Os caminhos trôpegos e regados à bebida em Suttree, de Cormac McCarthy
Por Douglas Sacramento
![]() |
| Cormac McCarthy. Foto: Gilles Peress |
I
Rebecca Solnit, no livro A história do caminhar, apresenta um compilado literário e cultural sobre o ato de andar nas suas mais variadas acepções. Num determinado momento, a autora dedica sua escrita às pessoas que andam na rua e aborda como a cidade pode ser um espaço labiríntico, marcado por indivíduos de múltiplas ocupações, caracterizando-se, assim, como um território ambíguo.
A cidade ora remete à liberdade de circular pelas ruas, becos e vielas, ora revela seu lado negativo, como um lugar onde se mata e onde constantemente circulam sujeitos de atitudes duvidosas.
Mas algo me chama atenção nesse texto de Solnit: a rua é associada ao sujo e ao baixo. Mesmo quando são mobilizadas representações positivas da urbe, parece haver sempre algo à espreita, capaz de acabar com essa energia. Então, chega-se à conclusão de que, na cidade, tudo pode acontecer, e o sujeito pode se deparar com outros tão diversos quanto ele próprio. De qualquer modo, quem mora ali está sempre atento e em prontidão, caso algo de ruim aconteça.
Em Suttree, encontramos um sujeito à margem da sociedade — a personagem que dá nome ao romance, Cornelius Suttree. Mas, antes de resumir o livro, contextualizo a obra e o seu autor, aspectos importantes para o desenvolvimento desta crítica. Cormac McCarthy foi um escritor estadunidense nascido em 1933, em Rhode Island, e falecido em 2023, no Novo México. Publicou o primeiro livro em 1965, e entre as premiações recebidas está o Prêmio Pulitzer, em 2007, com o romance A estrada. O livro de que me ocupo é o seu quarto romance; publicado em 1979, demorou 20 anos para ser escrito, ou seja, antes mesmo de sua estreia literária, o autor já escrevia Suttree.
O romance narra quatro anos da vida do protagonista, um homem que abandona a família — esposa, filho, pai e mãe —, é preso e, depois de solto, decide continuar afastado do seio familiar para viver numa casa flutuante no leito do rio Tennessee, na cidade de Knoxville, sobrevivendo da pesca. Encontramos, assim, o outro lado da vida urbana, isto é, a de alguém com pouco dinheiro e passando necessidade. O protagonista convive com outros beberrões que passam pelas mesmas condições; muitos deles vivem do crime, e todos tentam se manter em uma espécie de corda bamba, entre a possibilidade de morrer de fome ou de frio e o risco constante de serem presos e/ ou voltarem para o presídio.
Contudo, a história de Suttree não se reduz a esse panorama com tons de documentário sobre a vida nas margens da cidade, regada a bebida, pobreza e violência. Existe um constante deslocamento pelo espaço urbano enquanto sua vida ganha novos contornos a partir das notícias e propostas que surgem no decorrer de quatro anos. Personagens aparecem e desaparecem, amigos morrem, surge uma proposta de trabalho como marisqueiro, há tentativas de retorno para casa seguidas de expulsão pelos pais, visitas a uma tia no manicômio, amores vividos, fugas constantes da polícia, já que está sempre bêbado, além da saúde debilitada, chegando a quase morrer de febre tifoide ao final do romance.
II
Algo ecoou no decorrer da travessia por quase 600 páginas: uma citação de Rebecca Solnit, que associa as ruas da cidade à solidão. Nessa passagem, a autora compreende que “o mundo é feito de estranhos” e o sujeito é “um estranho cercado de estranhos”. No romance de McCarthy, o seu protagonista também é esse estranho cercado por outros estranhos. Nada na narrativa é fixo ou aprofundado, não existem conversas sobre o passado alheio, nem somos apresentados ao passado do protagonista.
“A cidade é representada como um lugar sujo, do qual tudo pode aparecer — animais mortos, partes do corpo humano, cadáveres — e onde, a qualquer momento, alguém pode morrer. A estranheza está em todo o lugar. Ao narrar personagens que estão na margem da sociedade, a estranheza prevalece até na construção dos ambientes em que as ações ocorrem, como o rio Tennessee: 'Certo dia um bebê morto passou. Inchado, olhos pastosos e apodrecidos no crânio bulboso, fiapos de carne ondeando como papel higiênico'” (p. 365).
Tudo no romance é ofertado ao leitor aos poucos, em quantidades quase homeopáticas, como se fossem pequenas doses de tequila. Sabemos que o protagonista foi preso injustamente e fez amizades na prisão; um desses sujeitos, Gene, passa a morar na cidade, na beira do rio. Ainda assim, ele é uma figura inserida numa rede de coadjuvantes que só aparecem, em geral, em momentos marcados pelo consumo de álcool, sempre oferecendo bebida.

Outro ponto é que as doses do passado de Suttree são sempre atravessadas por um presente pungente e bem demarcado; sua vida acontece no agora, sem muitas digressões. Contudo, o leitor percebe uma mudança muito evidente no tom da narrativa. Se, nas primeiras 200 páginas, Suttree aparece mais novo, trôpego e bêbado, perambulando e se perdendo pela cidade, em outros momentos emerge uma voz narrativa mais introspectiva, marcada por descrições e adjetivações mais elaboradas, compondo uma tensão sutil e contrastante entre sobriedade e embriaguez.
“Na Gay Street os semáforos estão apagados. Os trilhos dos bondes reluzem nos dormentes e um carro atrasado passa com sua longa fileira de rodas. Na galeria comprida da rodoviária os passos reverberam gargalhadas. Marcha soturno em direção à sua própria figura soturna marchando na vidraça da porta da estação. Seu duplo surge do outro lado da vida como uma alucinação autoscópica, Suttree e Antisutree, a mão alçando a mão.” (p. 36)
Por outro lado, na segunda metade do romance, quando o Suttree continua o mesmo, mas se mostra menos festeiro e mais preocupado com sua condição — sobretudo em passar mais um inverno sem morrer de frio ou de fome —, a narrativa ganha agilidade, como se a procura por uma melhora de vida oferecesse a forma da própria narração.
Ainda existem momentos de bebida excessiva, mas o texto assume tons menos descritivos e reduz a carga pesada de adjetivações cultas. A cidade ganha outros tons, tornando-se um lugar de abrigo para proteger do frio e cenário dos amores que vêm e vão. Além disso, nessa segunda parte, há deslocamentos para outros lugares dos Estados Unidos — como uma floresta na Carolina do Norte ou outras cidades, onde o protagonista pesca mariscos e ganha algum dinheiro.
O envelhecimento deixa as relações menos etílicas. Mesmo quando acontece, a personagem demonstra uma preocupação e uma solidão que sempre paira, em contraste com a cidade e sua dimensão.
“Suttree postado diante de janelas, um rosto errôneo por trás de vidro com catarata, pontilhando pela sombra de cisco e fuligens, o olhar vacante. Observando aquela cidade obscura e prismática ser engolida pela escuridão até ficar reduzida a uma pálida superestrutura elétrica, as passagens e viadutos e pontes delineados na penumbra por lâmpadas que acendiam de repente em toda a sua extensão e os faróis dos veículos perfurando a chuva aprumada e a noite.” (p. 471)
É importante salientar que a mudança de tons e estilos narrativos pode estar relacionada ao próprio autor, encontrando sua dicção. Vale lembrar que o livro começou a ser escrito antes da publicação da primeira obra de Cormac McCarthy e só foi lançado após três romances. Logo, as mudanças observadas podem estar atreladas aos cerca de 20 anos de escrita. Mesmo assim, parece haver algo além disso, relacionado as transformações da personagem ao longo dos quatro anos de sua vida aqui narrados.
Se a cidade é cercada de estranhos, Suttree e seus companheiros, nesse período, encarnam essa estranheza. Os diálogos são curtos e pouco profundos, como se todos tivessem dificuldades de se expressar — seja por questões de classe, seja pela embriaguez constante; eis a questão. Portanto, se a primeira parte é carregada com parágrafos longos, existenciais e descritivos, a segunda é permeada por diálogos curtos, que conferem dinamismo às interações da cidade e demonstram um tipo de conversa funcional nesses espaços, ainda que sem profundidade e com mudanças abruptas de tema.
“[...] Ele está morto?
Não sei. Acho que vieram pegar ele.
Quem veio pegar ele?
Não sei.
Porra, disse Suttree.
Porra mesmo. Nunca fui mão dele.
Foi a polícia?
Pode ter sido qualquer um. Acho que vou ser o próximo. Ninguém se livra.
Com isso eu concordo.
O que aconteceu com o seu barraco flutuante?” (p. 434)
Por fim, não posso deixar de elogiar os caminhos narrativos do romance. McCarthy é um escritor de mão cheia, e nada nesse livro é em vão. Personagens que surgem no início reaparecem no meio ou no final, sem que nada seja esquecido, exigindo do leitor uma leitura atenta.
A tradução de Daniel Galera é muito caprichosa e cuidadosa. Suttree é um romance extenso e robusto, cuja energia é preservada na tradução. É perceptível que estamos diante de uma obra que não trata apenas dos marginalizados de uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, mas do próprio país e das formas como essa sociedade lidava com esses sujeitos na metade no século XX.
Assim, Suttree é uma personagem marcante pela sua singularidade; alguém que não se preocupa com a sobriedade, mas que, ao mesmo tempo, revela inquietações — entre elas, o desejo pelo uísque contrabandeado. McCarthy desenha a cidade e seus estranhamentos, deslocando o holofote que ilumina os grandes letreiros para os marginalizados — moradores da beira do rio, ex-presidiários, pessoas com fome e negros na pobreza. O resultado é um cenário árido, faminto, com cheiro de bebida barata e difícil de esquecer mesmo após o término desse calhamaço.
______
Sutree
Cormac McCarthy
Daniel Galera (Trad.)
Alfaguara, 2025
Alfaguara, 2025
560p.

Comentários