Boletim Letras 360º #622

Osman Lins. Arquivo O Globo.


LANÇAMENTOS
 
A terceira edição de Guerra sem testemunhas, de Osman Lins.
 
O livro de ensaios de Osman Lins não dispensa os recursos da ficção. Publicado originalmente em 1969, o consagrado autor de Avalovara, e de outras obras conhecidas do grande público, como Lisbela e o prisioneiro, elege como tema os instrumentos fundamentais de sua ação no mundo: a escrita e o livro. Osman Lins reflete de forma original e sem mistificação sobre o ofício do escritor, indo do trabalho criativo até o mercado editorial, a circulação das obras, a crítica e sociedade, em uma visão ampla e, ainda hoje, provocativa. Com organização e notas de Fábio Andrade, a nova edição é publicada pelas editoras UFPE e Cepe. Você pode comprar o livro aqui.
 
O novo livro de Evandro Affonso Ferreira.
 
O jovem Diadorino, personagem central desta narrativa, está encolhido embaixo da mesa, apavorado. Nascido na brutalidade sertaneja, sofre com as surras constantes aplicadas pelo coronel que o criou, enfurecido pela delicadeza de seus traços, que lembram os da mãe, e, portanto, os de uma mulher. A narradora da história é a única pessoa que compreende o drama de Diadorino. Ela sabe de seu principal desejo: a transição para o gênero feminino. De várias formas, a voz que narra o incentiva a sair do esconderijo e seguir sua vontade. Em primeiro lugar, promete-lhe a proteção e a segurança geradas pela própria conversa que estão tendo — e que é o livro em si: “vem, entra logo aqui nas protetoras páginas deste livro abrigo [...] vem, jagunço nenhum entra aqui.” Ela também recorre a histórias feitas sob medida para tirar Diadorino da paralisia. Nesses casos, toda uma galeria de personagens do universo ficcional de João Guimarães Rosa é mobilizada para forçá-lo a se mexer, indo muito além da simples coincidência de seu nome com o da personagem de Grande sertão: veredas. Por fim, a mulher narradora enaltece outras mulheres, grandes feministas e libertárias de todos os tempos: artistas, ativistas e pensadoras — como Billie Holiday, Angela Davis, entre muitas outras. Dentre elas, há um quinteto que se destaca: Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Edith Stein e Anna Akhmátova. Para virar um sexteto, falta Diadorina. A narradora instiga o rapaz a fazer a transição: “vem completar esse novo sexteto feminino e feminista e socialista e espiritualista [...].” E talvez o jazz seja mesmo um bom atalho para se entender o estilo único de Evandro Affonso Ferreira, sua dicção tão particular e a importância que dá à sonoridade do fraseado. Suas palavras formam um improviso altamente técnico, com temas e variações se sucedendo, e as notas, ou sílabas, se encadeando, ecoando umas nas outras. Vez em quando, Billie Holiday é, portanto, como um solo de saxofone: belo, imprevisível e cheio de invenção. Publicação da editora Record. Você pode comprar o livro aqui.

Livro reúne textos que perpassam toda a trajetória de Lord Byron com a escrita, apontando respostas ao motivo que fizeram do escritor um expoente do romantismo. 

Lord Byron (1788-1824) foi um ícone do Romantismo inglês e trilhou uma trajetória poética rica e diversificada, marcada por uma profunda exploração das emoções humanas e da condição existencial. Em Poemas, cartas, diários & c, com organização, tradução e introdução de André Vallias, os textos perpassam seis fases distintas da vida do poeta, mostrando com que evoluiu sua escrita, moldada por experiências e eventos que marcaram sua vida. Na infância e juventude (1798-1809) seus primeiros versos foram influenciados pelos clássicos e pelos poetas românticos de sua época, revelando um jovem melancólico e introspectivo, explorando temas como amor, perda e a beleza da natureza. Mais adiante (1809-1811), Byron alcançou fama internacional. Os poemas desta fase refletem suas viagens pela Europa, explorando temas como a solidão, o tédio e a busca por sentido na vida. Já consolidado como um dos poetas mais populares da Inglaterra, entre 1811-1816, seus versos tornaram-se mais sombrios e satíricos, abordando temas como política, sociedade e hipocrisia. Após ser exilado (1816-1819), o inglês encontrou refúgio na escrita, refletindo sua solidão e isolamento, explorando temas como a natureza, a morte e o amor. Nos últimos anos de vida (1819-1823), se torna uma verdadeira celebridade literária. Seus escritos geraram termos como “byromania” e “byronismo”, atestando sua imensa popularidade na cultura da época, que teima em não desaparecer. A obra de Byron é um reflexo de sua vida intensa e turbulenta. Seus poemas, marcados por uma grande variedade de temas e estilos, o consagraram como um dos maiores poetas do Romantismo, deixando um legado que continua a inspirar e fascinar leitores até os dias de hoje. Publicação da editora Perspectiva. Você pode comprar o livro aqui.

O delicado elo entre passado e futuro é o fio condutor dos seis textos desta coletânea inédita de Vinícius Neves Mariano.
 
Em A pele em flor, Vinícius Neves Mariano conduz seus personagens por trajetórias das quais eles emergem com uma nova consciência, prontos para florescer em direção a um novo futuro. No conto de abertura do volume, Vinícius ― o narrador que se confunde com o escritor ― testemunha no café de uma livraria uma funcionária negra ser humilhada porque errou o pedido.  Perplexo, ele ouve o amigo Henrique, que também presencia a cena, explicar o ocorrido como sintoma de uma doença: o “mal do senhor”. Vinícius decide, então, investigar essa grave mazela que, assim como a narrativa do conto, entrelaça realidade e fabulação. Publicação da Alfaguara Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
 
Baseado em uma história real e Best-seller na França, este livro de Philippe Collin é o grande romance sobre a Ocupação alemã.
 
Paris, 1940. Apesar da Ocupação nazista, o ilustre hotel Ritz consegue permanecer aberto. O bar do hotel logo passa a ser frequentado pela alta patente militar alemã, que busca experimentar ali o famoso refinamento francês. Frank Meier, o barman mais célebre do Ritz, precisa então se adaptar à nova clientela e manter em segredo algo que ninguém jamais pode descobrir: ele é judeu. Frank se sente mais sufocado a cada palavra e sorriso que oferece. Ainda assim, o barman de origem austríaca, que lutou pela França na Primeira Guerra, se recusa a fugir. Frank ouve e age discretamente, fornecendo documentos falsos a outros judeus e contribuindo — inclusive de forma involuntária — para atividades conspiratórias. Afinal, quem desconfiaria de um barman? Traições, mentiras e incertezas tornam a posição de Frank mais arriscada, mas ele está sempre um passo à frente do destino. Com uma narrativa fascinante, O barman do Ritz de Paris traz uma perspectiva inusitada da Ocupação nazista na França, expondo os privilégios da alta sociedade francesa, além de nos colocar o dilema de Frank Meier: qual seria a dose perfeita entre a resignação, que o mantém vivo, e a coragem, que lhe dá motivo para viver? O livro é publicado pela editora Record; a tradução é de Ivone Benedetti. Você pode comprar o livro aqui.
 
Editora inicia a publicação de A ilusão do mundo, a trilogia em que Jakob Wassermann atualiza para o seu tempo o tema da vida de São Francisco de Assis.
 
Rico e atraente, o jovem Christian Wahnschaffe vive no tédio do ócio e do hedonismo, acostumado a ter tudo o que quer. Sua vida, porém, está prestes a mudar radicalmente após a proposta do bon vivant Bernhard von Crammon: uma viagem pela exuberante Europa da belle époque. Seu guia o apresenta à dançarina Eva Sorel, grande estrela em ascensão, e talvez a única mulher inalcançável em toda sua vida. O despretensioso jogo de sedução torna-se cada vez mais exigente e culmina no despertar de uma alma para a realidade da miséria humana sobre a terra. Neste primeiro volume de “A ilusão do mundo”, o talento e imaginação de Jakob Wassermann constroem uma galeria de personagens típicos da época: grandes empresários, aristocratas decadentes, dançarinas de costumes fáceis; retrato de toda a artificialidade da pompa europeia do começo do século XX. Primeiro romance a projetar o nome do autor internacionalmente, Wassermann atualiza para seu tempo o tema da vida de São Francisco de Assis, ao retratar a jornada de um jovem idealista que abandona a riqueza ao descobrir a pobreza e o sofrimento. Eva sai pela editora Sétimo Selo; tradução de Wagner Schadeck. Você pode comprar o livro aqui.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição da Antologia poética, de Marly de Oliveira, organizada por João Cabral de Melo Neto.
 
Lançado originalmente em 1998, Antologia poética é o décimo oitavo livro de Marly de Oliveira, uma das grandes poetas do século XX, premiada com importantes prêmios literários nacionais e internacionais. Descrita por Clarice Lispector como “um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia”, Marly estreou na literatura aos 23 anos com o livro Cerco da primavera (1957), conquistando rapidamente a atenção da crítica. Organizada pelo poeta João Cabral de Melo Neto, com quem se casou na década de 1980, esta antologia reúne quinze livros da autora, publicados entre 1957 e 1990, além de incluir poemas inéditos. Entre as obras de destaque, estão o referido Cerco da primavera (1957), que lhe garantiu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens (INL); Explicação de Narciso (1960); A suave pantera (1962), vencedor do Prêmio Olavo Bilac (ABL); Invocação de Orpheu (1979-1980), que conquistou os prêmios Fundação Cultural do Distrito Federal e Internacional da Grécia; Retrato (1986), Vertigem (1986) e Viagem a Portugal (1986), que receberam o prêmio UBE (União Brasileira de Escritores); e O banquete (1988), laureado com o Prêmio Pen Clube do Brasil. As obras presentes nesta Antologia poética são marcadas pela objetivação e materialidade da linguagem, características intrínsecas à poesia de Marly de Oliveira. Como afirmou João Cabral de Melo Neto no prefácio deste livro, a escritora é capaz de “construir, tanto o poema longo como o poema curto, sempre mantendo alto nível intelectual” e sua preferência pela palavra concreta e pela imagem para descrever o cotidiano e seus próprios sentimentos impressionou o poeta, que considerou seus livros como “um exemplo único de coerência, com a paixão da língua portuguesa”. Em Antologia poética, o leitor encontrará também uma escritora que usou a poesia como ato de resistência à crueldade do mundo e como forma de exercitar o autoconhecimento. Como bem disse Marly, “minha grande esperança está na convicção do que o pensamento também pode ser uma forma de ação”. Por meio deste grande lançamento, a editora Record recoloca Marly de Oliveira no radar dos amantes de poesia e ao merecido lugar de destaque na literatura brasileira. Você pode comprar o livro aqui.
 
Ao narrar os vários encontros de seu protagonista com a morte, Heloisa Seixas constrói uma história inesquecível de companheirismo e de devoção à literatura.
 
Esta é a história de um homem que encarou a morte e venceu — sete vezes —, uma epopeia inacreditável que inclui drogas, alcoolismo e doenças gravíssimas. Intercalando ficção e realidade, em uma narrativa hipnótica que inclui beleza e horror, Heloisa Seixas mostra como seu marido, o escritor Ruy Castro, enfrentou todos esses trâmites — os “selos” que marcaram seu corpo — com a ajuda da beleza, do humor e, principalmente, da palavra, escrevendo para não morrer. Finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura e semifinalista do Oceanos, O oitavo selo é resultado da parceria de vida desses dois escritores brasileiros, começada há mais de trinta anos. Publicado pela extinta Cosac Naify e reeditado agora pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.


Esta é uma edição de recesso, por isso o Boletim Letras 360º é apresentado sem as seções complementares desta publicação.


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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.
 

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