Teofonia pombalina

Por Eduardo Galeno


Planta do século XVIII na missão de São Miguel Arcanjo, redução jesuíta
no Rio Grande do Sul. Domínio público.





Ante 

Na prática letrada setecentista, Basílio da Gama ocupa um lugar específico. Perseguido juridicamente pelo Estado português assim como Gregório de Matos pelas autoridades da Bahia, isso mesmo o faz ser uma figura muito central para explicarmos as contradições entre um homem formado pelos jesuítas, principal corpo político inimigo de Portugal no meio do século XVIII, e um súdito subordinado às leis divinas da teologia imbricadas nas leis civis pró-Coroa. O que se pode obter, na tarefa de elucidar uma questão que não é só histórica mas igualmente poética, é que seu continente é o conteúdo público, se for para falar assim. A raiz neoclássica poderia fantasiar já com o corte do valor de troca? Possivelmente: no acordo de virada da segunda modernidade e no seu protesto à metafísica aristotélico-tomista, a porteira da novíssima poesia se abriria para os princípios de um eu autonomizado (basta ler as liras de Tomás Antônio Gonzaga à Marília). Porém, tudo está ainda longe do que geralmente se propõe a dizer a respeito do épico O Uraguay. A meu ver, não passa de breve asterisco do desenlace de passagem entre fórmulas em que, por sinal, a obra está no lugar. 

Gama, membro da Academia da Arcádia nos anos anteriores ao poema, representaria o cameralismo pombalino, um iluminismo conservador — sem democracia, liberalismo e razão republicana —, na função da poesia lusitana. A epopeia conta, no recinto, em três frentes diferentes, encaixotando, no entanto, uma única ideia: a defesa a Basílio diante do encalço imperial, a narração aguda do verso e o relato da guerra guaranítica apontam no diretamente à governança do Marquês de Pombal. A façanha legitima a destreza da estrutura retórico-poética do ancien régime, que instrui, emociona e persuade o ouvinte/leitor. A proposta é inserir esses códigos de conduta aos códigos semióticos do poema. Basílio, antes de ser o do nome próprio, é poeta e, principalmente, segue a autoridade que é básica à poesia. 

Daqui a disciplina da retórica funde a esperança política ao ato de focalizar a composição. Em outros termos, a substância ali é única. O real é o que está disposto à comunidade em sincronia, como diz Pécora, cuja essência não tem por que desligar as duas esferas. 

Composto em cinco cantos, em metrificação branca e ritmo direto sem estrofes, a heroica tenta verter a história da invasão dos exércitos dos reinos de Portugal e Espanha na região dos Sete Povos das Missões. O Tratado de Madrid, que repartia as terras na beira-rio, é então a força de fora que dá sentido e razão ao texto, escrito anos após o evento. No limite, a conclusão do épico somente suporta a adesão total a um elogio da jurisprudência. Daí temos a paridade, de um lado, da luz do direito, e do outro um exemplo de expressão da boa poesia. 

Canto I: o voo de Portugal 

O poema é apresentado, antes do canto primeiro, por uma epígrafe de Virgílio e um soneto dedicado a Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda conde de Oeiras, retomando suas artes e feitos: o combate moral à hipocrisia, a reconstrução de Lisboa, a evolução do comércio. Poderíamos supor que a parte pré-dramática já lança a sorte de Basílio, pois ambos apreendem e jogam com o exórdio epidíctico.  

O louvor à ação sustentada tanto pelo ilustríssimo e Herói perfeito do proêmio quanto pela entrada do general Gomes Freire de Andrade no canto são o ultimato do estabelecimento do debate. A demonstração, explica Brunetto Latini, ou aumenta ou diminui a capacidade de alguém. Nela são formados dois tipos: geral e individual. Já falado: no nosso caso, a honra é de dois principais nomes, concretos historicamente. Mas é a Andrade, esperando a ajuda espanhola, que o heroísmo português começa de fato no enredo. Andrade, in media res, não vacila em afirmar a rudeza daquele povo e a baixeza dos jesuítas, o fim civilizatório a que se contém.

Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa entanto
Acostumar ao voo as novas asas
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.

O discurso se monta a partir das verdades portuguesas de ordem e a ordem enumera a sua violência inerente. Na elevação do voo da águia no novo mundo, o poder régio sofre e faz sofrer. O panegírico reverbera a prudência e as virtudes que podem sair desse momento, já que evidencia a querela que é central no eixo da história. 

Canto II: diálogo e artilharia  

Continuando, o general Andrade, sob a pena de Basílio, é herdeiro da tópica camoniana das armas & letras. A causa da guerra não é vã. Ela precisa estar calcada num modelo moralizante. Para matar e para se alinhar ao motivo guerreiro, a necessidade pura do assassinato não é defendida, mas a excelência do critério ético. E o que, senão o diálogo, a palavra, determina isso?

Torna-lhe o General: “Tentem-se os meios 
De brandura e de amor; se isto não basta, 
Farei a meu pesar o último esforço.”

Da pronúncia indígena, comandada por Cacambo e mais forte por Sepé, Andrade explora o humanismo da justiça: deu liberdade e adorno aos índios prisioneiros e a chance de serem perdoados. E o que ganha, segundo a linha romanceada, é o ódio por parte do líder autóctone guarani: “Enfim quereis a guerra, e tereis guerra”. O gênero do diálogo funciona aqui igual a um aporte de definição dos homens bons e dos homens maus, dos superiores e inferiores. Corrompido pelos missionários, Sepé se declara irracional, enquanto o líder ibérico encarna a síntese do saber (ele entrega espada e arco aos adversários: gesto coerente ao sumo da ideia de excelência).

Guerra justa é o comando natural: o diálogo assenta a superioridade régia e legitima o subjugamento. Numa platologia, a forma dialógica encerra, em primeiro grau, disputa e, em segundo, vitória argumentativa sobre o oponente. Portugal vence aí e o que se segue no canto II é epíteto, logo logo com o céu desabando sobre a cabeça dos rebeldes. 

Canto III: visão

Gama toca o véu do maravilhoso com a entronização da vista pagã de Tanajura. A saída é, pois, conveniente ao fundo poético que incita o extraordinário dentro de sua via: o épico só pode ser sobrenatural. 

A maravilha na epopeia é mais fácil de ser crida do que a maravilha trágica. Desse modo, as profecias da superstição da anciã deslocam a história do futuro rumo ao pretérito e ao presente, onde se vê 

A pintada Serpente, obra e trabalho 
Do Novo Mundo, que de longe vinha 
Buscar as nadadoras companheiras 
E já de longe a fresca Sintra e os montes, 
Que ainda não conhecia, saudava.
Impacientes da fatal demora 
Os lenhos mercenários junto à terra 
Recebem no seu seio e a outros climas, 
Longe dos doces ares de Lisboa, 
Transportam a Ignorância e a magra Inveja, 
E envolta em negros e compridos panos 
A Discórdia, o Furor. A torpe e velha 
Hipocrisia vagarosamente 
Atrás deles caminha; e inda duvida 
Que houvesse mão que se atrevesse a tanto.

A simbologia da nau Serpente nos dá a exatidão do contrário (os tais lenhos mercenários que Pombal implica em reformar junto ao feitio da renascida Lisboa). Exige a medida de imagens no modelo: se Basílio usa a religião do índio de meio, as metáforas alegóricas, com as iniciais maiúsculas, não podem ser mais deuses em vícios, mas os próprios vícios personificados. 

A invenção (inventio) no trecho é vazada na presença da crítica à Companhia, que em versos posteriores descamba no Fanatismo. É de interesse notar, na convergência teórico-prática, o hábito de Boileau no Uraguay: todos os monstros se transformam numa bela pintura, sugere a preceptiva. 

Canto IV: pena a suave e honesta Lindoia 

O penúltimo livro fica ainda mais pavimentada a presença da denúncia. A história rivaliza, de fato, a Coroa e os inacianos, preservando a sacralidade daquela no achatamento destes. Nessa briga, Basílio da Gama não esconde a adesão aos princípios pombalinos: para o poema, a culpa da animosidade nos nativos é do círculo degenerativo que os conduz. A morte de Lindoia, após Cacambo, surge no núcleo da épica. Na minha opinião, o esforço que protagoniza o veneno da serpente é a tópica do fogo do demônio amoroso, provindo de Plotino (o Amor é como um aguilhão, disse em um tratado), cuja ascensão nesse tipo de gênero é basilar. Na história do herói, há sempre pequenas outras histórias, às vezes explícitas como a paixão dos índios do Uraguay. A fusão com a tópica da pauvre beauté entorna. 

À causa da terra arrasada, realização do padre Balda, a reação encontra nos olhos do general a triste vista que “lhe encheu o peito de ira, e os olhos de água”. O patetismo do canto IV é a dianteira que torna Andrade rever e experimentar a traição que a Companhia de Jesus deu à nação guarani. O evento é tão forte que até o português da metrópole, e militar de alta patente, sente. Em nome das autoridades e da própria Igreja, a fraca e inocente Lindoia precisaria de redenção. Nisso a beleza terrena antecipa a beleza arquetípica do porvir, que vem com a queda da República jesuítico-guarani. 

Canto V: conta a glória
 
Para validar as suas palavras anteriores, Basílio utiliza de algumas regras da peroração. Com o caráter pungente do narrador, a influência maléfica dos jesuítas nos reinos que vão da Amazônia ao Japão vê a si desnudada. Esse exercício serve para pôr todo o feito diante do julgamento, sendo alinhado o dito numa única força. A atividade dos padres da ordem católica se mostra vacilante, incapacitada, mantida ao desprezo, ao vitupério e à detestação. Gama exemplifica as “dádivas corruptoras” e os “agudos ferros que gotejam sangue” para nomear a Coroa portuguesa inteiramente dentro da escolta virtuosa e, claro, sua antagonista no círculo vicioso.

A caridade de Andrade pulula ao redor da narração como ação engenhosa e exemplar: o vínculo da ira se retira do espírito americano e ele enfim se prostra, reconhece a autoridade do rei, porque o general invicto traz a luz do esclarecimento.

Entra no povo e ao templo se encaminha 
O invicto Andrade; e generoso, entanto, 
Reprime a militar licença, e a todos 
Co’a grande sombra ampara — alegre e brando 
No meio da vitória. Em roda o cercam 
(Nem se enganaram) procurando abrigo 
Chorosas mães, e filhos inocentes, 
E curvos pais e tímidas donzelas.

É nesse decaimento que o curto texto de Gama escreve uma apologética que consome o dispositivo discursivo de Pombal. O potentado recebe a reverência e os vencidos o escárnio. “Paz, Justiça, Abundância e firme peito” são dados ao regime da vida indígena e também ao esmero do reino, outrora envenenados pelos descendentes de Loyola. Andrade traz a benevolência e prova a superioridade da ratio do despotismo. 

Post

A arte basílica se encaixa instrumental pelo norte da ratio studiorum, incluindo no bojo de preceitos, por outro lado, as modernas poéticas neoclássicas. Nós podemos afirmar que ela não escapa do positivo que o artesanato da épica prescreve. 

Explicamos assim: Aleijadinho, que ainda seguia os modelos dos Antigos, não poderia jamais fugir das enunciativas do fazer bem na escultura. A lógica em Basílio é a mesma (com fundo novo, porém). Ele subtrai a política jesuítica, mas salvaguarda a sua técnica com um misto (economia ilustrada e humanismo da segunda escolástica). 

Contra Candido e Bosi, que supuseram exterioridades à empresa retórico-cortesã (estando certos no sentido, pecando apenas na forma de dizer), Uraguay rodeia a ficção luso-brasileira não na suposição da nação (Vieira, por exemplo, já tinha a dignidade dos povos da América no horizonte dos seus sermões), muito menos vagueando um estilo pré-indianista (as cartas estão na mesa: o poema é Camões com pitadas modernas), e sim na tarefa de inventar a própria ficção. 

A sanha criativa repousa, naturalmente, na nova aetas virgiliana, que viveu a transição do governo. Na bucólica IV, o romano exprime o pacto messiânico que dá luz a “este menino/ que, primeiro, verá a férrea idade/ sumir do mundo logo vindo a de ouro”. Pombal tem o papel cumprido na expectativa de paz que Uraguay clamou. São os elementos da sua teofania que nutriram o livro para configurar no meio dos cânones, elementos conjurados pela disposição do poeta árcade na intimidade da consciência temporal. 

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