O herói de mil faces: a digital de Aristóteles e Campbell no cinema

Por Pilar R. Laguna 




Poucas questões têm obcecado tanto escritores, roteiristas e dramaturgos quanto o que faz uma história funcionar. O volume de especulação que isso produziu é inegável, e escolas e cursos de escrita continuam a lucrar bastante. Existem inúmeros manuais e guias práticos que ensinam, passo a passo, os segredos da narrativa, tentando resolver algo essencialmente antropológico. Poderíamos negar que a arte de contar histórias acompanha a humanidade desde que recebemos esse designativo?

Das pinturas rupestres e canções folclóricas às cartas de amor e à invenção do cinema, é revelador parar e considerar o quanto do que nos rodeia constitui uma história, real ou imaginária. E, ainda mais, como somos capazes de atribuir uma história a coisas que não a possuem — como um encontro entre dois estranhos na rua, um objeto perdido ou uma frase tirada de contexto.

As histórias são uma ferramenta essencial para a construção da identidade e, portanto, tanto indivíduos quanto grupos sociais as contam há séculos, repetidamente. Histórias antigas e novas, verossímeis e inverossímeis, têm sido um meio de compreender a realidade, o nosso passado e o nosso futuro.

Mas, para além das histórias pessoais, se pararmos para observar as narrativas mais universais — das tragédias clássicas, mitos e lendas aos filmes de maior sucesso —, percebemos que, aparentemente, elas partilham uma estrutura básica. Por quê? Se o objetivo das histórias — especialmente numa esfera comercial como o cinema — é provocar emoção, é evidente que precisam de se apoiar num aspecto profundamente psicológico da narrativa. Algo que se conecte diretamente com quem somos, com os nossos sonhos, medos e conflitos arquetípicos. Dito desta forma, é possível que as histórias que vemos nos filmes se repitam vezes sem conta não por falta de originalidade, mas porque precisam de ser repetidas para satisfazer a lógica interna que os nossos cérebros parecem exigir.

A este respeito, dois autores tiveram um enorme impacto na escrita de roteiros ao conectarem esta arte às referências das narrativas clássicas, e cujo trabalho se inspira em duas genealogias muito diferentes. Por um lado, temos Aristóteles, que contribuiu com uma gramática clássica, racional e dramática, enquanto de Joseph Campbell recebemos uma gramática mítica, simbólica e antropológica.

A Poética de Aristóteles é uma coletânea de escritos na qual o filósofo dissecou os elementos essenciais de uma tragédia bem-sucedida, oferecendo uma série de noções a serem consideradas, como alguém que enumera os ingredientes que uma receita deve ter para ser saborosa. Hoje, as ideias que ele apresentou nesses textos podem parecer mais ou menos básicas, mas sem dúvida tiveram um enorme impacto para a compreensão da narrativa. É provavelmente a obra mais relevante em termos de estabelecer as bases para a escrita de roteiros, sendo a base teórica mais antiga, duradoura e universal sobre o funcionamento das histórias dramáticas.

Ele introduziu ideias essenciais sobre a criação desse tipo de obra, como a mimese. Para Aristóteles, a tendência humana natural à imitação era evidente, e isso se traduzia na necessidade de as tragédias imitarem a vida. Ou seja, mesmo sendo ficções, elas devem parecer reais. Da mesma forma, a ideia de conflito referia-se à necessidade de um choque de forças dentro da trama para impulsionar a ação dramática.

Além disso, ele especificou que as convicções e ações do personagem devem estar alinhadas e que o protagonista deve passar por uma transformação — da felicidade para o infortúnio ou do infortúnio para a felicidade — para poder transmitir emoções poderosas. Para descrever essa transformação, Aristóteles introduziu os conceitos de peripécia (uma mudança repentina, um ponto de virada que altera o curso da trama; uma transição de um estado de felicidade para um de infortúnio ou vice-versa) e anagnórise (uma transição da ignorância para o conhecimento: uma descoberta que o personagem faz sobre si mesmo, seus entes queridos ou seu entorno).

O protagonista deve ter um objetivo bem definido. Embora na vida real busquemos vários objetivos simultaneamente, na ficção deve haver apenas um, seja vingança, uma necessidade ou um romance, para citar alguns exemplos. Outra de suas contribuições mais relevantes seria a introdução da ideia de catarse: a liberação de emoções no público por meio da representação dos infortúnios do herói. É o resultado da transformação do personagem, que nunca mais será o mesmo.

Contudo, a principal contribuição de Aristóteles nessa área provavelmente foi sua definição da estrutura narrativa básica, composta por exposição, desenvolvimento e resolução. Ela dispensa maiores explicações, pois é universalmente conhecida — aí reside o poder de sua influência.
 
Existem, no entanto, inúmeros exemplos em que o roteiro brinca com o tempo, com ação in medias res (Forrest Gump), narrativa reversa (Amnésia), ou narrativa circular (Garota exemplar), mas em todos eles a estrutura básica ainda é respeitada: conhecemos os personagens e o contexto, a trama se desenvolve até um ponto de tensão máxima e o conflito é resolvido. Seria então discutível afirmar se uma ampla variedade de estruturas narrativas realmente existe ou se todas são, essencialmente, adaptações do que foi definido por Aristóteles.

A clara exceção seria a anti-trama descrita por Robert McKee, referindo-se a histórias que rompem com a linearidade cronológica e a causalidade estrita, e que são organizadas por meio de fragmentos, acaso e descontinuidade. Mas mesmo essa estrutura é definida em diálogo e em contraste com a proposta aristotélica.

Contudo, embora a Poética de Aristóteles tenha servido para descrever como uma história é construída, ela carece da explicação de por que encontramos conforto em ver repetidas vezes a mesma história. Por que o conflito e a transformação se conectam tão diretamente com nossa psique? Bem, essa parte é um mito, e Joseph Campbell foi quem melhor nos ajudou a compreendê-lo.

Após estudar extensivamente os mitos e lendas de inúmeras culturas separadas por milênios e continentes, Campbell descobriu uma sequência recorrente, como um esqueleto invisível. Assim, ele conseguiu estabelecer um sistema no qual a maioria dessas histórias primordiais se organiza: o monomito, ou a jornada do herói. Sua teoria é detalhada em sua obra O herói de mil faces, que afirma que essa estrutura é composta, em linhas gerais, pelo chamado à aventura, pela partida do mundo conhecido, por provações que ameaçam destruir ou transformar o herói e por um retorno — muitas vezes impossível — ao local de origem com um dom ou conhecimento que pode transformar o mundo.

De Gilgamesh a Luke Skywalker, toda aventura começa com um chamado que o herói não pediu, mas não pode ignorar, um chamado que se conecta a uma jornada transformadora ou de renascimento. Para Aristóteles, esses eram os peripécias e a catarse; para Campbell, trata-se de uma descida e transformação espiritual. A estrutura clássica de exposição, ação crescente e resolução encaixa-se quase perfeitamente com as três fases do monomito: partida, iniciação e retorno. Contudo, a correlação não é um paralelo, pois Campbell não se referia à essência da escrita, mas à nossa essência como humanos.

Em sua tese, Campbell revisitou a ideia de Jung de que mitos, lendas e contos populares refletem os mesmos arquétipos que emergem no inconsciente coletivo, uma dimensão psíquica comum a toda a humanidade, onde imagens e motivos universais são preservados. O herói arquetípico retorna transformado, e essa transformação, narrada nas histórias de tantas culturas e por tantos milênios, nada mais é do que um reflexo do processo que Jung chamou de individuação: o encontro com a sombra e a integração do reprimido para conquistar a própria essência. A jornada psicológica rumo à plenitude do ser.

Assim, Campbell introduziu uma estrutura narrativa ligada à nossa psique e à nossa identidade cultural através de diversas civilizações. Essas não são histórias abstratas ou invenções, mas sim guias que visam fornecer conhecimento e ferramentas para superar as dificuldades que cada um de nós encontra na vida. De fato, em O herói de mil faces, o autor discute como o caminho de provações em qualquer mito pode ser equiparado aos ritos de iniciação de algumas tribos, nos quais, com a ajuda das mães, do homem-serpente ou do xamã, o indivíduo retorna transformado.

Essa ideia não passou despercebida por Christopher Vogler, que, usando a jornada do herói de Campbell como referência, escreveu seu livro A jornada do escritor, uma adaptação do monomito para escritores, roteiristas, dramaturgos e romancistas. O autor experimentou um verdadeiro despertar ao descobrir a obra de Campbell, pois finalmente pôde confirmar algo que já suspeitava: as histórias têm uma estrutura que se repete inúmeras vezes. Ele também entendeu por que filmes como Guerra nas estrelas ou Contatos imediatos do terceiro grau pareciam ter tanto poder emocional sobre o público. Na opinião dele, esses filmes conseguiam refletir as satisfações universais que Campbell havia capturado dos mitos.

Mais tarde, em seu trabalho como analista de roteiros para grandes estúdios de Hollywood, Vogler pôde usar a obra de Campbell para identificar rapidamente o que poderia acontecer de errado no desenvolvimento de certas histórias. A jornada do herói tornou-se um guia que lhe permitiu resolver todos os tipos de armadilhas narrativas e economizar tempo e dinheiro para os estúdios em sua busca pelo sucesso. Assim, conseguiu produzir um modelo no qual comparava a estrutura de vários filmes famosos com a jornada do herói. Seu Guia prático para o herói de mil faces tornou-se uma versão condensada da viagem clássica, reduzida a doze etapas que podiam ser aplicadas a aventuras épicas, comédias românticas ou séries de televisão.

A obra de Vogler tornou-se, posteriormente, uma espécie de bíblia para inúmeros cineastas, espalhando-se como rastilho de pólvora em Hollywood, onde o poder do mito já havia conquistado diretores como George Lucas, John Boorman, Steven Spielberg, Coppola e George Miller. Naturalmente, o autor não escapou das críticas, com alguns rotulando como preguiçosos todos os roteiristas ou escritores que usavam seu Guia prático para elaborar suas histórias, como se fosse uma fórmula de sucesso que pudesse ser repetida indefinidamente, deixando pouco espaço para a criatividade e a inovação.

Contudo, em termos gerais, o livro provou ser um sucesso absoluto, não apenas para roteiristas de Hollywood, mas também para escritores do mundo todo. Seu extenso estudo comparativo de filmes populares e da estrutura do monomito tornou a obra de Campbell leitura essencial para cinéfilos e para aqueles que desejam aprofundar-se em seu trabalho a partir de uma perspectiva mais acessível e popular.

Segundo Vogler, a jornada não deve se limitar a uma aventura literal, na qual o herói deixa seu lar e enfrenta inimigos mágicos, mas pode dar origem a histórias muito mais simples e até mesmo tomar forma em cenários mentais, mais próximos do âmbito psicológico. Isso ajudou a fundamentar a teoria de Campbell na arte da escrita moderna.

O interessante é que, mais do que uma fórmula, trata-se de uma geologia emocional. Oculto na busca do herói está aquilo que ele mais teme. Essa busca, essa caverna na qual o protagonista adentra, é a alma de toda aventura e contém a lição. Em Aristóteles, seria a peripécia que quebra a fortuna e a anagnórise que a ilumina; em Campbell, é uma provação, uma morte simbólica e um renascimento.

O sucesso é praticamente garantido para roteiristas que conseguem combinar os ensinamentos de Aristóteles e Campbell: os aspectos lógicos e estilísticos com os psicológicos e antropológicos. Basta observar algumas narrativas populares para constatar isso.

Star Wars talvez seja o exemplo mais claro: um camponês comum que ignora o seu poder recebe um pedido de socorro. Um mentor revela a verdade sobre si mesmo, ele cruza o limiar para um mundo desconhecido e enfrenta o teste que o destrói, transformando-o naquilo que ele já era em potencial. Aristóteles reconheceria nisso a clareza do arco dramático; Campbell, a realização da jornada arquetípica.

De forma semelhante, a jornada do herói se repete em Matrix, mas de uma maneira mais filosófica. Embora Neo atenda ao chamado de Morpheus, ele não consegue acreditar. Ele precisa aceitar que a realidade é uma ilusão e que ele é o escolhido, aquele que deve salvar a humanidade. A jornada culmina em uma ressurreição literal, que nada mais é do que a confirmação de sua nova identidade — porque o escolhido não pode morrer. Drama e mito se sobrepõem: o clímax funciona porque a lógica aristotélica guia o conflito e ressoa na jornada espiritual do protagonista.

O Senhor dos Anéis oferece uma variação ainda mais interessante: não há um único herói, mas sim um círculo coral de figuras arquetípicas. Frodo, Sam, Aragorn, Gandalf e Gollum personificam um fragmento da narrativa universal. Aqui, a estrutura campbelliana é multiplicada, mas a espinha dorsal permanece reconhecível. Há partida, provação e retorno para cada personagem. O Anel é a sombra, e a noite de Mordor cumpre uma função catártica: aventura e queda simultaneamente. O retorno tem um preço alto, e o presente que Frodo recebe é uma ferida profunda.

Por sua vez, Interestelar explora a estrutura sob outra perspectiva: a aventura não é um desejo, mas um sacrifício. Cooper não quer partir, mas precisa fazê-lo para proteger seu mundo. O retorno ocorre fora do tempo, quando ele já não pertence ao lugar que deixou. O herói retorna quando o mundo mudou tanto quanto ele, e a história é agridoce, porque seu elixir é a aprendizagem.

Os exemplos poderiam continuar: Harry Potter, Gladiador, Rocky ou até mesmo A viagem de Chihiro. Neste ponto, a questão relevante talvez não seja por que existem tantas histórias semelhantes, mas por que precisamos reconhecer essa fórmula nelas. O que significa para nós ver o herói cair e renascer? Talvez seja uma maneira de nos conectarmos com nossa própria história: todos começamos em algum lugar, enfrentamos inúmeras provações e conquistamos vitórias e lições que nos transformam para sempre. Campbell não descobriu um modelo literário: ele mapeou a paisagem emocional do ser humano.

O cinema — mais do que qualquer outra forma narrativa contemporânea — nos faz percorrer a nossa própria jornada de herói: em apenas algumas horas, ele nos tira do nosso mundo cotidiano, nos confronta com provações emocionais e terminamos a experiência transformados. Sabendo algo que não sabíamos antes. Quebrados, mas vivos. Aristóteles decretou que deve haver estrutura para produzir emoção, e Campbell reconheceu a alma que deve habitá-la. Organização sem significado ou significado sem forma são proposições incompletas.

A jornada do herói nos ensina que o retorno é sempre diferente da partida, para descobrirmos, através das histórias de outros — seja em mitos e lendas ou no cinema contemporâneo — as ferramentas que servirão de farol para nos guiar na escuridão de nossa própria caverna.


______
Poética
Aristóteles
Paulo Pinheiro (Trad.)
Editora 34, 2015
232 p.

O herói de mil faces
Joseph Campbell
Heraclito Aragão Pinheiro; Camilo Francisco Ghorayeb (Trads)
Editora Palas Athena, 2024
448p. 

A jornada do escritor
Christopher Vogler
Petê Rissatti; Isadora Prospero (Trads.)
Editora Seiva, 2024
520p. 



Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

António Lobo Antunes

Os cus de Judas, de António Lobo Antunes

Memória de elefante, de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé

Herscht 07769, de László Krasznahorkai

Boletim Letras 360º #681