A loucura como topos da literatura e da filosofia
Por Thiago Teixeira
A imagem resulta escandalosa porque desafia o princípio de contradição
(Octavio Paz)
(Octavio Paz)
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| Sean Layh. Tragical Historie of Hamlet, Prince of Denmark. 2025 |
Estamos lendo Duns Scoto, filósofo escolástico medieval, e ele está enfrentando o maior desafio para um filósofo: responder às provocações céticas. E ele as enfrenta assim: “Se objetares que, se a imagem sensível pode apresentar-se como um objeto; portanto o intelecto, em virtude deste erro da faculdade da imaginação, pode errar ou pelo menos ser impedido, de tal maneira que não possa operar como acontece nos sonhos e com os loucos; pode-se responder que, embora o intelecto seja impedido quando há tal erro na faculdade da imaginação, no entanto, nesta circunstância, o intelecto não erra porque não exerce nenhum ato.”
Ele está respondendo ao argumento do engano dos sentidos, que se desdobra no argumento do sonho, da embriaguez e da loucura. Os céticos (especificamente os acadêmicos) questionam a nossa capacidade de conhecer o mundo, pois a via pela qual o conhecemos — as sensações ou os sentidos — é insuficiente, uma vez que o objeto percebido pode estar se revelando de maneira enganosa para nós, por conta da irregularidade da nossa percepção. Podemos estar sonhando agora, podemos estar embriagados ou podemos estar loucos, de maneira que nossa percepção não é segura o suficiente para que possamos afirmar algo do mundo.
A loucura, enquanto variação do argumento do sonho, mostra-se importante argumento cético, um argumento retórico-filosófico que perseguirá os filósofos como um desafio a ser enfrentado. No caso de Scoto, ele simplesmente desloca o problema, afirmando que não são os sentidos, mas o intelecto o responsável pelo conhecimento e que, por mais que as sensações tenham suas falhas, o intelecto é que é o responsável pela formulação do conhecimento. Se estou louco e o que vejo é algo equivocado (erro na faculdade da imaginação) é justamente porque o intelecto não está exercendo seu ato de juízo racional; se estivesse sendo exercido devidamente, o engano não seria cometido. Afinal, o louco pode achar que o remo que enfiamos na água está torto, já que seu juízo intelectual não está sendo exercido corretamente, mas uma pessoa dotada de intelecto sadio saberá que o remo se mantém intacto e que tudo não passa de um jogo de refração de luzes: a aparência sensível não corresponde à natureza do objeto.
E a loucura não é apenas topos filosófico, é também literário. Lembremo-nos do Orlando de Ariosto, que perdeu o juízo após um amor frustrado. Abandona armas, armaduras, sai errante pelo mundo, em desistência dos valores da cavalaria. Ele passa pelo furor amoris, dando ao amor um caráter de doença da alma, é visto nu em sua quebra psíquica e somente se recupera quando seu fiel escudeiro viaja à lua para reaver o senso perdido. É o tipo de loucura violenta, do campo da ira, a mesma que atacou Ájax por um sortilégio de Atenas. É o que lemos em Ájax de Sófocles, quando o terrível herói, após a morte de Aquiles, foi preterido por Odisseu na liderança guerreira. Não aceitando o resultado, decide matar os companheiros, arremetendo contra eles com toda a fúria, despedaçando as vítimas com as próprias mãos, prendendo Odisseu em uma coluna e o humilhando com chicotadas. O problema é que nada disso acontecia de verdade. Atenas fez com que Ájax padecesse da doença da loucura: lançou-lhe ilusões aos olhos. Ele julgava estar matando inimigos quando na verdade estava estraçalhando bois e vacas, para espanto da cidade que via aquele homem louco atacando animais e pastores.
E o que dizer daquele Queixada ou Quijada que na cidadezinha de La Mancha enlouqueceu de tanto ler livros? Pôs lá o que restava de uma antiga armadura, montou em um rocim magro e saiu para o mundo, a fim de fazer justiça. Passa por todo um périplo quebrando as costelas e mal sentindo as dores ao se imaginar curado pelas receitas mágicas de um mago inexistente. Ele vê um mundo que o homem são (um cético) não vê: seu ingênuo e não tão fiel escudeiro Sancho Pança. Nós leitores até enxergamos o mundo de moinhos e gigantes, mas sabemos, pelos olhos de Panza e pelo narrador, que a cabeça do gigante na verdade é um barril de vinho, que o sangue que escorre do pescoço do gigante é sangue embriagante. Mas… ora, nós leitores também vemos o gigante, estaríamos também loucos como Quixote? Na verdade, nós rimos dele, achamos sua figura patética e caricata, sentimos mesmo pena da sua inocência, pois o narrador deixa claras as linhas demarcatórias entre o mundo real e o irreal, entre sanidade e a loucura. Mas também, diga-se de passagem, não percebemos esse mundo como Sancho; por um átimo as pás do moinho ergueram os braços ameaçadores para nós. Onde fica a verdade: no barril de vinho ou na cabeça de gigante? Bastou o olhar do louco para questionarmos o real e levantarmos uma desconfiança em relação ao nosso mundo seguro. Parece não haver armaduras resistentes contra a dúvida.
As pás do moinho ergueram os braços contra nós. Isso se chama ficção, a verdade das mentiras de Vargas Llosa. É que não são apenas os moinhos que não têm uma realidade fática; o próprio Quixote não o tem. Esquecemo-nos, porém, já que estamos encantados pela nossa loucura de leitor e tratamos o Quixote como tratamos o Cervantes, um ser vivo que um dia existiu realmente. Fomos enganados pela técnica literária e tomamos a La Mancha de Cervantes como uma cidade real, assim como tomamos como reais a Macondo, a Yoknapatawpha, a Comala, a Bahia de Jorge Amado.
O próprio Cervantes gostava de jogar com a ideia da ilusão ficcional. Quem lê o seu entremez El retablo de las maravillas vê como alguns pícaros enganam as autoridades, quando, fingindo-se de comediantes, apresentam para elas um teatro fantástico. Dizem os comediantes que somente as pessoas de sangue puro, ou seja, as que não fossem miscigenadas, ou então que não fossem bastardas, no dizer da peça, é que conseguiriam enxergar o espetáculo. E como as autoridades ali presentes não queriam ser vistas como miscigenadas ou bastardas, fingiam estar vendo feras saindo do palco, feras que supostamente as atacavam, para a bagunça geral, com as autoridades tentando fugir dos cornos de touros inexistentes. Nesta peça, inspirada no El conde Lucanor, Cervantes está representando um teatro dentro do teatro, mostrando como o público se deixa enganar pelos atores, pelos ficcionistas, pelo autor. Vê touros onde não há touros, donzelas onde não há donzelas, como se estivesse encantado. Quem assistia a essa comédia devia rir muito da reação das autoridades em barafunda e assustadas com as criaturas inventadas pelos comediantes, sem perceber que também ele, o público que assistia à peça de Cervantes, deixava-se enganar pelo que acontecia no palco, tomando os atores como autoridades, a peça como um pedaço do real, o touro falsamente ausente como um real touro ausente.
Mas a mais impressionante das loucuras é a do príncipe da Dinamarca, Hamlet. Ele também levou a ficção às últimas consequências e, com sua loucura, maculou a realidade. Ao saber de toda a verdade a respeito da morte do pai, decide vingar-se, começando por fingir-se de louco. Nada disso é óbvio para nós, pois Shakespeare não nos mostra explicitamente os planos do príncipe. Ele apenas diz a Horácio que não conte nada e se o visse de forma estranha que nada relevasse — estaria ele já planejando a encenação da loucura? O fato nos é contado indiretamente, quando Ofélia vai contar ao pai a notícia de que Hamlet se comporta de forma estranha, e o pai, Polônio, com sua visão de mundo logo interpreta que o príncipe enlouquecera de amor — mais uma vez o furor amoris.
Hamlet finge-se tão bem de louco, leva a loucura tão às últimas consequências, que já não sabemos mais se algo de lucidez ainda permanece. Somente loucos agiriam como ele começava a agir — e o que é o homem senão as ações? O teatro dentro do teatro: Hamlet é ator de si mesmo, finge tão perfeitamente a loucura que se torna, de fato, um louco, e mais uma vez a ficção é tão convincente que nos tira da certeza da verdade.
Como não nos lembrar de Borges em seu “O falso problema de Ugolino”, quando destaca que a ficção tem leis próprias, leis que fogem do mundo cotidiano e do pensamento histórico, justamente por conciliar contrários que, na realidade, jamais poderiam ser conciliados? “No tempo real, na História, cada vez que o homem se depara com diversas alternativas escolhe uma e elimina e perde as outras. Não é assim no ambíguo tempo da arte, que se parece ao da esperança e do esquecimento. Hamlet, neste tempo, é são e louco.”
No tempo da arte, Hamlet é são e louco ao mesmo tempo, pois a arte desafia o princípio de contradição. O ser e o não ser convivem heraclitamente. Isto e aquilo compõem um só ente. E a loucura tem a sua própria linguagem, uma linguagem inacessível aos demais homens. É a linguagem de Quixote quando imita um falar desconhecido pelos taberneiros e cortesãs, é a linguagem de Hamlet completamente intraduzível, poeticamente tensa e ambivalente. Uma linguagem que traduz perfeitamente o tempo da arte de que falava Borges.
Vejamo-la quando, sem serem ainda vistos, Polônio, o Rei e Rainha observam o príncipe, que está lendo um livro. Precisamos ter em mente que Hamlet está com a cabeça cheia de vingança:
POLÔNIO
Deixai-me, por favor; deixai-me, ambos. Vou dirigir-me a ele, sem demora. Deixai-me.
(Saem o Rei e a Rainha.)
Como passa o meu príncipe?
HAMLET
Bem, graças a Deus.
Bem, graças a Deus.
POLÔNIO
Sabeis quem sou?
Sabeis quem sou?
HAMLET
Sei muito bem. O senhor é um peixeiro.
Sei muito bem. O senhor é um peixeiro.
POLÔNIO
Eu não, senhor.
Eu não, senhor.
HAMLET
Pois gostaria que fosse homem assim tão honesto.
POLÔNIO
Honesto, meu senhor?
HAMLET
Sim, senhor. E ser honesto, no mundo como anda, é ser um homem entre dez mil.
Pois gostaria que fosse homem assim tão honesto.
POLÔNIO
Honesto, meu senhor?
HAMLET
Sim, senhor. E ser honesto, no mundo como anda, é ser um homem entre dez mil.
POLÔNIO
Lá isso é verdade, senhor.
HAMLET
Pois se o Sol gera larvas num cão morto, que é boa carcaça para beijar… Tem uma filha?
POLÔNIO
Tenho, senhor.
Lá isso é verdade, senhor.
HAMLET
Pois se o Sol gera larvas num cão morto, que é boa carcaça para beijar… Tem uma filha?
POLÔNIO
Tenho, senhor.
HAMLET
Não a deixe andar ao Sol. A concepção é uma bênção, mas não como possa conceber a sua filha. Amigo, cuidado.
Não a deixe andar ao Sol. A concepção é uma bênção, mas não como possa conceber a sua filha. Amigo, cuidado.
POLÔNIO
(à parte)
Que me dizem disso? Sempre insistindo em minha filha. No entanto, a princípio não me conheceu; disse que eu era um peixeiro. Está muito mal. E na verdade em minha juventude sofri muito pelos extremos do amor; fiquei quase assim. Vou falar-lhe de novo. O que estais lendo?
(à parte)
Que me dizem disso? Sempre insistindo em minha filha. No entanto, a princípio não me conheceu; disse que eu era um peixeiro. Está muito mal. E na verdade em minha juventude sofri muito pelos extremos do amor; fiquei quase assim. Vou falar-lhe de novo. O que estais lendo?
HAMLET
Palavras, palavras, palavras.
Palavras, palavras, palavras.
POLÔNIO
Qual a intriga, senhor?
Qual a intriga, senhor?
HAMLET
Entre quem?
Entre quem?
POLÔNIO
Falo do que está lendo, senhor.
Falo do que está lendo, senhor.
HAMLET
Calúnias, senhor; pois o cínico calhorda diz aqui que os velhos têm barbas grisalhas, que suas faces são enrugadas, seus olhos purgam âmbar espesso e goma de ameixeira, e que têm completa falta de discernimento, a par de coxas fracas. Em tudo o que, senhor, acredito firmemente, mas não creio que seja decente dizê-lo assim, em um livro. Pois o senhor mesmo chegaria à minha idade se pudesse andar para trás, como um caranguejo.
Calúnias, senhor; pois o cínico calhorda diz aqui que os velhos têm barbas grisalhas, que suas faces são enrugadas, seus olhos purgam âmbar espesso e goma de ameixeira, e que têm completa falta de discernimento, a par de coxas fracas. Em tudo o que, senhor, acredito firmemente, mas não creio que seja decente dizê-lo assim, em um livro. Pois o senhor mesmo chegaria à minha idade se pudesse andar para trás, como um caranguejo.
POLÔNIO
(à parte)
Embora isso seja loucura, mesmo assim há nela certo método.
Polônio não entende o sentido das palavras de Hamlet, embora compreenda o suficiente para descobrir nele uma contradição: o rapaz se lembra de Ofélia, mas não se lembra do pai dela. Então percebe que há um método na loucura, uma gramática da linguagem do louco, ainda inacessível. Hamlet tem na cabeça o conjunto de intrigas familiares que levaram desgraça à sua vida, por isso, joga com os sentidos de intriga. Intriga como trama, do livro que está lendo, intriga na relação entre os membros reais daquela corte. O mundo do livro que Hamlet lê se confunde com o mundo em que ele se finge de louco, ambos presos em uma só intriga. Mistura-se a realidade, de tal modo, que as palavras ganham mais de um sentido, significando duas coisas ao mesmo tempo, como se o louco estivesse sempre entre dois mundos, falando aos dois mundos, como um xamã. Por mais importante e bem-feita seja a tradução de Bárbara Heliodora, não foi possível captar o sentido do original em inglês, já que, na verdade, a cena que leremos é simplesmente intraduzível:
(à parte)
Embora isso seja loucura, mesmo assim há nela certo método.
Polônio não entende o sentido das palavras de Hamlet, embora compreenda o suficiente para descobrir nele uma contradição: o rapaz se lembra de Ofélia, mas não se lembra do pai dela. Então percebe que há um método na loucura, uma gramática da linguagem do louco, ainda inacessível. Hamlet tem na cabeça o conjunto de intrigas familiares que levaram desgraça à sua vida, por isso, joga com os sentidos de intriga. Intriga como trama, do livro que está lendo, intriga na relação entre os membros reais daquela corte. O mundo do livro que Hamlet lê se confunde com o mundo em que ele se finge de louco, ambos presos em uma só intriga. Mistura-se a realidade, de tal modo, que as palavras ganham mais de um sentido, significando duas coisas ao mesmo tempo, como se o louco estivesse sempre entre dois mundos, falando aos dois mundos, como um xamã. Por mais importante e bem-feita seja a tradução de Bárbara Heliodora, não foi possível captar o sentido do original em inglês, já que, na verdade, a cena que leremos é simplesmente intraduzível:
POLÔNIO
[...]
O que estais lendo?
HAMLET
Palavras, palavras, palavras.
Palavras, palavras, palavras.
Hamlet, como ressaltamos, pensa em vingança e ele o diz claramente a Polônio. Acontece que, em inglês, Hamlet diz: “Words, words, words”. O ouvido atento encontra uma espécie de cacofonia, pois essas palavras juntas, com o intermédio da fricativa -s, formam a palavra swords (swords, swords), isto é, espada. Hamlet está dizendo palavra e espada ao mesmo tempo, no campo de quem é são e ao mesmo tempo louco. Vale dizer que a imagem da espada aqui é símbolo da vingança, presságio do sangue que será derramado nessa tragédia. E a ambivalência aqui é em si mesma a loucura feita em palavra, o mundo real misturado ao mundo imaginado, a vida ficcional se impondo como verdade — a verdade da ficção, a verdade das mentiras.
Referências:
SCOTO, Duns. Sobre o conhecimento humano In Os pensadores, 1973.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. In Grandes obras de Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018, vol. 1.
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