Ler Kadosh e entender Kadosh é ser Kadosh
Por Felipe Vieira de Almeida
Na tela do Cinema da Praça em Paraty, Hilda ganhava vida buscando contato com os mortos, vagando pela chácara em Campinas que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. Uma senhora HH, encarnada pela atriz Luciana Domschke, com microfone, fones de ouvido e gravador tentava detectar alguma frequência de origem incerta. O título do filme de Gabriela Greeb é um acerto: Hilda Hilst pede contato. Lembro de ter conhecido os livros de Hilst poucos meses antes do anúncio da Flip 2018, àquela altura tinha lido com sede tudo que estava facilmente acessível nas livrarias e até garimpado alguns títulos fora de impressão em sebos. Ainda estava sob forte influência dessas leituras quando a a organização do evento de Paraty anunciou HH como homenageada naquele ano e me vi obrigado a ir, Hilda pedia contato.
Hilda Hilst ainda é mais conhecida do público geral por sua obra dita despudorada que é, quando lida superficialmente, resumida a algum tipo de pornografia, porém HH é uma escritora que entrega um robusto processo criativo e intelectual. Poética, mística, filosófica, dramaturga, cada rótulo joga luz em uma de suas facetas, mas se esgota sem dar conta da voltagem de um trabalho literário que transbordava para sua vida pessoal e se produzia do transbordado de sua vida. Hilda viveu suas preocupações intelectuais, desde sua ida para o interior de São Paulo atribuída à influência literária de Nikos Kazantzákis, até suas experiências com captação de áudio em busca de comunicações com os mortos. Talvez justamente por viver como podia aquilo que escrevia há quem torça o nariz para a pecha de misticismo e sobrenatural que nunca fica longe de qualquer discussão sobre a autora e sua obra. Entretanto, assim como seus personagens principais, Hilst buscava comunicação e se dedicou plenamente a isso, segundo suas próprias palavras ao falar da leitura de Carta ao Greco de Kazantzákis:
“Eu o li e fiquei deslumbrada. Era um homem que ficava lutando a vida toda até terminar de uma maneira maravilhosa, escrevendo um poema de 33 mil versos, A nova odisseia, onde lutava com a carne e com o espírito o tempo todo. Ele desejava ao mesmo tempo esse trânsito daqui pra lá. Era o que eu queria: o trânsito com o divino. E também o trânsito com o homem e todas as maravilhas da vida, o gozo físico, a beleza física do outro. Era um consumismo meu, absolutamente terrível, porque ofendia muito as pessoas. Eu me impressionei tanto com a caminhada desse homem admirável, que resolvi ir morar num sítio.” (Entrevista — Hilda Hilst)
Kadosh, título do livro de Hilda Hilst composto por quatro textos diferentes em prosa é também adjetivo/substantivo cuja raiz gera múltiplas palavras essenciais da tradição hebraica. A chave de leitura mais direta para título do livro é a relação entre os termos “sagrado” e “separado” que vêm dessa origem comum. Kadosh é também nome de um dos personagens além de palavra representativa de um arco maior de investigações da autora. O que vemos tanto neste livro quanto no conjunto de sua prosa é uma busca metafísica incessante que esgota possibilidades sem receber ou produzir qualquer tipo de resposta às suas inquietações.
Seus personagens encenam repetidamente a agonia do pedido de contato ao vazio, sentimento que Hilda compartilhava tanto como escritora cuja obra não tinha o alcance que ela gostaria quanto como experimentadora em busca de comunicação com o sobrenatural. Kadosh, Agda e o velho do calcanhar ferido, personagens narradores do livro, compartilham a agudez de espírito e a dedicação neurótica a temas recorrentes de cunho sagrado, religioso e místico, indo até o paroxismo da linguagem onde não se pode mais comunicar a angústia nem tampouco continuar o mergulho sem que surjam respostas. E em sua honestidade crua repetidamente manifesta na forma de humor negro e ácido HH nunca cede à tentação de oferecer aos leitores respostas que ela mesma nunca recebeu.

Para nossa intelectualidade contemporânea que se especializa em enquadrar pessoas em categorias de identidade, surge um desconforto cada vez maior ao lidarmos com movimentações que borram fronteiras, diria até mesmo que há certa resistência a sairmos de nossas posições por um medo de ao nos passarmos por outros, ao permitirmos que ideias alheias sejam manuseadas nos encontremos perdidos, arriscados ou cooptados.
Vivemos autocentrados demais e estranhamos quando alguém se permite transitar em terrenos estrangeiros. Porém essa preocupação em ocupar nosso lugar com afinco é também o mecanismo básico da incapacidade comunicativa, é o oposto das preocupações de Hilst que buscou justamente levar a linguagem aos seus limites finais lá onde a tentativa de comunicação se esgota em um silêncio, porém com um desejo intenso de se aproximar para além da banalidade do dia a dia e também do intelectualismo limitante que é tratado com ojeriza recorrente em seus livros, reaparecendo em Kadosh.
“Tem, como se diz, uma cultura generalizada. Isto é, pensa que sabe. Assim se de repente falardes sobre o núcleo, ele dirá ah sim, urânio 238 é o maior núcleo natural. E a conversa não vai adiante porque não era de tal núcleo que faláveis. É a cultura generalizada. Ainda que pareça específica. Ai ai, a nudez das palavras. Despojá-las de tudo. De ambiguidades. A minha própria nudez. Carrego ainda assim tantas coisas comigo.” (Hilst, 2012, p. 189)
Ao longo de sua vida Hilda Hilst fez referências diretas e indiretas à obra de Georges Bataille, autor francês que escreveu sobre muitos dos temas centrais de Kadosh, entre eles a questão do sagrado, erótico e místico. Importa lembrar que o próprio Bataille se declarava ateu, mas Hilda falou em múltiplas oportunidades de sua proximidade literária e filosófica com Bataille. É interessante apontar essa convergência pois há aqui duas pessoas que se encontram em posições opostas diante das sensibilidades místicas, mas convergem não só em investigação como em conteúdo e a razão disso o próprio Bataille perscrutou: “[...] só a arte herda hoje, sob nossos olhos, o papel e o caráter delirantes das religiões: é a arte hoje que nos transfigura e nos rói, que nos diviniza e faz pouco de nós, que exprime por suas mentiras pretendidas uma verdade vazia, enfim, de sentido preciso.” (Bataille, 2024, p. 111)
Das muitas riquezas que a literatura tem a oferecer, essa comunicação profunda com alguém que talvez já nem esteja vivo é uma das mais valiosas, pois quando temos a sorte de esbarrar com um livro que nos toca somos validados como humanos e deixamos de ser sozinhos com nossas preocupações, outros já viveram as delícias e as dores de serem como nós. Não surpreende que uma mulher que buscou intensamente na literatura um meio de comunicação tenha também extrapolado seus anseios para rádio-frequências e outros métodos. O velho na praia mergulhado em seu masoquismo inerte ainda cede ao contato, ainda se entrega à comunicação não como diálogo, cede em realidade à energia compartilhada de dois seres que se tocam mesmo quando não podem se compreender plenamente.
“Sempre que o menino vai buscar a pomada acho que ele não vai voltar mais, não que eu tenha muita coisa a dizer para o menino, falamos pouco, mas há qualquer coisa nele que me agrada, não é isso dele me fritar o peixe nem de pôr pomada, não é isso, essas coisas até me aborrecem, eu posso comer o peixe cru e as canelas podem apodrecer, não me importo, bem, não é isso, me importa um pouco sim. Não deve ser nada bom. O que me agrada no menino é o jeito dele dizer a cada dia: porra, velho, você nunca vai se mexer? Isso me agrada e talvez por isso não me mexa.” (Hilst, 2012, p. 135)
A solidão de Agda, Kadosh e do velho da praia são nosso quinhão comum, o que pode haver de revolucionário e feliz está além de nós mesmos. Em Kadosh, Hilda Hilst esgota a linguagem e não recebe respostas, seus personagens se angustiam numa busca sem fim, mas essa depleção é também um passo a mais de uma tradição literária na qual ela se colocou como incontornável e, ainda que isso não signifique que a resposta uma hora virá, significa sim que a comunicação acontece quando outros Batailles, outras Hildas, enfim, quando encontramos espaço comum para nos inquietarmos juntos. Ler Kadosh e entender Kadosh é ser um pouco Kadosh.
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