Literatura e psicanálise e as narrativas constitutivas

Por Herasmo Braga

Xenia Gray



Costuma-se mencionar, mesmo quando não se tem contato com as suas realizações literárias, que Charles Baudelaire foi um dos primeiros grandes artistas a perceber a degradação do homem contemporâneo diante das ações entusiasmadas da modernidade. Essa observação evidencia a capacidade dos textos ficcionais, quando dotados de valores significativos, de verem longe: tanto os processos históricos quanto os caminhos degenerativos das subjetividades dos indivíduos. 

Interessante observar quando Arthur Schopenhauer, em O mundo como vontade e representação, ao fazer referência ao véu de Maya, aponta para a dificuldade humana de examinar a realidade com nitidez. Aquilo que se vê não se apresenta com segurança suficiente para afirmações categóricas. Assim, mesmo em um gesto de busca da compreensão, dotado de repertório, reflexões e experiências, tais elementos não se mostram suficientes para afirmações peremptórias, o que dizer quando se está desprovido de tudo isso e ainda acrescido de ideologias, dogmas e conceitos fechados em si mesmos como se costuma realizar.

É nesse terreno que a literatura se impõe como potência elucidativa. Como bem menciona Michel Houellebecq em Submissão, por meio de importante observação do narrador: “Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, de maneira mais direta, mais completa e até mesmo mais profunda do que a conversa com um amigo — por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido”. 

Diante desse ensejo, tem-se que ao se conduzir por produções que elevam as percepções, não pelo mero belo letrismo ou por pragmatismos de reflexos sociais; mas pelas experiências densas compartilhadas em suas linhas, observa-se o quanto a literatura desnuda o sujeito e contribui para a retirada desse véu de Maya. Distancia-se, assim, o sujeito apegado às superficialidades e satisfeito com toda a artificialidade apresentada, como expressa François, narrador de Submissão, em outro momento da narrativa, ao fazer menção ao artigo “Gil Blas”, elaborado por Guy de Maupassant: “Felizes daqueles que se satisfazem com a vida, daqueles que se divertem, daqueles que estão contentes”. Nesses movimentos de revelação de angústias, superficialidades, incertezas e tédios, as produções literárias comprometidas com instantes significativos da vida trazem ao indivíduo sombras, não as dos outros como se habitua fazer, mas, sobretudo, as suas próprias. 

Destarte, ao elaborar seus primeiros esboços acerca da psique humana, Sigmund Freud pautará boa parte de suas análises na articulação entre Eu, Id e Supereu, superando as distinções iniciais entre consciente e inconsciente. Desta maneira, nas mãos de Freud, a arte, de modo particular, a literatura; revela as assombrações que atormentam o sujeito, ainda que estas permaneçam despercebidas pela razão. O inconsciente torna-se, assim, o ponto em que a natureza humana, em sua forma latente e angustiante, é continuamente alimentada para, nas fragilidades do Eu, manifestar-se, seja nas irrupções dos pensamentos, seja nas contradições que escapam ao controle do próprio sujeito.

Assim, a literatura confirma, e pode-se até mesmo ousar em afirmar, em diálogo com a psicanálise, que a natureza humana não se sustenta nas idealizações de pureza, autonomia ou harmonia. Há nela zonas marcadas por egoísmo, ressentimento, agressividade e ambivalência. Não se trata de uma condenação simplista do humano, mas do reconhecimento de que sua constituição não se esgota nas imagens que ele próprio projeta de si. A literatura, portanto, não apenas devolve ao homem suas próprias sombras, rompendo com as idealizações, como denuncia o imaginário romântico incompatível com o ser tal como se apresenta. Ao mesmo tempo, expõe o lado pueril da crença nas independências tão exaltadas desde a modernidade. 

O sujeito não é suficiente, autônomo ou plenamente forte. É atravessado por fragilidades que, aos olhos dos fingidores, muitas vezes mais preocupados em sustentar aquilo que não são, acabam por projetar em outrem fontes de firmeza e segurança que dificilmente resistiriam ao menor teste de desamparo. Sob a égide de tais ideias, tem-se a dependência de todos com todos não apenas marca a sobrevivência, como também atesta a própria existência. Sem o outro, não haveria o eu. Sem o mediador, não haveria o realizador mimético. Nesse sentido, quando determinadas produções literárias insistem em traços amenos da realidade, aproximando-se do ideal do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, acabam por reforçar a permanência do véu de Maya, distorcendo e acomodando os indivíduos em suas próprias debilidades. 

De fato, os imaginários românticos desenvolvidos, exaltados e propagados constituem um prejuízo humano: o de crer-se de uma forma quando, na realidade, é de outra. Não é à toa que toda atividade tecnológica voltada ao consumo encontra não apenas aceitação, mas adesão, conduzindo muitos a se perderem na busca de algo que sequer sabem o que é, ou mesmo se desejam. Isso já não corresponde apenas à discussão schopenhaueriana da eterna insatisfação, mas ao exercício ordinário de apegar-se, de maneira acrítica, a qualquer proposta ilusória que afaste o ser de suas sombras. São luzes pré-fabricadas que nada iluminam; apenas produzem o delírio de algo sendo visto ou de se ver. Ao reconhecer essa ausência de clareza, o sujeito é prontamente conduzido ao estereótipo de pessimista, sendo, por isso, desqualificado em sua capacidade de dizer algo que contrarie o devaneio coletivo.

Em meio a tais contextos, os textos literários não apenas desnudam, mas também, incomodam. Revelam, de maneira simples e direta, a impossibilidade de o indivíduo ver-se plenamente, mesmo diante do espelho, como tenta Hamlet, no Ato III, cena IV, ao buscar revelar à própria mãe os males que promove, embora ela creia na inexistência de qualquer elemento que a condene: Hamlet: “Venha aqui, fique bem sentada e não se mova. / Não vai sair antes de eu lhe mostrar o espelho/ Onde verás bem no fundo essa sua essência”. Tem-se, então, a tentativa de confrontar o sujeito consigo mesmo, de fazê-lo encarar não apenas os desvios que procura ocultar, mas também as zonas obscuras de sua própria consciência. É justamente nesse movimento de exposição interior que a literatura alcança uma de suas mais profundas potências: a de erguer diante do indivíduo um espelho que não reproduz apenas aparências, mas revela as fissuras, contradições e assombrações que habitam a condição humana.

Portanto, aquilo que se toma como reflexo de si são, em grande medida, fantasias consolidadas por um imaginário que produz no consciente uma segurança sem fundamento. Todavia, só é possível enxergar-se pelos olhos do outro. Em momento algum o espelhado fisicamente constituirá o sujeito em si. São as suas ações que compõem os teares pelos quais os outros irão elaborá-lo ao longo das múltiplas narrativas vivenciadas. O sujeito, portanto, não é dado, mas continuamente tecido nas relações, nas percepções e nos julgamentos que o atravessam.

Por isso, literatura e psicanálise se aproximam não por oferecerem respostas confortáveis, mas por recusarem as máscaras tranquilizadoras do humano. Ambas reconhecem que o sujeito não é transparente para si mesmo, que a consciência não governa com plenitude a vida interior e que as idealizações são, em grande medida, formas de proteção diante da própria precariedade. Nesse sentido, a literatura não consola: inquieta. Não redime: expõe. Não resolve: obriga o sujeito a reconhecer que as sombras não são externas, e sim, constitutivas do próprio sujeito.

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

A maior flor do mundo, de José Saramago

Sete poemas de Miguel Torga

Dez poemas e fragmentos de Safo

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Mimesis e a sua importância para o estudo da Literatura