Escrita em movimento, de Noemi Jaffe
Por Herasmo Braga
Embora não realize uma interpretação escatológica dos tempos atuais, não há como ser indiferente diante das perdas de referencialidade e de credibilidade que têm assolado os discursos propagados, seja em forma de notícias, na exposição de ideias, ou nas elaborações narrativas. Dessa maneira, os vínculos comunicativos, de debates, de aspectos formativos tendem a ser mais agentes que desqualificam os sujeitos do que propriamente colaboram para a vida social e subjetiva dos indivíduos. Em meio a esse contexto, estimular o desenvolvimento e valorizar quem realiza produções discursivas de qualidade não constituirá apenas uma ação significativa para cognição, mas até mesmo algo de sobrevivência para os seres mediante a necessidade interativa.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em uma das suas obras mais recentes denominada A crise da narrativa, destacou os danos vigentes que a perda da capacidade qualitativa vem ocasionando diante do oceano de informações apresentado cotidianamente às pessoas, que se amplia e provoca profunda crise nas narrativas. Logo nas primeiras linhas do seu ensaio, Han destaca: “Paradoxalmente, o uso inflacionário de narrativas revela uma crise da narrativa. Em meio a um barulhento storytelling, há um vácuo narrativo que se manifesta como um vazio de sentido e como desorientação”. Nessa assertiva, o pensador percebe a precarização das narrativas, que ocorre muito por conta do estímulo quantitativo de imperar certa obrigação de opinar, de dizer, de criticar, de se manifestar, de contar, seja sobre qualquer tema, de condições de conhecimento ou de relevância na expressividade.
Destarte, o que seria uma possibilidade de todos terem o que contar, acaba se tornando um todos têm que contar sempre. Nesse contexto, os principais pilares que sempre acompanharam e justificaram o ato de narrar, que seria a promoção e expansão de sentidos, acabam por se perder diante de tantos falantes com poucos ouvintes e, no geral, constituem, hegemonicamente, despreparados narradores tanto na forma como no conteúdo.
Nesse sentido, uma das contribuições significativas para o aspecto da forma deriva de Escrita em movimento, obra de Noemi Jaffe. Este livro, desde o início, e de fato se comprova ao longo dele, não constitui uma produção em formato de manual, que apenas seguindo as instruções o leitor estará apto na escrita de qualquer forma narrativa. Nas primeiras ideias, Jaffe evidencia para o leitor e pretenso escritor, que toda realização de desenvolvimento narrativo qualitativo ocorre mediante uma “aquisição lenta e sempre processual”, em que inúmeras etapas preparativas devem ser levadas em conta antes mesmo da tomada do papel para a escrita.
Entre as relevantes ações anteriores, se encontra o próprio entendimento do que venha a ser Literatura, por conta da maneira como ela é concebida, e isso se direciona a todas as escolhas de obras, o procedimento interpretativo dos textos, a percepção entendida e refletida para o momento de ser expressa na página em branco. Reconhecer, portanto, que a Literatura não tem uma função definida, tal como menciona a escritora, e também não se pode perder de vista a capacidade sugestiva para que o material não ganhe uma atuação pragmática ou mesmo doutrinadora, já constituem importantes observações ao se problematizar para si como é encarada a Literatura, para quem nela pretende inserir-se como autor. No complemento a esses passos fundacionais, Jaffe ressalta: “É preciso praticar concentração, paciência e muita leitura”, no ato do trabalho com a matéria-prima do fazer literário que é a palavra.

Ao longo das demais abordagens, têm-se as análises acerca do que a escritora designa como os “sete princípios do fazer literário”: as palavras e a simplicidade como “algo que se explica por si mesmo, na medida do possível”; a consciência narrativa — “O foco narrativo é, sem dúvida, uma das decisões mais importantes que se deve tomar para desenvolver uma narrativa ficcional”, “Outra decisão fundamental para o escritor, ao lado do foco narrativo, é o tempo verbal a ser escolhido para narrar. Cada tempo acarreta efeitos narrativos diferentes e próprios e é preciso conhecê-los para poder optar por um ou outro”; a originalidade: “O lugar-comum é, em grande medida, resultado do hábito — de escuta, de leituras, de conversas — e a literatura é justamente uma força contrária ao hábito, que busca reinventar nossa maneira de dizer e pensar o mundo”; o estranhamento: “Ler literatura é também estranhar a própria língua e senti-la sendo usada de formas diferentes, que aguçam nossa percepção sensorial e intelectual. Se não ocorre estranhamento na experiência da leitura, tampouco haverá a desejada transformação do leitor pelo texto literário”; os detalhes, estes que “aparecem quase que inevitavelmente, como resultado ou efeito do conhecimento que se adquire do personagem ao longo do processo de escrita. É um misto de invenção e reconhecimento, pois, à medida que inventamos nossos personagens, eles também vão se revelando a nós e nos mostrando características suas que desconhecíamos”; e da experimentação: “Um leitor que se dispõem a ler uma obra com essa proposta precisa, igualmente, abrir-se para um novo olhar”.
Cada uma dessas partes do livro são desenvolvidas com, além das observações de Noemi Jaffe, os detalhes de outros autores que se debruçaram sobre os processos narrativos, como James Wood; também conta com pequenos depoimentos de escritores diante destes pontos específicos trabalhados, como os de Milton Hatoum. Tem-se, portanto, em Escrita em movimento um estudo sobre o fazer literário a contribuir para a escrita de novas narrativas literárias de qualidade e que possibilite o surgimento na consonância produtiva entre forma e conteúdo delas e assim diminuir a precarização de narratividade vigente na contemporaneidade informativa.
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Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário
Noemi Jaffe
Companhia das Letras, 2023
192 p.

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