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Kafka, o uruguaio

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Por Alejandro Zambra Mario Levrero . Ramiro Alonso.   Certa vez Mario Levrero definiu sua obra como uma tentativa de traduzir Kafka para o espanhol. Especialmente em seus começos esta influência é importante, e há também passagens em seus últimos livros que lembram o Kafka dos Diários , mas creio que, por assim dizer, Levrero era muito mais uruguaio que kafkiano. Gosto de pensar que a tradução fracassou e que, graças a esse fracasso, Levrero acabou escrevendo uma obra pessoalíssima que ao longo dos anos encontrou seus leitores, não sei se numerosos, mas certamente bastante fiéis.   Também gosto do desconcerto provocado por O romance luminoso . Ainda há críticos que advertem “isso não é um romance”, como se sentissem obrigados a informar sobre o limite de garantia estatal para depósitos. Ademais, o próprio Levrero disse nas primeiras páginas do livro: “Um romance, atualmente, é qualquer coisa que se coloque entre capa e contracapa.” Levrero se mostra desejoso ou então resignado...

Árvores cerradas

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Por Alejandro Zambra Wolfgang Volz. Christo and Jeanne-Claude: Wrapped Trees, Fondation Beyeler and Berower Parc, Riehen, Switzerland (1997 - 1998)   A história de Bonsai é a história longa de um livro curto. Nove anos atrás, em uma manhã de 1998, encontrei no jornal a fotografia de uma árvore coberta por um tecido transparente. A imagem pertencia a série Wrapped Trees , de Christo & Jeanne-Claude, artistas que há décadas correm mundo recobrindo paisagens e monumentos nacionais. Lembro que escrevi, naqueles dias, um poema não muito bom que falava de árvores cerradas, encerradas. E logo me deparei com os bonsais, tão parecidos, em certo sentido, com as árvores de Christo e Jeanne-Claude, embora reduzidas, à força, pelo capricho da poda.   Escrever é como cuidar de um bonsai, então pensei e agora penso: escrever é podar os ramos até dar a ver uma forma que já estava ali, oculta; escrever é alambrar a linguagem para que as palavras digam, de uma vez, o que queremos dizer; es...

Contra os poetas (II)

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Por Alejandro Zambra Giorgio De Chirico. Praça , 1913.   Dois anos atrás, os editores da Etiqueta Negra deram início a uma nova seção da revista que consistia em escrever contra os colegas, ou, como então me explicou Marcos Avilés, “contra os males do ofício, os vícios e enfermidades da ocupação”. Neste contexto Martín Caparrós escreveu contra os cronistas; Alberto Fuguet, contra os cineastas; e Marcos me pediu que escrevesse contra os poetas.   Aceitei, claro. Escrevi — a sério e brincando — uma diatribe a partir de minhas próprias experiências. Pareceu-me uma honra fazer uma versão incidental [de paso], modesta, do divertido ensaio de Witold Gombrowicz. 1 Lembro de logo ter recebido algumas reações favoráveis, que em geral valorizavam a veia satírica do artigo. E em seguida dele me esqueci, ou melhor, arquivei-o para sempre, ou pensava que para sempre.   Tempos depois, quando a publicação completava quase um ano, Luis Martínez Solorza, o homem polivalente por trás de ...

Contra os poetas (I)

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Por Alejandro Zambra Giorgio De Chirico, O poeta e sua musa , 1925.   Aos vinte anos já acumulam experiências importantes: publicaram poemas em revistas e antologias, participaram de oficinas, escreveram artigos para anuários escolares e talvez tenham concedido uma ou duas entrevistas precoces. Já têm prontos seus primeiros livros, que estão a ponto de serem lançados por editoras emergentes. São livros muito ruins, mas por ora isso não importa. Seus poemas são longos e sentenciosos, abusam dos gerúndios, dos pontos de exclamação e das reticências. Leem Vicente Huidobro, Delmira Agustini e Oliverio Girondo, mas sobretudo leem-se uns aos outros, em intermináveis reuniões só por vezes amistosas.   Aos vinte e cinco já renegaram aqueles primeiros poemas, que consideram longínquos pecados de juventude. Esperam logo encontrar a maturidade como poetas, que a eles importa muito mais do que a maturidade como pessoas. O segundo livro largamente cumpre o objetivo: não é bom, mas sem dúvi...

Múltipla escolha, de Alejandro Zambra

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Por Pedro Fernandes Ao falar sobre avaliação que dava acesso à universidade no Chile, o narrador de um dos textos que compõem Múltipla escolha diz que esta era produto de sistema educacional falido; bastava ao estudante “entrar no jogo e adivinhar a pegadinha”. Esta observação recupera a natureza do livro de Alejandro Zambra, uma dentre as experiências literárias mais radicais das criações deste início de século. Este livro é uma encenação da falibilidade da literatura numa era quando à forma e à estrutura não escapam outras alternativas de reinvenção. Marcado pelo discurso fatalista da impossibilidade da narrativa, discurso aliás do qual seguramente o escritor trata de zombar, é uma obra construída como provocação à ordem. Uma ode ao caos e a variabilidade das formas e estruturas estéticas e sociais. O escritor chileno se apropria de uma estrutura não-literária, um certame objetivo muito em voga no seu país até meados do início deste século – no Brasil, esta avaliaçã...