O amadurecer e o nosso lugar em Uma casa no fim do mundo
Por Vinicius de Silva e Souza
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| Michael Cunningham. Foto: Mackenzie Calle |
“Estou começando a entender a diferença entre juventude e maturidade. Os jovens têm tempo para fazer planos e pensar novas ideias. Os mais velhos precisam de toda sua energia para acompanhar o que já foi posto em ação.”
Dentre os grandes temas universais abordados na Literatura ao longo da história, como o amor, a morte, o luto, a guerra, a memória, o tempo, o envelhecimento ocupa um espaço ímpar. Quando utilizado, é sempre pela ótica do “romance de formação”: uma narrativa longa que irá, usualmente, tratar da passagem de um protagonista entre a sua infância/adolescência ao início da vida adulta. Os exemplos são muitos, desde Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, um dos criadores da forma.
Mas, na perspectiva da passagem do tempo, são poucos que abordam a transição da juventude para a plena maturidade, algo como dos vinte aos trinta anos de idade. Acredito que muito em decorrência de recortes temporais, visto que, até o século passado, esperava-se que aos trinta anos já houvesse uma formação e integração plena do sujeito na sociedade: trabalhar, pagar o financiamento da casa, alimentar e sustentar os filhos, a esposa, cuidar da casa, do carro. Tornava-se adulto antes do que ocorre no século XXI que, ao estender a juventude, devido a diversos fatores que não irão caber aqui, criou uma nova e forte transição na faixa dos vinte para os trinta anos de idade. Diria, um novo marco e que é abordado de maneira precisa, sutil e sensível em Um casa no fim do mundo.
A narrativa do romance de Michael Cunningham publicada em 1990 constitui-se de quatro vozes que se alternam entre si, movimento semelhante ao que chamo aqui de quatro grandes círculos temáticos: amadurecimento, expectativas com o futuro, relações interpessoais e escolhas. Eles se mesclam e se orbitam ao longo de toda a narrativa, assim como Jonathan, Clare, Bobby e Alice.
Certamente podemos enxergar os dois rapazes como os verdadeiros protagonistas da obra, visto que são eles que abrem a narrativa e os donos da maior parte dos capítulos. Mas o papel que Clare e Alice exercem em momentos chaves, principalmente Clare, tanto na narração quanto na vida deles, justifica o autor ter-lhes concedido capítulos e vozes especificas. Apenas Alice poderia ser a mais “apagada” dentre os quatro, mas quando conversa e aconselha Jonathan, mais ao final da narrativa, quando interage com Clare, durante o luto por seu marido, quando descobre e se envolve com Jonathan e Bobby crianças, a personagem nos expõe um lado ofuscado daqueles acontecimentos, que apenas enriquece um dos elementos principais do romance: as relações interpessoais.
Tão evidente o triângulo amoroso formado por Jonathan, Bobby e Clare, que possível considerar desnecessário que Jonathan o verbalize para Bobby, na cena em que se reencontram. O laço entre eles é profundo, principalmente pensando que se iniciou em um período de descobertas, na pré-adolescência. Quando se reencontram e Jonathan vive um outro tipo de relacionamento com Clare, que passa a se envolver também com Bobby, tudo o que resta a fazer, para Jonathan, é fugir, se afastar. Apenas para depois se ver imerso nessa mesma dinâmica quando avisa a Bobby que seu pai, também uma espécie de pai para Bobby, faleceu. Durante a volta da viagem para o enterro, viagem essa em que Jonathan confronta o amigo e Clare consola Alice, Clare anuncia sua gravidez, há muito planejada por ela e Jonathan, mas resultado de sua relação com Bobby.
Toda a atmosfera é profundamente emocional no romance, com personagens vivamente mobilizados por seus sentimentos e emoções, buscando viver enquanto temem o futuro: “ʽÉ isso que se faz. Fazemos um futuro para nós mesmos com a matéria-prima que temos à mãoʼ. ʽA diferença entre trinta e seis e vinte e cincoʼ, disse ela, ʽé que aos vinte e cinco a gente não consegue parecer patética. A juventude é a grande desculpa. Você pode tentar qualquer coisa, fazer absolutamente qualquer coisa no cabelo, e sair por aí com uma cara ótima. Você ainda está experimentando ser você mesmo, portanto está tudo ok. Mas é só a gente ficar um pouco mais velha e descobre que as ilusões já começaram a desaparecerʼ.”

O tempo passa, e ele chega, o futuro. Entre um capítulo e outro, e sutilmente, apresenta-se entre os diálogos as idades dos personagens, remodelando-os ao nosso olhar. Jonathan é quem mais parece sentir o peso da idade e do tempo passando, conforme avança dos seus vinte-e-poucos-anos rumo aos trinta-e-muitos, fortemente influenciado pela convivência com Clare, nove anos mais velha, com Erich, com quem mantém um relacionamento puramente sexual, e por suas expectativas quanto ao seu futuro. O mesmo não ocorre com Bobby que, aos vinte e cinco, é expulso de casa pelos pais de Jonathan pois não consegue ver a “ausência de um rumo na vida” como um problema.
Implacável, o tempo segue, prossegue, e os atinge de maneiras diferentes. Clare vê-se profundamente modificada pela maternidade enquanto Alice, agora distante, retorna desnorteada após a morte de seu marido. Não há certezas para ninguém aqui: todos buscam entender quem são e seus respectivos lugares no mundo. E, por mais que suas vozes sejam as mesmas, sem elementos que nos permitam diferenciá-los dentro da linguagem, o nome do personagem no alto do capítulo e o mesmo tom introspectivo são o suficiente para que possamos adentrar em seus fluxos de consciência e emoção.
Michael Cunningham tinha 38 anos quando publicou este romance e, tendo nascido em 1952, não surpreende a narrativa ir dos anos 60 aos 80 quase 90 e ter em seu cerne elementos de época tão intrínsecos e claros, como o festival Woodstock, as canções de Bob Dylan e, posteriormente, o terror da Aids. O que surpreende é a abordagem profundamente sensível ao construir personagens que buscam formular uma família não tradicional, tão à frente de seu tempo. É evidente um grande trabalho do autor em colocar muito de si numa obra que, segundo ele próprio no prefácio, demorou seis anos para ser finalizado. Iniciou, então, quando ele mesmo vivia, já antecipadamente, a transição da juventude para a maturidade.
Visceral, emotivo e melancólico, Uma casa no fim do mundo conseguiu atingir o que eu procurava ao iniciar a leitura: personagens buscando o que busco, frágeis em um mundo instável, tentando construir um caminho enquanto permanecem a caminhar pois caminhar é o único caminho.
“mas eu não tenho medo de cemitério. Os mortos são só, sabe como é, pessoas que queriam as mesmas coisas que eu e você.”
“E o que é que nós queremos?”, perguntei, meio entorpecido.
“Ah sabe como é. A gente só quer, assim, quer dizer, as mesmas coisas que esse pessoal aqui queria.”
“E o que era?”
Ele deu de ombros. “Viver, acho”.

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