feitiçaria. Sua avó fora responsável por quarar as roupas da Casa-grande, e foi assim, à beira do rio, que o avô a conheceu e lhe infundiu o gosto pela vida, do qual nasceu Esternome. Ele veio a saber que o prisioneiro era seu pai no dia em que extirparam da cela seus despojos já fétidos e cobertos de fungos esbranquiçados.
Esternome viveu sua infância na Casa-grande, cumprindo diversos ofícios como caçador de moscas, manejador de leques, limpador de persianas, descascador de legumes, arrancador de ervas no jardim, depenador de aves, balançador de lençóis e batedor de colchões: “mas, de toda essa parafernália, apenas o ofício de descobridor das majestades da casa lhe suscitou algum interesse” (p. 60). Nota-se que as descrições cumulativas, como a lista de ofícios de Esternome, criam cadência e ressaltam a dimensão quase musical da narrativa. Posteriormente, ele se tornará carpinteiro, aprendendo o ofício com um carpinteiro branco chamado Théodorus.
Certo dia, o Béké no bosque, havia saído para caçar, e é atacado por um escravo fugitivo que o agarra pela garganta. Esternome, munido da espingarda do senhor matou o negro, que desmoronou, espantado e já morto. O Béké, apesar de sem nome e sem rosto na história que Esternome relata à filha, ela o imaginava com o “(…) lábio fino e o olhar atormentado dessas bestas que não sonham mais o mundo. (…) e se emocionam mais com uma cifra que com o mais belo poema” (p. 65-6). Após esse feito, o senhor alforriou Esternome, já que este lhe havia salvado a vida. Ele permaneceu ainda por um tempo morando na Casa-grande, levando a vida conforme sua vontade, caçando, pescando.
Quando ele soube dos despojos incendiados de seu próprio pai, decidiu-se a abandonar esses campos e obter a liberdade de sua velha mãe. Foi assim que ele viu seu Mentor — Mentô, em crioulo —, seu guia espiritual, a encarnação da Força: “Um Mentô nunca sofreu o chicote nem a prisão; na hora dos ferros e da barra se esqueciam deles; as invejas maldosas de quem quer que fosse nunca se exerciam contra eles” (p. 70). Esse velho negro conhecera seu pai, senhor Pol, e agora incitava Esternome à conquista urgente de tudo o que os békés não haviam tomado ainda: L’En-ville, Saint-Pierre e Fort-Royal.
Após um ciclone que atingiu a Casa-grande, Esternome fez uma série de trabalhos de carpintaria com Théodorus. Findos esses trabalhos, ele desceu até En-ville, em companhia de Théodorus e dois escravos, Zara e Jean-Raphaël (“An-Afarel”, conforme a pronúncia de Esternome). Numa emboscada armada por alguns escravos libertos, Zara foi assassinado, em seguida seu cadáver foi carregado até os arredores de En-ville. Observa-se que a tensão narrativa é amplificada pelo ritmo variável, alternando digressões detalhadas com cenas de ação concentradas.

Já em En-ville, Esternome fez o caixão de Zara, e conheceu Osélia, a viúva, que acabou por se tornar a primeira paixão de Esternome: “Na crista docedolorida dos prazeres, ele quis gritar gemer chorar respirar morrer. Sentia-se arrastado a naufrágios no passo de carga que têm as mulas sob a febre terçã” (p. 88). A narrativa alterna, assim, entre história coletiva e história individual. Enquanto Esternome descobre as dores e alegrias do amor, nesse período, dá-se também a descrição do campo de forças entre os negros, os libertos, os escravizados e os fugitivos — que ainda não haviam se unido unanimemente em prol da liberdade —, e suas diversas relações entre si e os senhores.
Depois da partida de Osélia num navio para as Américas, Esternome, que havia se abandonado à bebida, retomou as rédeas de sua existência. Voltou a trabalhar na carpintaria com An-Afarel após a morte de Théodorus, mantendo viva a mensagem do seu Mentor, que lhe mandara tomar e construir a cidade de En-ville: “Cidade alta. Cidade massiva. Cidade aportadora de uma memória da qual estavam excluídos” (p. 107).
Enquanto Esternome descobre um novo amor nos braços de Ninon, chega de navio um tal Husson que anuncia ter havido em 1848 uma revolução em barricadas que depôs a Monarquia de Julho e, com a criação da Segunda República Francesa, declarou implicitamente a liberdade dos escravos. Mas, apesar da festa, nada ainda era garantido e tudo estava por se confirmar: “Corriam por aqui para ver a Liberdade, voltavam por lá, ela estava aqui, não, ei-la lá embaixo” (p. 123). Após luta encarniçada contra os békés, o governador vindo de Fort-de-France mandou anunciar que a liberdade exigida estava, sem mais tardar, decretada: “Meu Esternome (…) ficou surpreso (…) ao vê-los lançados como uma água de dilúvio, em ondas de cutelos, em espumas de cóleras, imolando essa En-ville com uma exigência furiosa” (p. 108). A escravidão, ou lestravay, como se diz em crioulo martinicano, estava abolida. A história de Esternome nesse momento, no entanto, estava imbricada à de Ninon, com quem ele celebrava as “chuvas de seu sangue”: “(…) e eles permaneciam assim, fora do mundo, guardando sobre a História que passa o olho dos bois na savana” (p. 143). E, depois, muitas histórias mais são relembradas por Marie-Sophie.
À parte a disposição das diversas tramas e personagens, que garantem o caráter bem-andante do romance, observa-se um sem-número de procedimentos que fazem dele um empreendimento literário notável: o estilo híbrido que mescla o francês, o crioulo, a língua oral; a multiplicação dos pontos de vista, quando no capítulo inicial, por exemplo, o mesmo acontecimento é descrito por cinco personagens diferentes; o plurivocalismo, posto que é Marie-Sophie que narra, mas por meio do discurso indireto livre diversas vozes irrompem no texto, a de Esternome, a de Théodorus, a de Husson etc.; a alternância intradiegética do narrador, quando, por alguns momentos, outras personagens como Esternome assumem a narração; a interlocução direta com o leitor; os assíndetos, os neologismos, as frequentes e vigorosas enumerações que infundem a narrativa com as cores, modos, trajes, feições da Martinica e seus habitantes; os elementos metaliterários, quando o texto se refere à sua feitura; a metalepse autoral, em que Marie-Sophie se refere, dentro da narrativa, ao próprio Patrick Chamoiseau, o que provoca uma disrupção ficcional, já que o texto e o mundo fora do texto, instâncias que a priori não deveriam se imiscuir, entram em curto-circuito.
Assim, a alternância das vozes e, ocasionalmente, a dos narradores reforça a percepção de múltiplas consciências e perspectivas históricas. Nesse sentido, Marie-Sophie funciona como a mediadora entre memória individual e coletiva, consolidando o efeito de oralidade literária, já que a narrativa emula a contação de histórias e as lembranças transmitidas oralmente. Já a metalepse e a interlocução direta provocam uma consciência da ficção no leitor, isto é, fazem-no perceber simultaneamente a construção literária e os eventos históricos, o que gera uma tensão entre história e literatura. Ao mesmo tempo em que se percebe o peso dos fatos históricos, vê-se que eles passam pela memória de Marie-Sophie, carregando o ritmo e a força da tradição oral.
Notas
1 As traduções dos excertos de Texaco apresentadas neste texto são minhas a partir do original em francês (Gallimard, 1992). No Brasil, a tradução do romance de Patrick Chamoiseau feita por Rosa Freire d'Aguiar foi reeditada pela Pinard (imagem). Você pode adquirir o livro aqui.

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