Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Nelson Rodrigues

O não-dito no romance Asfalto selvagem

Imagem
Por Amanda Fievet Marques Nelson Rodrigues Foto: Adalberto Diniz As personagens de Nelson Rodrigues, que encontramos sempre arremessando-se umas sobre as outras, crispadas, hirtas de medo ou de fé, trôpegas, sôfregas, são frequentemente tomadas por paixões. Paixões terríveis, capazes de levar à ruína e à loucura; paixões nostálgicas, em que se rompem os diques do passado e o presente é súbito inundado de desejo; paixões de domínio, paixões religiosas, paixões incestuosas, pervertidas, obsessivas, transgressoras. No romance Asfalto selvagem , publicado inicialmente como folhetim no jornal Última hora , e depois em dois volumes, em 1961, pela editora J. Ozon, há toda uma proliferação e dramatização das paixões humanas, essas comoções que tocam “até as raízes do ser” (Rodrigues, 1994, p. 43), em seu longo e variado espectro.* O notável, no entanto, é que, o mais das vezes, a consumação dessas paixões se exprime por um não dito, uma elipse, uma nomeação indireta.  Na primeira parte,...

Nelson Rodrigues, grande autor em língua portuguesa: análise de uma crônica de futebol

Imagem
Por Amanda Fievet Marques Nelson Rodrigues. Arquivo Nacional.   Publicada na Manchete Esportiva , em 4 de fevereiro de 1956, a crônica “Rigoletto de lança-perfume” sintetiza em seis parágrafos os motivos pelos quais se pode afirmar que Nelson Rodrigues é um grande autor em língua portuguesa, ou em “brasileirês”, ou ainda, em “carioquês”. A inserção de gírias, termos e expressões populares aliados a estruturas literárias como a da máxima moral, e a procedimentos literários como a metáfora, a antítese, a sinestesia, a paranomásia, concorre à afirmação de que a idiossincrasia, a especificidade do estilo literário de Nelson Rodrigues reside justamente no hibridismo entre registros da língua portuguesa, com destaque para as variações do português falado no Rio de Janeiro, e para a mobilização de elementos visuais e táteis, o que torna sua linguagem extremamente sensorial.   No primeiro parágrafo dessa crônica, Nelson relata uma cena que ele teria assistido no dia anterior, no cora...

Nelson Rodrigues contra a moral e os bons costumes: "Álbum de família"

Imagem
Por Alfredo Monte Após o sucesso, em 1943, aos 31 anos, com a montagem clássica de Ziembinski de  Vestido de noiva , Nelson Rodrigues (1912-1980), no mesmo período em que produzia folhetins de galopante sucesso ( Meu destino é pecar , Escravas do amor , Núpcias de fogo ), sob o pseudônimo Suzana Flag, escolheu um caminho suicida, por assim dizer, no teatro, escrevendo quatro peças desafiadoras e radicais 1 , das quais só uma não foi interditada pela censura ( Doroteia ). Das outras três ( Álbum de família , Anjo Negro , Senhora dos Afogados ), a que permaneceu censurada por mais tempo foi a primeira. Escrita em 1946, foi liberada apenas em 1965 (e montada apenas em 1967)! Não era para menos, se atentarmos para a “moral” da época. Num horizonte dramatúrgico, onde avultavam as comédias e dramalhões edificantes, e no qual  Vestido de noiva  já representava uma experiência audaciosa e revolucionária, uma peça em que todos os personagens são ...

Nelson Rodrigues e A vida como ela é

Imagem
Nelson Rodrigues pode ser designado como um famoso dramaturgo, cronista, jornalista, romancista – encoberto sob o pseudônimo feminino de Suzana Flag –, polígrafo, moderado pornógrafo e amante do futebol. Tantos depois, o mundo segue redescobrindo sua obra enquanto no seu país ainda segue como um desconhecido de leitura necessária; A vida como ela é , por exemplo, foi traduzida pela primeira vez para o espanhol agora em 2015. Obra significativa (para não dizer a mais significativa) de Nelson.  Retrata os hábitos amorosos da sociedade carioca dividida em duas classes sociais distintas: há peças que tomam como foco os mais abastados; outras, os marginais, aqueles sequer podem alimentar seus filhos. Mas, em grande parte, Nelson foi um observador contumaz da classe média; em A vida como ela é  mesmo, a maioria das vezes o centro de atenção se situa aí. E outro detalhes: há, sobretudo, um trânsito fluente entre classes – como foi representado pela literatura des...

Narciso às avessas, que cospe na própria imagem

Imagem
Por Nelson Rodrigues Nelson Rodrigues a postos para mais uma partida com o time pelo qual era capaz de tudo: o Fluminense. Hoje, o meu personagem da semana é uma das potências do futebol brasileiro. Refiro-me ao torcedor. Parece um pobre-diabo, indefeso e desarmado. Ilusão. Na verdade, a torcida pode salvar ou liquidar um time. É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: — o torcedor está por trás, dispondo. Escrevi acima que o torcedor não é um desarmado e provo. De fato, ele possui uma arma irresistível: — o palpite errado. Empunhando o palpite, dá cutiladas medonhas. Vejam o primeiro jogo com os paraguaios. Vencemos de cinco e podia ter sido de dez. Fizemos do adversário gato e sapato. Ora, para uma primeira apresentação foi magnífico ou, mesmo, sublime. Mas quando saí do Maracanã, após o jogo, vejo, por toda parte, brasileiros amargos e deprimidos. Mais adiante, esbarro num amigo lúgubre. Faço espanto: — “Mas que cara de enterro é essa?” O amigo rosna: ...

Os 100 anos de Nelson Rodrigues

Imagem
Fecha-se hoje o primeiro centenário de Nelson Rodrigues. Autor de uma leitura das mais coerentes do Brasil contemporâneo, também foi ele, segundo a professora Bárbara Heliodora, uma das maiores autoridades no país na do dramaturgo inglês William Shakespeare, o inventor do teatro moderno brasileiro. Nelson foi ao centro nervoso da nação, descreveu como ninguém a família brasileira e soube ver todos os colapsos não como uma patologia, mas como uma macabra necessidade humana ou ainda como aquilo que nos define enquanto humanos.  Pela passagem da data recuperamos aqui dois vídeos que melhor dizem de Nelson. O primeiro, que está dividido em três partes, é a clássica entrevista concedida a Otto Lara Resende para a TV Globo em 1977. Embora seja uma das entrevistas mais citadas nas conversas de blog, é justo recuperá-la por duas razões: antes, Otto é um gentleman  das perguntas. Não se perde nas deambulações dos entrevistadores de hoje que querem mais chamar atenção com seus ques...

Ainda há centenários em 2012

Imagem
O escritor Lúcio Cardoso e a atriz Maria Fernanda. Registro de provavelmente 1949, quando o escritor fazia filmagens em Niterói, Rio de Janeiro, para um filme que ficou incompleto, mas foi recuperado agora pelo cineasta Luiz Carlos Lacerda. Foto: Ruy Santos. Passado os 100 anos de Jorge Amado feitos no último dia 10 e muito bem servido de comemorações, diga-se, e ainda haverá muitas outras ainda. Veja uma prévia por aqui . Ainda há e neste mês de agosto, dois outros escritores que estão também fechando um século. Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues. O primeiro está perfazendo a data hoje. Num ano de tantas celebrações em torno de nomes muito bem conhecidos, o de Lúcio ainda é pouco lembrado pelos brasileiros. Mas uma campanha encabeçada na cidade em que escritor nasceu, Curvelo, Minas Gerais, quer torná-lo figura que seja lembrada por lá e pelo Brasil, já que as atividades em torno do nome de Lúcio não se restringirão apenas à cidade mineira. E é merecido. Exemplo disso é a...

Jorge Amado e Nelson Rodrigues para as telas (parte 2)

Imagem
Nelson Rodrigues visita o  set de filmagens de Os sete gatinhos  nos anos 1970. Foto: Arquivo Globo. Depois de listarmos aqui  alguns dos principais filmes produzidos a partir da obra de Jorge Amado, fazemos a segunda parte, agora, com as obras produzidas a partir da literatura de Nelson Rodrigues. Dica: intercalar um filme desses com os da lista anterior durante a proposta maratona de agosto.  1. Meu destino é pecar , de Manuel Pelufo (1952). Este filme é baseado em texto homônimo que Nelson Rodrigues publicou assinando com o pseudônimo de Suzana Flag. Depois da produção para o cinema, também chegou à televisão; foi adaptado por Euclydes Marinho para ser uma minissérie na Globo. 2. Bonitinha mas ordinária , de J. P. de Carvalho (1963). Foi a primeira versão da peça para a sétima arte. Conta também com mais duas adaptações, uma em 1981, e outra em 2010. A melhor é a segunda, com Lucélia Santos. Como muito do teatro rodrigueano, a peça também foi adapta...

Jorge Amado e Nelson Rodrigues para as telas (parte 1)

Imagem
Jorge Amado e Cacá Diegues em filmagens de Tieta , em 1995. Agosto é mês de ler Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Não é que haja meses específicos para ler determinados autores. Não. É que agosto é o mês em que os dois escritores brasileiros estão aniversariando. E os dois fazem o seu primeiro centenário: Jorge, no próximo dia 10 e Nelson, no dia 23. Agora, é verdade que os dois produziram uma vasta obra. Se tirássemos o mês inteiro, e olhe que agosto tem um dia a mais porque é mês de 31 dias, com dias integrais para leitura, não esgotaríamos a totalidade de suas produções. Mas, como os dois são os escritores mais adaptados para o cinema e a TV – segundo levantamento de José Geraldo Couto para o Blog do Instituto Moreira Salles são vinte longas adaptados a partir da obra de Nelson Rodrigues contra dezessete a partir da obra de Jorge Amado, até agora –, fomos, com base nos dados fornecidos, à cata de alguns deles para duas coisas: antecipar e dar um empurrãozinho nas nossas l...

Nelson Rodrigues

Imagem
"Não sou pornográfico. Pelo contrário, me chamo de moralista. O único lugar onde o homem sofre e paga pelos pecados é em minhas peças." Assim se pronunciou Nelson Rodrigues. Mas, o epíteto de anjo pornográfico não se desfez e chegou mesmo a intitular uma biografia escrita em 1992 por Ruy Castro. Hoje, o escritor integra a galeria de um dos mais importantes dramaturgos que a literatura brasileira já produziu, se não for engano e exagero, o único. O drama da existência humana enxergado pelo prisma da morbidez foi o que mais explorou, o que mais o destaca nesse cenário e, talvez por isso, aquele que melhor viu a sociedade por aquilo que ela é: um bem moldado arcabouço que esconde atrás de si aquilo que realmente seus habitantes são. No mês de agosto deste 2012 marca o primeiro centenário de Nelson que nasceu no Recife; ocupa ainda o lugar de um escritor por ser descoberto, uma vez que, muito tardiamente foi que se gestou um público que vê no seu trabalho uma riqueza ...

Este ano também é de Nelson Rodrigues

Imagem
Nelson Rodrigues. Foto: Cedoc/Funarte Se em 2012 já colocou na lista de autores brasileiros a serem celebrados Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade - ambos com uma célebre programação a rodopiar por todo o país - não pode deixar de acrescentar o nome de um dos maiores dramaturgos que por aqui viveu. Ora, efeméride importantíssima! Nelson Rodrigues chega ao seu primeiro centenário. O dramaturgo nasceu no dia 23 de agosto de 1912, no Recife, em Pernambuco. A princípio, destaque para o silencioso trabalho de Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas que conduzem o projeto de tradução para o espanhol e para o inglês da obra teatral do escritor pernambucano.  Ainda no que diz respeito a sua obra, a editora Nova Fronteira pretende renovar o contrato para a publicação de novas edições de peças como Vestido de noiva , A mulher sem pecado , Álbum de família , Toda nudez será castigada , Senhora dos afogados , entre outras.  Uma boa seria a publicação de algumas coi...