Casas de cultura, praias e livros

Por Rafael Bonavina

Charles Burchfield, Deserted House, 1918



Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas. 

Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdidos nessa enxurrada de vídeos sufocantes que disputam incessantemente nossa atenção, e geralmente ganham, diga-se de passagem.

A questão, nos parece, está ligada à dificuldade do próprio ato criativo, fantasma que ronda a todos os que vivem para a pena, ou pior, os que vivem dela. Ferreira Gullar dizia que só podia escrever poesia quando sofria um espanto, uma espécie de súbita tomada de consciência existencial que o arrancava do embotamento cotidiano e o transportava para um estado de criação. Ora, e se não viesse o tal susto? A resposta do poeta maranhense era simples: sem susto não havia poesia. E, a nosso ver, não há como forçar a escrita de um poema, se ele não vier por seu bel prazer.

Essa reflexão, vista por outra perspectiva, só nos foi possível graças ao contato com o pensamento do autor de Dentro da noite veloz, ainda que isso tenha se dado de maneira intermediada, por meio das entrevistas do genial poeta. Ou seja, o escritor iniciante só pode começar a compreender os mistérios do ato criativo por meio do contato com a experiência de outros mais experientes, eles mesmos assombrados por esses mesmos enigmas. Isso não significa, claro, que haja uma resposta única para o processo criativo, como o mencionado espanto de Ferreira Gullar, pois existem tantas formas para esse processo quantos criadores existirem. Contudo, a compreensão e o contato com outras maneiras de produzir cria um ambiente propício para o desenvolvimento de uma percepção própria do ato criativo. 

Há muitos anos a Casa das Rosas tem sido um desses lugares em que se encontram diversos poetas, escritores, músicos, artistas, enfim, intelectuais de todo o tipo para divulgar e preservar a cultura, brasileira e internacional; um verdadeiro oásis em meio à árida “cultura” do descarte. Porém, esse lugar de celebração da paz e da civilidade não está livre de uma constante ameaça à sua existência, como vimos no aterrorizante recente caso do arquivo de Haroldo de Campos. As dezenas de manifestações públicas de repúdio à política do governo do estado de São Paulo parecem ter chegado a ouvidos moucos, se é que chegaram, pois não foram suficientes para barrar a remoção do material, motivada por razões até hoje pouco claras. 

Esse exemplo torna evidente a fragilidade da cultura em nossa sociedade, e vale ressaltar que estamos falando de um dos mais importantes centros culturais da maior cidade da América Latina. O que dizer das instituições em processo de consolidação, cuja permanência é ainda mais frágil? Por essa razão, todas as iniciativas que buscam honestamente a criação de espaços de convivência para os criadores, merecem nosso elogio pela bravura em continuar existindo nas atuais circunstâncias.

***

Com isso em mente, gostaríamos de chamar a atenção para um espaço que tivemos a feliz oportunidade de visitar recentemente, por ocasião de um lançamento de livro: a Casa das Culturas, sediada em um lindo casarão de Santos.¹ Antes de seguirmos adiante, no entanto, é importante deixar claro que essa instituição não se trata de um lugar ainda incipiente, mas, sim, de um elemento orgânico da vida cultural dessa cidade. Assim como a Casa das Rosas, o casarão santista já se tornou um importante ponto de encontro da intelectualidade, o que se dá, em grande medida, pela riqueza da programação cultural, organizada pelo curador da casa Flavio Viegas Amoreira — ele mesmo escritor, poeta, crítico literário e presença constante no dia a dia da instituição. 

Esse contato mais próximo com a Casa das Culturas se deu, como dissemos, por causa do lançamento de um livro, Os itálicos são meus, escrito pela importante intelectual russa Nina Berbérova e traduzido por Aurora Fornoni Bernardini, Moissei Mountian e Irineu Franco Perpétuo para a Editora Kalinka. Ficou evidente a experiência que Flavio Viegas tem com a organização de eventos desse tipo, pois ele nos acolheu de maneira muito receptiva e resolveu todas as questões com rapidez e eficiência. E, vale ressaltar, não foi o único livro lançado naquele dia, o que comprova a importância desse espaço para a cena cultural da cidade.

Foi nessa ocasião que tomei contato com a poeta Beatriz Duarte de Almeida de seus oitenta anos, que lançava suas Epifanias e utopias. Como descreve a contracapa de seu livro, a escritora está intrinsecamente ligada à literatura, graças à sua relação familiar com Sílvio de Almeida e Prisciliana Duarte de Almeida, ambos fundadores da Academia Paulista de Letras. E é possível notar essa herança literária pela naturalidade com que fluem os seus versos, cheios de imagens poéticas de memória, delicadeza e afetividade, por exemplo “A boneca cega”; além dos mais profundos em ceticismo e reflexão, como “Êxodus”. 

Outra empreitada de que tomei conhecimento nesse casarão foi Anna Costa: muito além de uma avenida, um interessante estudo de Fabiola Savioli e Alejandro Nascimento. O livro nasceu  da perplexidade dos escritores diante dessa figura que emprestava seu nome a uma importante avenida de Santos, mas que permanecia uma “ilustre desconhecida”, expressão usada pelos pesquisadores para sublinhar o esquecimento a que essa figura estava submetida. Foi a partir dessa constatação que eles resolvem dar início, ainda em 2009, a um longo processo de recuperação que culmina no lançamento da biografia de Anna Costa, ocorrido em 2025, livro que deveu muito à ajuda de Heloísa Maria Mathias Costa, responsável pela preservação do arquivo da família. Seria difícil mensurar a importância de um trabalho como esse que resgata a memória de uma figura importante e intrinsecamente ligada à história da própria cidade de Santos.

Os títulos poderiam ser multiplicados com facilidade, dada a importância da Casa das Culturas para a vida cultural santista, mas acreditamos que esses dois casos já devem ter deixado clara o potencial desses espaços de reunião e difusão da cultura nacional. Uma das mais importantes frentes de batalha contra o processo de massificação cultural a que estamos submetidos hoje. Afinal, são esses os lugares em que as pessoas podem ter contato direto com os intelectuais e suas obras, compreender melhor os temas a que se dedicam, suas perspectivas de trabalho e até mesmo conviver com essas pessoas. E é justamente por isso que a Casa das Culturas, assim como a Casa das Rosas e tantas outras instituições, se faz absolutamente necessária, pois elas permitem o fortalecimento da nossa própria cultura. Nesse sentido, poderíamos dizer que as sólidas estruturas desses casarões antigos protegem a delicada sinfonia da cultura contemporânea duradoura da constante gritaria dos vídeos curtos das redes sociais, tão vazios quanto passageiros.


Nota:
1 Para os interessados em conhecer melhor o espaço, o endereço é: Rua Sete de Setembro, 49, bairro Vila Nova.

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