A morte do girassol

Por Juliano Pedro Siqueira


E tudo, mesmo a negra cor,
Parecia polido, irisado;
O líquido engastava a glória
Naquele raio cristalizado.

— Baudelaire, As flores do mal


Van Gogh. Autorretrato com chapéu de palha, 1887.


A história de um grande homem nem sempre dialoga com sua arte. Repleta de infortúnios e contradições, a vida de Vincent Van Gogh foi mergulhada em turbilhões de sentimentos obscuros, radicalmente contraproducentes às flamejantes cores reproduzidas em suas pinturas. Paralelamente às pinturas e desenhos, ele arriscou algumas profissões em resposta às cobranças familiares. A exemplo, quando foi enviado missionário, em 1879, ao vilarejo de Borinage, para pregar aos pobres mineradores. Contudo, em pouco tempo, fracassou miseravelmente, sendo destituído do ordenamento. 

Vincent se considerava o degenerado da família. Aquele que atraía sobre si toda sorte de agouro, de modo que todos em sua volta acabavam inevitavelmente prejudicados. Foi o que ocorreu quando conheceu Paul Gauguin, em Paris, no final do ano de 1887. Ambos tentaram conviver numa pequena pensão destinada aos artistas do movimento impressionista; mas, logo a amizade que parecia florescer deu espaço a inúmeras contendas, culminando na ruptura trágica, quando o artista holandês, desesperado, atentou contra si mesmo, decepando a própria orelha. A partir deste episódio, ele nunca mais foi o mesmo homem e artista; passou a perambular entre cidades, campos e manicômios, a fim de encontrar um refúgio para conter sua natureza indomável e incompreendida.   

Seu irmão, Theo, o único amigo e fiel escudeiro — documentado nas cartas trocadas entre os dois —, não apenas sustentava-o, mas acreditava no seu potencial artístico. Ainda que se esforçasse para divulgar os trabalhos do irmão no seu ateliê, não seria o bastante para fazer de Vincent, um artista reconhecido. A estranha sorte que a única vez o visitou, veio por meio de um artigo bombástico, escrito por um jovem entusiasta, Albert Aurier. Aurier, crítico de arte, poeta francês e apaixonado por Baudelaire, tomou conhecimento dos trabalhos de Van Gogh, identificando em suas cores vivas, algo de malogrado e transgressor. Atraído por figuras marginais, Aurier resolveu escrever, em 1890, um artigo elogioso (o único em vida) sobre a obra do artista. Quando a notícia chegou até ele, recebeu de forma tímida, pois a vida parecia já o ter decepcionado bastante para crer numa fama tardia. 

Como um lampejo, em 19 de março de 1890, as obras de Vincent foram expostas no Pavilhão da Ville de Paris do Champs-Élysées, ao lado de grandes nomes da arte, como Cézanne, Renoir e Toulouse-Lautrec. Foi a primeira vez que seus trabalhos ganharam destaque e menção elogiosa por parte do público e da crítica. O famoso artigo de Aurier foi um divisor de águas na vida de Vincent, que vivia atormentado por seus demônios, tentando, desesperadamente, expulsá-los através da arte. Mas a fama que parecia alcançá-lo, mais uma vez, o arrastou para um episódio trágico. 

Vincent permaneceu na Auberge Ravoux, em Auvers-sur-Oise, na esperança de encontrar inspiração e sossego para pintar. Enquanto lá esteve, chegou a produzir a pintura de Marguerite Gachet ao piano, um retrato com a filha de Paul Gachet, um importante médico da região. Este seria seu último trabalho, daquele ano. No dia 27 de julho, entre as horas que sucederam o almoço até o tardar da noite, Vincent retornou para a casa com um ferimento no abdômen, proveniente de disparo de arma de fogo. Theo foi imediatamente notificado; enquanto aguardava a chegada do irmão, Vincent permaneceu sob o auspício do Dr. Gachet. Recusando-se a operar, Van Gogh permaneceu em seu acanhado leito, moribundo e oscilando entre delírio e lucidez. Com Theo, Vincent permaneceu sobre seus braços, num alívio descomunal. No início da madrugada do dia 29, o coração selvagem do artista parou de bater.   

Theo providenciou, com grande amor, uma digna cerimônia fúnebre para o irmão. Com o esquife já posto, deitou sobre o cadáver um fino lençol branco. No entorno das velas, ganhou destaque seus quadros, cavalete e pincéis — companheiros de toda sua mísera existência. De repente, o abade que ministraria a bênção final, recusou a missão. Além de forasteiro protestante, havia em torno de Vincent, a suspeita que ele teria cometido suicídio. Foi permitido a Theo apenas comprar um terreno ermo para garantir o sepultamento. Até depois de morto, Vincent mantinha seus augúrios! Os poucos convidados reuniram-se para a despedida — da família, apenas Theo, compareceu à cerimônia —, sem discursos e profundas comoções.

Meses depois, acometido pela sífilis e atormentado pelo luto, Theo sucumbe mentalmente e é internado no manicômio, após várias crises nervosas. Falece de causas desconhecidas, e é sepultado sem autópsia e cerimônia fúnebre. Na sequência, sua irmã Lies, flagelada pela culpa e vergonha por ter doado o filho que teve com seu patrão, viveu isolada de todos. O irmão Cor, cometeu suicídio aos 32 anos, após combater na guerra contra os ingleses, em 1900. Dois anos depois, a irmã Wil foi internada em um manicômio, permanecendo enclausurada até à morte. Por fim, em 1904, Sien Hoornick, a prostituta e sucedânea de esposa de Vincent em Haia, se atirou em um canal e morreu afogada. 

Van Gogh, o girassol mortificado, continua sendo uma figura enigmática, explosiva e detentora de uma genialidade associada ao tormento. Como uma espécie de aura que o possuía em meio aos acessos de fúria, liberando um nível de criatividade sobrenatural, Vincent explodia em cores que iluminavam por frações de segundo sua alma sombria. O gênio indomável necessitava do caos existencial para transbordar em beleza, colorir a realidade maldita, a qual acreditava ser o pior dos Van Gogh, e nela habitar. Seguiu a sina de vários outros gênios atormentados por epilepsia, vertigens, dores crônicas e insanidades; vidas errantes, que por intermédio da criação, transgredia a própria miserabilidade para salvar a beleza advinda da arte. Vincent fez da sua obsessão pelo jogo de cores cintilantes — como o amarelo inconfundível do girassol —, o marco que dividiu caos e beleza no mesmo ato criativo. As frustrações, os delírios, a vida e a morte caminharam juntas até o derradeiro presságio: aqui jaz o último girassol! 


Referências 

NAIFEH, Steven; SMITH, Gregory White. A vida de Van Gogh. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SEDE DE VIVER. Direção: Vincent Minnelli. Estados Unidos: MGM, 1956.


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