O colibri, de Sandro Veronesi

Por Sérgio Linard 

Sandro Veronesi. Foto: Gianni Cipriano



“Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?” (p. 319)

Esta pergunta poderia resumir perfeitamente o ótimo romance O colibri, do italiano Sandro Veronesi. Esta história, que se apresenta ao leitor de maneira não linear, garantiu ao autor, o segundo na história do prêmio, a receber por duas vezes o importantíssimo Strega. O título da obra e a justificativa dele, exposta já nas primeiras páginas, não sinalizam que o apanhado deste romance seria o de uma história do luto em vida ou, talvez, de uma vívida morte. 

Na literatura contemporânea — com destaque especial para a europeia — a exploração da multiplicidade de formas dentro do gênero romance tem sido bastante comum. A plasticidade do gênero permite manifestações textuais das mais diversas e com o acréscimo rotineiro de textos da era da informação: a carta deu lugar ao e-mail; o bilhete, à mensagem de WhatsApp; e as grandes descrições que definiam algo deram lugar a uma reprodução de página de pesquisa no Google. Hoje, essa realidade não é rara nos textos que nos caem às mãos, mas muitos, sem exageros, na busca por uma pseudo-inovação, desaguam na construção bagunçada das narrativas que se fazem ou entediantes ou de compreensão difícil — sem motivo plausível ou, no pior dos casos, inexistente —, uma vez que o caos é tão nítido que não há nem mesmo alguma história a ser lida, apenas lampejos e/ou pulsações em livros que se reclamam como romances, mas sob a pecha de não terem o básico para tal: uma narrativa. Não seria surpreendente a descoberta e/ou revelação de que algumas destas histórias foram construídas com o uso do que se convencionou chamar de Inteligência Artificial. 

Em O colibri, pode-se afirmar que Sandro Veronesi “dobra a aposta” ao recorrer a uma quantidade considerável de gêneros discursivos diversos, com demarcações temporais não lineares e igualmente complexas, mas sem perder, em hora alguma, a qualidade da narrativa que se apresenta. O primeiro contato com as páginas iniciais do romance aponta para uma história que parece se tratar de um jogo de traições em que marido e mulher não se amam mutuamente e buscam este sentimento fora do laço matrimonial. Mas a história surpreende e demonstra que esse é apenas um subterfúgio para que se chegue em algo mais consistente. A ideia de traição segue pairando e assombrando a narrativa, mas não se consolida como grande argumento. Aquele ponto de partida não é o ponto de chegada. Colibri, o apelido do protagonista por ter tido uma fase na infância em que seu corpo e sua estatura eram mirrados tal como esse pássaro, também parece ser o foco central da narração, afinal é essa alcunha que intitula o romance. Esta é, no entanto, mais um dos fantasmas que pairam a história. A essa altura, parece-nos claro que a aquilo que Veronesi narra é embreado de sombras que se unem em torno da grande temática, parcamente citada, mas amplamente percebida nas minúcias: o luto. 



O colibri é, logo, uma história em que o foco recai sobre o estado em que se encontra o ser humano após perdas — especialmente mortes —, mas o faz sem o melodrama ou sem a aura sorumbática que é expediente comum em literaturas com esta abordagem. Na verdade, O colibri poderia ser facilmente definido como um romance solar,¹ em que as coisas ocultas recebem iluminação natural, permitindo, no máximo, a permanência de sombras daquilo que se constitui como algo intrínseco às histórias dos personagens lidos. O pequeno pássaro, paulatinamente, semeia pequenos traumas ao passo que tenta bater suas asas para, rapidamente, superá-los. 

“Só que, um belo dia, a mãe de Marina morreu — prematuramente, aos sessenta e seis anos, de câncer no fígado. Perfeito, diriam alguns: um novo luto para Marina, verdadeiro, real, com o qual ela poderia seguir adiante por um bom tempo, talvez até para sempre. Mas não: essa morte, a morte da única pessoa que Marina Molitor havia amado em sua vida, a dilacerou. Não houve luto, mas raiva. Como assim? Todos os sacrifícios que ela havia feito pela mãe lhe pareceram ultrajados por essa sua fuga tão covarde. Que ousadia, a dela, morrer!” (p. 123-124) 

Este é o luto mais evidente em O colibri e é contado após uma digressão do narrador ao discorrer sobre como a problemática Marina precisava do sentimento de luto para conseguir “sobreviver” à sua incansável vontade de abandonar a vida. De forma perspicaz, após toda uma lógica estabelecida para o luto que adiante se anuncia, o narrador quebra a expectativa para mostrar a exata situação de dubiedade e de conflito em que Marina, aquela personagem secundária, encontra-se. Assim como neste caso, são diversos os momentos em que a grande temática do romance — reforço, a do luto — é ofuscada pela luminosidade de um racionalismo que busca mascarar aquele sentimento que, seguindo padrões psicanalíticos, demanda um real enfrentamento para ser superado. Mas não para Marco Carrera. Para ele, o luto é superado com um movimento simples de seguir em frente, mas sabendo-se triste e com a responsabilidade sobre coisas outras que não o próprio ser e é este movimento que conduz a narrativa que temos em mãos.  Ocupando a posição de leitores, colocamo-nos como quem acompanha um amigo na luta por superar as diversas, repentinas e reiteradas perdas que assombram o narrador.  

Nesta instigante leitura, há uma problemática que pode ser confusa e que se mostra pouco proveitosa para a obra: a datação dos capítulos. Como já falamos, não se tem uma organização linear do tempo abarcado por cada partição, pois ao passo que uns dão conta de alguns meses, outros abordam acontecimentos de décadas. No entanto, essas datas que acompanham os títulos de cada divisão são praticamente insignificantes para aquilo que será lido, posto que a obra per si em seu conteúdo garante compreensão do eixo temporal em que os acontecimentos se manifestam. Trata-se de um ruído que pode conduzir a uma tentativa de traçar linhas que seriam mais trabalhosas do que reveladoras. Essa datação faz-se muito positiva, porém, quando ao final da obra se registra um tempo futuro não só para o texto, mas também para o leitor. Isso porque considerando, também, o envelhecimento desse romance, constrói-se uma história que garante não estarmos diante de uma distopia que, como muitas dentro deste escopo, tornaram-se banais diante das realidades assustadoras que assolam a humanidade diuturnamente. Ficamos, por sua via, frente a um capítulo do futuro presentificado que garantirá à obra uma maturação mesmo quando o ano de 2030 (assinalado como um dos períodos do romance) for superado. 

“O quando é o que separa a salvação da condenação: Marco Carrera nunca se fez essa pergunta enquanto não teve a resposta, e, somente por isso, ele, que desejava permanecer parado, conseguiu avançar tanto, de maneira tão dolorosa, sem desabar.” (p. 285, grifo do autor)

Neste romance, a morte é espreita, mas também, a quase todo o tempo, é objetivo. Como se fosse o mote para justificar um status inerte, a morte como foco coloca-se não somente como gerador do luto e sim como uma das engrenagens que, enferrujada e de modo ruidoso, lentamente impulsiona a vida – sem que haja um grande desabar. Uma continuidade materializada não pelo medo simples da finitude, mas pela certeza de que é com auxílio daqueles que antes partiram que a existência se consolida como tal. 

Assim, destaco que este excelente romance de leitura recomendada não responde à pergunta inicial com que abri esta resenha, mas confirma que dos vários defuntos que sepultamos dentro de nós, um deles provém de nosso próprio ser. O colibri leva-nos a um singelo voo em que o luto por nossa morte em vida precisa ser encarado. 


______
O colibri
Sandro Veronesi
Karina Janninni
Autêntica Contemporânea, 2024
336p.


Notas:
1 Certamente não de forma desproposital, o romance, na versão original, tem sua capa com predominância de tons amarelos. Na versão brasileira, tem-se a imagem de uma praia a partir da fotografia “Marina Ravenna”, de Luigi Ghirri.

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