Transgressão, êxtase e sonho: a irrealidade de Max Blecher
Por Felipe Vieira de Almeida
A literatura é uma arte que, me parece, nunca abandona sua essência; é a arte cuja matéria-prima é a linguagem e ainda que se trate de um ponto de partida coletivo me descubro fascinado com usos dessa linguagem que de tão peculiares parecem nos ensinar uma humanidade diferente de nós. Blecher foi um escritor romeno de origem judaica que passou os últimos dez anos de sua vida (dos 18 aos 28 anos) sofrendo com as limitações do Mal de Pott, a tuberculose vertebral, confinado a um leito pela impossibilidade de sobrecarregar sua coluna vulnerabilizada pela doença. Seria uma indiscrição introduzir um autor junto de sua doença, seria se essa doença não tivesse alterado tanto os rumos de sua vida e, por conseguinte, de sua escrita, mas Blecher escreveu com brilhantismo textos intrigantes a partir da posição ingrata em que se encontrava.
Acontecimentos na irrealidade imediata é uma pequena joia da literatura romena publicada no entreguerras e que à época era um texto radicalmente experimental, tanto pela proximidade estética com o surrealismo francês quanto pelo conteúdo erótico abordado com uma abertura incomum. Às voltas com a ascensão do nacionalismo fascista que iria em última instância desembocar nos pogroms de 1941, Blecher ousou publicar em 1936 um livro que narrava os anos de formação de um jovem judeu na Moldávia. Checando minhas anotações vi que li esse livro pela primeira vez em 2016, a edição brasileira é de 2013 e tem tradução assinada por Fernando Klabin e foi publicada pela antiga Cosac Naify — em 2021, a Hedra reeditou o mesmo livro. Nessa década entre uma leitura e outra tive o privilégio de entrevistar diversas pessoas hospitalizadas, muitas delas com restrições severas, ainda vejo essa realidade diariamente e reler Blecher à luz dessas conversas me fez enxergar além do estilo, da agudez intelectual, pude vislumbrar a vida do autor gestando sua abordagem.
A visão literária de Blecher é peculiar no sentido mais estreito da palavra, a percepção dos ambientes e a forma como descreve seu mundo é uma pequena riqueza singular, um pecúlio blecheriano. O narrador parece saltar de uma crise a outra, indo de instabilidades sensoriais a arroubos eróticos, mas mantendo entre esses episódios uma conexão em que se misturam os mecanismos de transtorno. Os móveis de um quarto o seduzem e preenchem o espaço com uma felicidade precária, parceiras que se entregam sob a encenação de uma indiferença, Blecher injeta vida no inerte e subtrai autonomia ao humano para criar uma tênue fronteira onde ambos podem se aproximar e, ainda que não se tornem iguais, provocam as crises sensoriais e psicológicas do narrador.
Por outro lado, Max Blecher demonstra como o mundo em que vivemos é em grande medida construído por nós mesmos; os estados alterados de consciência do personagem se tornam estados alterados da realidade, compõem a irrealidade imediata em que mergulha o narrador. Exige pouco imaginar que Blecher, acamado e com pouca mobilidade no auge da sua juventude, tenha vivido longas horas em um cenário de cada vez, observando por horas a fio detalhes ínfimos e se perdendo em pensamentos na década final de sua vida. Arrisco supor que essas experiências tenham lhe oferecido o material bruto do qual pôde surgir um livro como Acontecimentos na irrealidade imediata. É notável como Blecher consegue deslindar alterações psicológicas sutis contra um plano de fundo que beira o tédio. Em muitos trechos a narrativa desacelera quase até a pausa e o narrador repensa o que via, repensa seus atos, repensa até o que pensava no momento do ato; há algo aqui que parece rotineiro ao escritor, uma compreensão de longos dias de observação silenciosa, mas ativa.
Entremeando ambiente que é uma extensão de si e a subjetividade que contamina a cena, Blecher constrói uma terceira comunicação de estados interiores, a experiência erótica compartilhada. No livro, o próprio vício é uma irrealidade sendo dissimulada, subentendida entre personagens diferentes e se desenvolve de forma subreptícia, meio conspiratória. Clara se entrega metodicamente e com indiferença ao ato sexual, Walter o seduz com um desafio ambíguo, o próprio narrador se entrega a arroubos sempre com a sensação de ser observado, ora por um rato que é na verdade seu médico, ora um bully que viu seus excessos com uma colega em um beco escuro, beco esse que, depois, o narrador fica em dúvida se era realmente escuro ou se tinha sido uma indiscrição feita às claras.
O erotismo nesse livro, reafirmo, é um impulso irresistível sobre o qual o narrador se debruça posteriormente analisando seus pormenores. Nesse aspecto, Blecher seria como a maioria, mas a análise à qual se dedica é um inquérito não só do conteúdo de cada experiência, ele vai ao extremo de analisar se aquilo que o narrador viveu e lembra de ter vivido aconteceu como diz a memória e não raro termina incerto de ter vivido o que se lembra.
Em um texto curto para a internet é sempre arriscada a tentativa de reduzir para caber, adaptar a mensagem ao meio. Nesse caso, Max Blecher não pode ser reduzido a um autor acamado. Seus livros, a coragem de ter o que falar sendo quem era na época em que vivia e a intensa correspondência com importantes intelectuais de sua época dão conta de uma vida enorme que não cabe em poucas frases. O próprio autor talvez tenha dado conta de sua situação, que em certa medida é também a de todos nós:
“Sua vida foi assim e não de outra maneira”, diz a lembrança, e essa frase engloba a imensa nostalgia deste mundo fechado em suas próprias luzes e cores herméticas, das quais nem mesmo uma vida tem permissão de extrair nada senão o aspecto de uma banalidade exata. Ela engloba a melancolia de ser único e limitado num mundo único e mesquinhamente árido.”
______
Acontecimentos na irrealidade imediata
Max Blecher
Fernando Klabin (Trad.)
Hedra, 2023

Comentários