Razão e ceticismo em The Mentalist

Por Michel Goulart da Silva




Em 2008, no mês de setembro, o charmoso personagem Patrick Jane estreava sua série The Mentalist na televisão estadunidense. Nos primeiros episódios, mesmo sem saber naquele momento, os espectadores que assistiam à série foram apresentados ao perigoso serial killer Red John. O vilão, cuja identidade foi revelada apenas muitas temporadas depois, havia assassinado com crueldade a esposa e a filha pequena de Jane, que se dizia um vidente, à época ajudando a polícia em sua caçada por Red John. Em meio a uma pilha da cadáveres que foram se acumulando durante os muitos anos de atividade do perigoso assassino, Jane, deixando de lado o personagem do vidente que havia criado para ganhar dinheiro, passou a viver em função de perseguir seu grande oponente. Contudo, embora centrasse sua narrativa no embate entre Jane e Red John, a série sempre conseguiu levantar questões filosóficas de grande relevância tanto para seus personagens como para os espectadores.

Logo na primeira temporada pudemos ver Jane diante do dilema sobre o que faria quando encontrasse seu grande inimigo, ou seja, se o mataria ou se o levaria à prisão. Para Jane, como expressou para sua leal parceira Teresa Lisbon, fazer justiça diante de um assassino como Red John não significava necessariamente levá-lo a um julgamento por dentro do sistema judiciário. Essa afirmação de Jane se torna cada vez mais forte com o passar das temporadas, quando se vai descobrindo que Red John possuía cúmplices infiltrados em várias instituições e até mesmo em elevados cargos do governo. Ou seja, caso chegasse a ser capturado, é pouco provável que Red John fosse condenado e talvez nem sequer julgado. Na série, expressa-se uma clara simpatia pelo caminho trilhado por Jane até a derrota do seu oponente.

Essa ética bastante própria também se manifesta quando Jane matou uma pessoa que se dizia Red John. Descobre-se que esse personagem na verdade não era Red John, mas um sádico criminoso aliado do famoso serial killer. Jane, indo a julgamento, negou a necessidade de um advogado e fez sua própria defesa. Conseguiu não ser condenado depois de um longo discurso em que questionou os jurados sobre o que eles fariam se estivessem naquela situação. Jane os colocou diante da dúvida ética do que fazer se tivessem a chance de se vingar de um eventual assassino de seus familiares.

Um dos traços mais marcantes da personalidade de Jane foi o profundo ceticismo em relação a certezas, fossem racionais ou espirituais. Um dos momentos de embate em torno de crenças foi quando Jane se confrontou com uma suposta vidente, Kristina Frye. Os episódios em que se mostraram esse encontro não foram muito conclusivos sobre se Frye seria uma fraude ou se de fato possui algum tipo de poder sobrenatural. Contudo, os episódios deixaram uma mensagem bastante positiva sobre o papel das crenças como forma de fazer com que as pessoas incorporassem em seu cotidiano a coragem para enfrentar seus medos e até mesmo o luto.

Outro episódio, ainda na primeira temporada, que problematiza a crença e o ceticismo colocou em cena o assassinato de um cientista. Encarnado em um cientista que queria controlar os impulsos bons e maus das pessoas, por meio de um equipamento que, teste após teste, se mostrava falho, faz-se uma crítica duríssima ao conhecimento científico quando encarada como uma crença que cega as pessoas para a realidade. Naquela pesquisa não importavam mais os métodos ou mesmo os resultados obtidos, desde que fossem alcançados os objetivos inicialmente idealizados. 

Durante as sete temporadas em que convivemos com Jane, passamos pelas mais variadas emoções e, principalmente, nos apegamos aos personagens e suas próprias histórias. Não apenas de Lisbon e Jane, torcendo para um final feliz para esse possível casal, mas também Cho, Rigsby e até mesmo a pouco carismática Van Pelt. Esses personagens ajudaram Jane a construir sua própria trajetória, não apenas na perseguição ao seu grande oponente, mas também para encontrar tranquilidade e um rumo para sua própria vida. Certamente a série perdeu muito de seu brilho depois que Red John foi desmascarado, mas o restante dos episódios das duas últimas temporadas serviu para que pudéssemos vislumbrar uma possível vida que lentamente poderia construir Jane.


* Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).

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