Boletim Letras 360º #689

DO EDITOR

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Rosa Montero. Foto: Ivan Giménez




LANÇAMENTOS

Neste romance profundo, erótico e irresistível, Rosa Montero fala da passagem do tempo, do medo da morte e do fracasso — mas também da esperança. Um hino à necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo.

“No fim, tudo acabava desembocando no amor. E no sofrimento.” Soledad contrata um gigolô para acompanhá-la à ópera e provocar ciúmes no amante que a abandonou. Mas, na saída, um acontecimento inesperado e violento vira subitamente o jogo e marca o início de uma relação turva, vulcânica e não desprovida de perigos. Ela tem 60 anos; o jovem, 32. Soledad se rebela contra o destino com raiva e desespero — e também com humor —, e o relato de sua aventura se entrelaça às histórias dos escritores malditos da exposição que ela prepara para a Biblioteca Nacional de Madri. Escrito com a mesma habilidade, mão graciosa e inteligência profunda e penetrante de livros como A louca da casa e O perigo de estar lúcida, A carne é um romance ousado e cheio de surpresas, além de ser um dos textos mais livres e pessoais de Rosa Montero. Sua trama comovente fala da passagem do tempo, do medo da morte, do fracasso e da esperança, da necessidade de amar e da importância de uma vida sexual ativa. Tudo isso vem a reboque num estilo alegremente lúcido, cruel e de uma ironia revigorante. “Ela havia chegado àquela idade em que sua biografia era irreversível. Não podia mais ser outra coisa, não podia mais fazer outra coisa da vida. Ah, se ela soubesse que iria envelhecer e morrer, teria vivido de outra maneira. Mas, antes, ela não sabia. Quer dizer, nunca soube assim, desse jeito tão verdadeiro e irremediável. E agora era tarde demais.” Com esta espécie de thriller emocional cheio de frescor, a escritora espanhola examina, com sensibilidade aguda e irônica, os sentimentos de uma sedutora impenitente às voltas com a inexorabilidade da vida. Publicação da Todavia; tradução de Mariana Sanchez. Você pode comprar o livro aqui.

Primeira reunião com uma amostra da poesia do chileno Raúl Zurita chega aos leitores brasileiros.

Na geração de artistas latino-americanos que, nas décadas de 1960 e 1970, foi confrontada com a instalação de ditaduras militares em seus países, o nome do chileno Raúl Zurita é um dos expoentes mais singulares. Perseguido, detido e torturado pelas forças de Pinochet, ele inventou na poesia formas admiráveis de projetar sua voz ― seu grito por liberdade ― para além das fronteiras e das trincheiras do regime autoritário. Desde então, Zurita faz versos altivos, brilhantes, e promove seus atos poéticos com o estardalhaço preciso para denunciar e enfrentar a violência, o que inclui até mesmo escrever palavras no deserto ou com aviões no céu. Em sua obra, já traduzida para muitas línguas, se tece uma militância em defesa da vida, seja quando ela está sob o ataque de ditadores, seja quando as injustiças a reduzem à luta pela sobrevivência. Cobrindo esse vasto e denso panorama de meio século de produção, Sua vida quebrando-se é a primeira antologia brasileira da obra de Zurita. Sua vida quebrando-se foi organizado por Francesca Cricelli, responsável também pela tradução, e Ana Rüsche, autora do posfácio, a partir da antologia pessoal do poeta, Tu vida rompiéndose (2016), em que ele não apenas revisa, mas também repropõe as combinações internas de uma obra que, revirando o passado, nos chega igualmente viva e inquietante. Zurita é urgente ― sempre. Publicação do Círculo de Poemas. Você pode comprar o livro aqui.

A chegada de outra parte da poesia latino-americana entre nós: Paula Abramo. 

Livremente inspirada em memórias familiares e nas cartas escritas por seu avô Fúlvio Abramo nas décadas de 1930 e 1940, em Fiat Lux a poeta mexicana Paula Abramo recria desde dentro a trama de vozes, lugares e acontecimentos que definiu a trajetória de um punhado de homens e mulheres, cujos destinos se forjaram no calor da ação política. Um dos núcleos do livro é também um episódio central da luta política brasileira — a batalha ocorrida na Praça da Sé, centro de São Paulo, em outubro de 1934, quando um pequeno número de militantes socialistas e anarquistas enfrentou uma manifestação de cinco mil integralistas. Entre os ativistas de esquerda estavam não apenas nomes como Mário Pedrosa, o próprio Fúlvio e outros membros da família Abramo, mas muita gente anônima, figuras esquecidas que, como já observou Antonio Candido, “formam o miolo da história e por vezes exprimem o que há nela de mais humano”. Escrito a partir de um duplo exílio — o do avô, que fugiu da polícia de Vargas em 1938, e o do pai, que se refugiou no México para escapar à ditadura militar dos anos 1960 —, Fiat Lux conecta distintas gerações e geografias e, graças à tradução de Gustavo Pacheco, devolve à cultura brasileira uma experiência que é nossa, mas estava afastada de nós. Publicação da Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.

Terceiro romance da escritora sueca Ia Genberg com o qual foi reconhecida entre os finalistas prêmio Man Booker. 

Uma febre alta e súbita, em meio ao isolamento da pandemia, torna-se o portal involuntário para o passado. Ao buscar refúgio nas páginas de um livro há tempos esquecido em sua prateleira, a narradora em primeira pessoa reencontra uma dedicatória escrita 25 anos antes. As palavras deixadas por Johanna, uma antiga namorada, não são apenas a lembrança de um presente de décadas atrás: são o estopim que rompe o silêncio para evocar a memória de pessoas que a moldaram. Nesta jornada febril pelo passado, a protagonista retoma as trilhas de quatro ausências marcantes que ainda reverberam em sua formação. Primeiro, há a intensidade intelectual e os embates de Johanna, a mulher que lhe deu o livro e que agora é uma voz distante. Depois surge Niki, a amiga nômade e instável, cujos sumiços e aparições em Estocolmo ditavam o ritmo de uma juventude caótica. Há também o trauma e a ternura de Alejandro, o amante que atravessou sua vida como um vendaval de paixão e mistério. E, por fim, a figura central de Birgitte, a mãe esquiva e cheia de segredos familiares que lançam sombras sobre a identidade da filha. Nessa volta à Estocolmo pré-digital dos anos 1990, em um tempo de cartas, telefones fixos e encontros casuais na iminência da virada do milênio, Ia Genberg nos conduz por uma geografia de afetos e perdas. Com uma prosa fragmentada e magnética, a narradora reconstrói esses laços não para reviver o que passou, mas para entender quem ela se tornou. Ao falar dos outros — de seus corpos, manias, livros lidos e destinos traçados —, a autora acaba por realizar o mais íntimo dos autorretratos, tateando as fronteiras entre o “eu” e as marcas deixadas pelos que partiram. Detalhes torna-se uma investigação profunda sobre a matéria que nos esculpe e os inúmeros pedaços que se organizam e desorganizam para formar uma história única. Afinal, mesmo quando a febre passa e a escrita retorna resta a dúvida permanente: em um quebra-cabeça feito de imagens alheias, quem é, verdadeiramente, o retratado?
Publicação da editora Fósforo. Traduzido por Fernanda Åkesson. Você pode comprar o livro aqui.

O aguardado retorno de André Viana à ficção, o romance Apesar dos meus ossos roídos é uma declaração de amor à vida, ainda que (quase) tarde demais.

Carlos, o protagonista deste romance a um só tempo cômico e devastador, é um professor de literatura já aposentado que encara a finitude e a fragilidade do corpo. Nas anotações do seu diário, registra com diligência tratamentos médicos dolorosos — sobretudo a ameaça de uma grave doença reincidente e um longo procedimento com implantes dentários. Sobreviver e sorrir pela primeira vez na vida em muito tempo se igualam, aqui, numa mesma medida. Assim como reencontrar o prazer há muito perdido. Entre consultas, caminhadas e refeições solitárias em uma capital do sul, a milhares de quilômetros da cidade nordestina onde passou grande parte da vida, revive memórias de família: a filha Cecília, que foi em busca de um novo caminho na floresta; Ester, marcada pela dor; e o fantasma de André, morto cedo demais. O trivial — idas ao cinema, compras em supermercados, leituras, encontros com amigos e amantes ocasionais — contrasta com a presença obsedante da morte. Mas é essa proximidade com o fim que o anima, insuflando desejo e vitalidade, ainda que nada mais disso pareça estar disponível com a mesma facilidade dos tempos de juventude. Escritor de ficção frustrado, a tentativa derradeira de escrever uma história baseada na temporada entre bibliotecas, cinemas e cafés que viveu em Paris, nos anos 1980, torna-se bastião contra a melancolia que o ameaça num mergulho espesso. Engendrando um elaborado jogo de espelhamento, ironia e apropriação criativa com os diários do próprio pai, o escritor Antonio Carlos Viana (1944-2016), André Viana oferece aqui um romance cheio de vida em sua inventividade marcada pela compreensão humana. Publicação da editora Todavia. Você pode comprar o livro aqui.

No extremo sul do Brasil, na praia mais extensa do mundo, três marinheiros são responsáveis pela manutenção e segurança de um farol de navegação. Isolados do mundo por oitenta e cinco dias, cercados de natureza inóspita, enfrentam a culpa, o desejo e o peso do passado.

Outras guerras é um romance preciso e magistral. Três homens se isolam numa praia sem começo nem fim, com a tarefa de zelar pelo funcionamento de um farol de navegação. Durante quase três meses, vivem e trabalham em instalações simples ao redor do farol, cercados de areia por todos os lados. Mas o que os leva até lá não é necessariamente o dever, e sim o medo e a culpa, a penitência e a fuga. Agostinho, o mais velho, tem problemas com a bebida e, ao se voluntariar para o farol, acredita estar purgando um ato sem perdão: alcoolizado e sem memória, foi acusado de algo abominável e não tem como se defender. Ariel, o mais novo, foge para tentar se encontrar: nunca tomou decisões por conta própria, foi sempre influenciado pela vontade dos outros, e agora, na solidão do farol e dedicado aos seus orixás, procura entender quem realmente é. Já Skawinski está ali pela culpa e pelo desejo. Cresceu sem a mãe, com um pai ausente, e desde cedo ficou aos cuidados da meia-irmã mais velha, Vanda, com quem criou um laço afetivo perigoso. Jovem sem pouso nem futuro, teve de ser acolhido na casa dela e do marido. Mas o amor por Vanda e a impotência perante seu casamento o forçaram a partir. Isolados no farol, são acossados pelo vento e pela areia, que se acumula, invade e encobre tudo. Os marinheiros, afundados em suas guerras pessoais, em breve serão tomados também pelo delírio. O romance de Leonardo Brasiliense é publicado pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

A tentativa de amar aliada à impossibilidade de entrega emocional é um dos motores de A doença da morte, o oitavo volume da Coleção Marguerite Duras

Neste romance, a autora narra o encontro entre um homem incapaz de amar, acometido pela condição que dá título à obra, e uma mulher que ele contrata para passar várias noites em um quarto à beira-mar. Com texto surpreendente do começo ao fim, a escrita deste romance é feita em uma segunda pessoa que coloca nós, leitoras e leitores, em um lugar de observação quase clínica. O texto de Marguerite Duras explora o abismo intransponível entre os corpos e a tentativa frustrada de alcançar a alteridade, revelando a solidão radical de um desejo impossibilitado de se tornar afeto. Publicado originalmente em 1982, A doença da morte é um livro à parte na produção durassiana: nenhum texto resistiu tanto à interpretação quanto esta curta narrativa densa e poética. No romance, Marguerite Duras explora a atmosfera da intimidade com cenas que envolvem temas-chave como a misoginia, a dor, o amor impossível e o despojamento da linguagem. O livro sai pela Relicário Edições com tradução de Cassiana Stephan e Luciane Boganika; Stephan assina posfácio do livro e Chloé Chouen-Ollier o prefácio. Você pode comprar o livro aqui.

Romance traz à tona mais de meio século da história da África do Sul. 

Hans é um ex-policial vivendo numa casa de repouso em Joanesburgo, assombrado pelas lembranças dos crimes que cometeu a serviço do governo. Já Zoe, enfermeira designada para cuidar dele, é uma mulher que cresceu enfrentando a desigualdade e o racismo, consequências da violência política de seu país. À medida que ambos partilham suas memórias e remorsos, um improvável vínculo se estabelece, trazendo à tona mais de um século da história da África do Sul. Com tradução de Davi Boaventura, Eles te pegaram também sai pela editora Dublinense. Você pode comprar o livro aqui.

Nesta obra incontornável da literatura inglesa, Charles Dickens converte a jornada de um menino órfão em uma denúncia poderosa contra a miséria, a exploração e a desumanização das camadas mais vulneráveis na sociedade vitoriana.

Quando Oliver Twist nasceu, o destino não estava a seu favor. Órfão e entregue à tutela do Estado, ele cresce à mercê de instituições negligentes, burocratas inescrupulosos e adultos cruéis que fazem da pobreza uma punição. Ao fugir para Londres, o garoto mergulha no submundo inglês, marcado pela exploração e pela violência, e cerca-se de uma série de pessoas criminosas, oportunistas e igualmente desamparadas. No entanto, mesmo diante da brutalidade, Oliver mantém seus valores e preserva a esperança em uma vida mais justa. Publicado originalmente entre 1837 e 1839, Oliver Twist não apenas revolucionou a literatura inglesa, como se transformou em um poderoso retrato das desigualdades de sua época. Ao denunciar o abandono, a exploração e os abusos sofridos por crianças pobres na Inglaterra vitoriana, Charles Dickens lançou luz sobre as falhas de um sistema que condenava os mais vulneráveis à fome, ao crime e à marginalização. O autor foi responsável por levantar questionamentos e contribuir para debates que alterariam a percepção social relativa à infância, à orfandade e à miséria. A edição da Antofágica conta com tradução inédita de Rogerio Galindo e Irinêo Baptista Netto, além de mais de quarenta ilustrações em nanquim do artista Marcelo Tolentino, autor de Domingo, considerado um dos dez melhores títulos infantis ilustrados de 2025 segundo The New York Times. A edição inclui ainda a apresentação de José Falero, Marcela Santos Brigida, Livia Piccolo e Daniel Puglia. Você pode comprar o livro aqui.

Um romance feito de vozes herdadas e de silêncios. 

Construído a partir de fragmentos narrativos, vozes herdadas e silêncios transmitidos entre gerações, As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita, romance vencedor do Hamburger Literatur Preis 2025 na categoria Livro do Ano, parte de uma constatação radical: para muitas mulheres, a escrita nunca foi um destino possível, mas um gesto interditado. Djabbarova transforma essa interdição em matéria literária, compondo uma narrativa em que o corpo se torna arquivo — de trabalho, violência, cuidado e resistência. Organizado a partir de diferentes partes do corpo, o romance articula memória familiar e experiência pessoal, incluindo o enfrentamento de uma doença que atravessa o texto como limite físico e ponto de inflexão da linguagem. Nesse percurso, o corpo feminino surge como território de normas e violências, mas também como espaço de resistência. A obra, acompanhada por dois ciclos poéticos, tensiona as fronteiras entre prosa e poesia e incorpora procedimentos que deslocam a linguagem para além do literário — como o uso de materiais técnicos ligados ao próprio corpo da narradora. A escrita emerge, assim, como ferramenta de confronto e metamorfose. Reconhecida como uma das vozes mais contundentes da literatura russa contemporânea, Djabbarova foi forçada a deixar a Rússia em 2024 após posicionar-se contra a guerra na Ucrânia e em defesa dos direitos LGBTQ+, vivendo atualmente na Alemanha. A publicação do romance no Brasil dá continuidade ao diálogo iniciado com Rus bala (Ars et Vita, 2024), que apresentou ao público brasileiro a poesia da autora. Tradução de Maria Vragova. Você pode comprar o livro aqui.

Uma chave a mais para ler o maior romance da literatura brasileira. 

“Por que ler Grande sertão: veredas a esta altura dos acontecimentos? Era a pergunta que eu me fazia, ao mesmo tempo que, num impulso, tomava a decisão de tirar de minha estante o volume de setecentas páginas. Chegou a hora de um ajuste de contas com a obra-prima de Guimarães Rosa.” A coleção “Para ler” é um convite que fazemos aos leitores para o encontro, ou reencontro, com grandes livros e autores. Italo Moriconi, um dos nossos maiores críticos, decidiu se embrenhar pelas páginas selvagens da obra-prima de Rosa, enquanto tenta decifrar o feitiço que só os grandes livros emanam. Quem decidir acompanhá-lo vai se sentir menos solitário na travessia. “Para ler Grande sertão: veredas” é composto de duas partes independentes, mas estreitamente relacionadas entre si. A primeira é formada pelo diário de leitura de Moriconi, apresentando os impasses e os atrativos que o leitor vai encontrando em cada uma das páginas, em cada uma das veredas de Rosa. Na segunda, ele pormenoriza o enredo que fascina gerações há setenta anos, apesar de o seu mistério já ter sido mais do que revelado — o que não parece aplacar a potência da história. Acompanhe Moriconi nessa jornada por um livro que, assim como o sertão, é do tamanho do mundo. O livro sai pela editora Autêntica. Você pode comprar o livro aqui.

Ricardo Lísias repassa em ensaio a censura imposta à literatura em suas múltiplas facetas

A censura nunca é um mero gesto. Trata-se de uma agressão no campo de batalha em que arte, poder e lei se confrontam. Em A arte no banco dos réus, Ricardo Lísias mostra como obras que hoje consideramos fundamentais já foram alvo de processos, destruição e silenciamento. Percorrendo casos contra Gustave Flaubert, James Joyce, Richard Serra, Robert Mapplethorpe, D.H. Lawrence, Nuno Ramos e Glauber Rocha, entre outros, Lísias constrói uma história do conflito entre criação e controle, culminando nos episódios em que ele próprio se viu censurado. Rigoroso e provocador, o livro oferece argumentos e reflexões essenciais para juristas, historiadores e interessados em compreender como o Direito e a política influenciam o que podemos ver, dizer e pensar. Publicação da editora Lote 42. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

A nova edição de um petardo da literatura cubana já está entre nós. 

José Cemí cresce em Havana numa família marcada pela ausência precoce do pai, um oficial militar cuja morte deixa um vazio que a memória e a linguagem tentarão preencher. Da infância adoentada à juventude intelectual, Cemí atravessa um mundo denso de sensações, afetos e ideias ― e vai se descobrindo poeta. Paradiso é o romance da formação de uma consciência. Ao redor de Cemí gravitam figuras inesquecíveis: a mãe devotada, os amigos Fronesis e Foción, com quem trava longas disputas filosóficas sobre poesia, erotismo e destino. Entre eles, o desejo circula com a mesma intensidade que as ideias ― e Lezama Lima não recua diante de nenhum dos dois. A prosa é uma aventura em si mesma. Barroca, exuberante e exigente, acumula referências da mitologia, da filosofia, da pintura e da literatura universal numa sintaxe que imita o próprio excesso do mundo. Ler Paradiso é habitar uma língua que recusa a simplicidade porque acredita que a realidade é, ela mesma, inesgotável. Publicado em Cuba em 1966 e imediatamente reconhecido como obra-prima ― e como escândalo ―, Paradiso é um dos romances mais ambiciosos e singulares já escritos em língua espanhola. A tradução de Josely Viana Baptista é reeditada pela editora Pinard. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS 

A poesia de Katherine Mansfield. As Edições Jabuticaba publicam pela primeira vez no Brasil algo da poesia da reconhecida contista neozelandensa. Quando foi pássaro, organizado e traduzido por Katherine Funke oferece 40 poemas.

Também a primeira vez. A Isto É Edições apresenta ao público brasileiro a obra de María Mercedes Carranza, considerada uma das poetas mais relevantes da literatura colombiana. A tradução é de Eduarda Rocha e livro traz prefácio de Melibea Garavito, filha da poeta.

O regresso de John Williams. Com a publicação da nova tradução de Butcher’s Crossing, a Arte & Letra resgata dois dos romances mais conhecidos do escritor. A casa já publicara Stoner também com a tradução de Lucas Lazzaretti.

DICAS DE LEITURA

No passado 1º de maio celebramos duas datas: o Dia Mundial do Trabalho e o Dia da Literatura Brasileira. Juntamos as duas celebrações para pensar as recomendações de leitura deste boletim. Isto é, obras da nossa literatura em cujo epicentro esteja o trabalho e/ ou as relações de trabalho. 

1. Ladeira da preguiça, de Evanilton Gonçalves (Todavia, 72p.) Uma novela que acompanha o cotidiano de um casal que vive da informalidade no centro antigo de Salvador ou um retrato de como o espoliado povo brasileiro sobrevive quando nem mesmo a oportunidade de discutir escala 6x1 é dada. Você pode comprar o livro aqui

2. De gados e homens, de Ana Paula Maia (Record, 128p.) A narrativa recupera uma das obsessões da escritora: a personagem Edgar Wilson. Depois de trabalhar numa carvoaria, o protagonista passa a trabalhar em um matadouro de gado fornecedor de carne para hamburguer. Você pode comprar o livro aqui

3. A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara (Todavia, 408p.) A vida de uma família de trabalhadores rurais do sul do Brasil dedicada ao cultivo do tabaco e envolta no curso de morte e descaso do poder capitalista. Você pode comprar o livro aqui.
 
BAÚ DE LETRAS

Em março de 2019, traduzimos para este ensaio de Rocío Benavente à volta do drama Marie Curie recuperado por Rosa Montero em A ridícula ideia de nunca mais te ver.
 
DUAS PALAVRINHAS 

Meu interesse pela leitura surgiu essencialmente de dentro de mim. Nem todos têm esse dom. Não se pode esperar que ele seja generalizado. E esse é o erro que destruiu a individualidade do escritor. O dom é justamente isso: uma qualidade misteriosa à qual poucos têm acesso.

— Zoé Valdés
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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.

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