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Um panorama da poesia brasileira pelas lentes de Rubem Braga

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Por Pedro Fernandes Rubem Braga viveu um dos períodos mais férteis e únicos da literatura brasileira; basta dizer que no seu tempo estavam em plena forma Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Mário Quintana, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima, entre outros nomes. Não é possível que, no meio de toda essa efervescência criativa até o pior dos poetas não se sentisse inclinado a cair no ofício do verso. E assim, nessa tentação pelo trabalho do poeta, terão caído o próprio cronista ou gente como Guimarães Rosa e Pedro Nava – também de seu tempo; o primeiro e o último por cometer vez ou outra um poema não um todo ruins e logo passíveis de pertencer a uma alcunha forjada por Manuel Bandeira, na sua já conhecida Apresentação da poesia brasileira , a do poeta bissexto. Agora, se esses nomes chegaram até nós, deve-se não somente ao caso da singularidade de sua obra mas porque tiveram leitores, essa espécie tão rara nos dias atu...

As Teixeiras e o futebol

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Por Rubem Braga Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna. ...

Clarice Lispector: entrevistas ― Rubem Braga

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Este é um daqueles livros que a gente sempre carrega entre nossos pequenos passatempos, Clarice Lispector: entrevistas . Publicado em 2007 pela Editora Rocco, nele sempre encontramos boas conversas, daquelas que a vontade tem logo vontade de dividir com os amigos sobre o que lemos. Uma delas, com direito a uma pequena confissão da própria entrevistadora, sempre alheia a esse tipo de atitude, é a desenvolvida com Rubem Braga, o homem que deu outro destino para a crônica, ampliando as dimensões da forma para o literário. Eis:   Até parece que reconheço Rubem desde sempre. Gostei dele à primeira vista. Sei coisas a seu respeito. Por exemplo, bondades que faz discretamente sem pedir nada em troca. Por exemplo, ele é pessoa que perdoa muito e entende tudo e não se faz de juiz de ninguém. Ele é corajoso. Simples. Delicado. Ele tem qualquer coisa de rural em si. E foge a tudo o que seja “sentimentalismo” falso. Mas há mil “rubens” dentro de Rubem Braga, é claro, assim como há mil ‘...

Um ano para Rubem Braga

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Rubem Braga num dos bancos do jardim do apartamento de Ipanema, onde morou de 1963 até sua morte em 1990. Foto de Luiz Pinto. Jornal O Globo. Apesar de alguém já ter observado que a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) de 2013 esqueceu o centenário de Rubem Braga em detrimento dos 120 anos de Graciliano Ramos, isso porque é o evento mais conceituado como um espaço para se pensar e discutir literatura no Brasil, o cronista, que também não tem sorte (dirão outros por fazer aniversário já no princípio do ano, dia 12) tem seu lugar seu de homenagens muito bem reservado. Mesmo que concordemos em parte com a visão de Lygia Fagundes Telles (Lygia este ano fecha seus 90 anos de idade e disse que não tem nada para comemorar) tais iniciativas, tirando todo o seu mercantilismo capital, tem uma função que julgamos de importância: o simples fato de retorno à obra do autor, seja pela mídia, seja pelos estudiosos, seja pelo próprio leitor, ou mesmo de apresentação do seu nome junt...

De Vinicius de Moraes para Rubem Braga

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Por Pedro Fernandes Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Chico Buarque. Um dos amigos que esteve mais próximo de Rubem Braga foi Vinicius de Moraes. Essa proximidade parece marcada por outras forças, além do encontro que estabeleceu a amizade entre os dois. O poeta também fecha seu primeiro centenário neste ano. Ele nasceu em 19 de outubro de 1913 e o cronista nasceu sete dias antes no mesmo ano. Separados por sete dias e pela geografia: Vinicius é do Rio de Janeiro e Braga, de Cachoeiro do Itapemirim.   O convívio no âmbito das letras foi da honrosa troca de escritos. É Rubem Braga, por exemplo, quem escreveu o texto para a orelha da primeira edição da Antologia poética  de Vinicius publicada em 1954, ou a crônica "Recado de primavera". E, sai da pena do poetinha dois textos conhecidos: "Mensagem a Rubem Braga" e "Soneto no sessentenário de Rubem Braga". Pela ocasião das celebrações dos 100 anos de Rubem Braga, selecionei estas e ma...

Rubem Braga

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Rubem Braga, Paris (1973). Foto: Alécio de Andrade / IMS Considerada gênero menor na literatura, porque nesse território, que desde sempre se seguiu o modelo clássico que considera a épica, o drama e a lírica como gêneros maiores, no Brasil, terá sido um dos poucos países em que a crônica se tornou um dos modelos textuais mais profícuos na cena literária. Também um dos mais praticados e lidos. Datada ainda do período fundador da nossa literatura – a própria carta de Pero Vaz de Caminha dando contas do território recém-descoberto à Coroa Portuguesa é um dos marcos do gênero – a crônica tem tal aceitação por aqui por duas razões: a primeira, pode está atrelada à polêmica publicada recentemente na Folha de São Paulo das razoes pelas quais no Brasil se lê mais ‘não-ficção’, biografias e livros de autoajuda, por exemplo. Uma das razoes apresentadas na computação dos dados que apontam determinados livros ocuparem um ranking cuja boa literatura passa longe é de que os romanc...