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Sete poemas de Miguel Torga

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Por Pedro Belo Clara Miguel Torga. Foto: Eduardo Gageiro.     LIVRO DE HORAS ( O Outro Livro de Job , 1936)   Aqui, diante de mim, Eu, pecador, me confesso De ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau Que vão ao leme da nau Nesta deriva em que vou.   Me confesso Possesso De virtudes teologais, Que são três, E dos pecados mortais, Que são sete, Quando a terra não repete Que são mais.   Me confesso O dono das minhas horas. O das facadas cegas e raivosas, E o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo Andanças Do mesmo todo.   Me confesso de ser charco E luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco Que atira setas acima E abaixo da minha altura.   Me confesso de ser tudo Que possa nascer em mim. De ter raízes no chão Desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim.   Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído Do tal Céu que Deus governa; De ser um monstro saído Do buraco mais fundo da caverna.   Me confesso de ser ...

O Miguel do “Reino Maravilhoso”

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Por Maria Vaz Hoje escrevo-vos de Adolfo Correia da Rocha, mais conhecido pelo pseudónimo que lhe conferiu notoriedade: Miguel Torga. Nasceu a 12 de agosto de 1907, numa pequena aldeia portuguesa em que o número de habitantes não atinge a casa dos milhares, de nome ‘São Martinho de Anta’. Assim, podemos dizer que viveu toda a sua infância rodeado por uma natureza ímpar, em que os montes verdes contrastam com o tom do horizonte, quer pela sombra dos dias de sol ou pelo jogo de penumbras observáveis à luz do luar, na irregularidade em que se camuflam os vales e os declives que terminam nas margens generosas do rio Douro: um rio presenteado com as vinhas (plantadas como que se tratassem de adorno paisagístico das serras), numa região em que se produz um dos melhores vinhos do mundo (o conhecido ´vinho do Porto´), numa unicidade paisagística natural que lhe conferiu o devido reconhecimento pela UNESCO na qualidade de Património da Humanidade. Foi nessa infância de mãos dadas...

Contos da montanha, de Miguel Torga

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Por Pedro Belo Clara O livro que agora se abre diante do nosso olhar surgiu naquele que, por certo, terá sido um dos mais conturbados períodos da vida do profícuo autor que o criou. Ora, em finais de 1939, com base num conjunto de críticas de índole política por si proferidas, Miguel Torga é encarcerado por ordem da (repressiva) polícia então vigente. A sua estadia durou três meses, rendendo-lhe poemas de intensa melancolia sobre o caso.  Era o pleno auge do regime ditatorial português. Algum tempo depois, já em 1941, a obra que hoje discutimos é enfim publicada para, breves momentos depois, ser apreendida pela polícia política. A surpresa foi tal que o próprio Vitorino Nemésio, numa carta solidária dirigida a Torga, não conseguiu esconder o seu assombro por uma decisão de índole «tão estranha e arbitrária». Não custa, portanto, compreender porque Miguel Torga designou este trabalho de «livro atribulado». Na verdade, o mesmo (que inicialmente apenas ostentava a e...

Poesia completa, volumes I e II, de Miguel Torga

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Por Pedro Belo Clara A obra que hoje aqui apresento, ainda que divida em dois volumes, é uma competentíssima colectânea poética de um dos maiores vultos da literatura portuguesa do século XX. Iniciativa da editora D. Quixote, o projecto apresenta, de forma tão abrangente quanto possível, os principais trabalhos poéticos de Adolfo Correia da Rocha, um médico que no mundo das letras se notabilizou sob a epígrafe de Miguel Torga e que, durante largos anos, foi o editor de seus próprios livros. Além disso, e eis o seu maior motivo de louvor e, consequentemente, de interesse literário, ambos os volumes conseguem fielmente apresentar a todo o curioso leitor as principais temáticas da poesia de Torga, tornando-o assim num excelente instrumento de introdução ao estudo deste autor. Entender Torga é igualmente entender os dramas e as alegrias do homem que viveu, amou e sofreu – entre angústias e paixões, receios e certezas. De uma complexidade simplista, passe a possível contradiç...

Miguel Torga

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Já no texto de orelha da edição brasileira de 1996 de Contos da montanha , de Miguel Torga, Jorge Amado lamenta: “Miguel Torga faleceu sem ter recebido o prêmio Nobel, injustiça sem tamanho. Ninguém mereceu mais do que o grande escritor português, o poeta, o contista, o memorialista. Entre os que trabalharam a língua portuguesa, na criação da poesia e da narrativa, o nome de Torga se destaca pela escrita invulgar e pelo conteúdo de uma literatura feita de humanismo.” São palavras suficientes de um nome entre mais importantes da nossa literatura – o escritor brasileiro também não ter recebido prêmio maior, muitos concordam, também é uma injustiça. Esta aproximação com o escritor português tem uma justificativa primeira pela data de hoje: em 16 de janeiro de 1995, Torga morreu, depois de uma extensa vida dedicada, pode-se dizer, integralmente à literatura, ainda que em tempos outros, mas no princípio da juventude, nos anos 20, tenha estado morando cá no Brasil, emigrado na fa...