A via crucis da mãe à procura do filho: sobre Coração sem medo, de Itamar Vieira Junior
Por Douglas Sacramento
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| Itamar Vieira Junior. Foto: Uendel Galter |
I
Em Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo, o conto “Os guris de Dolores Feliciano” remete aos três filhos dessa mulher que foram mortos em ações policiais na periferia. O leitor é apresentado à forma como a mãe elabora o luto e a saudade por meio do ritual cotidiano de arrumar os pertences dos filhos no guarda-roupa. O gesto invoca os meninos de outro plano, criando um espaço de aconchego e marcando sua presença ao lado da mãe.
O que mais chama atenção nesse conto é quando a mãe vai a um estúdio de televisão à procura dos filhos desaparecidos —, posteriormente, encontrados sem vida. A dor é tanta que Dolores Feliciano verte lágrimas de sangue e fica conhecida como Mater Dolorosa, em analogia à dor da mãe de Jesus diante do filho crucificado.
II
Ao pesquisar a obra de Itamar Vieira Junior no doutorado, percebi que as figuras femininas são centrais para a construção das tramas principais e secundárias dos seus romances. Também há uma presença significativa da maternidade na chamada trilogia da terra, composta por Torto arado, Salvar o fogo e Coração sem medo, e encontramos diversas figurações da Mater Dolorosa, isto é, mulheres que procuram por seus filhos, que abdicam da prole e, no último romance, uma mãe à procura do filho levado por uma ação policial.
Coração sem medo gira em torno de Rita Preta, neta de Carmelita, filha de Mazé e bisneta de Donana. Depois deixar Outeiro Verde, ela vai trabalhar como empregada doméstica em Salvador. No início da narrativa, Preta trabalha como caixa de supermercado e rememora seu passado: a vida com a avó, o sumiço da mãe e a culpa pela morte dos irmãos levados pelo rio. Mas, é na periferia da capital baiana, que sua vida sofre uma ruptura: o filho mais velho, Cid, desaparece. A partir desse momento, começa a busca pelo menino, com a ajuda da vizinha Fátima e dos outros dois filhos, Cainho e Juca. Essa Mater Dolorosa passa então a buscar por verdade e justiça.
Também nascido em Salvador, Itamar Vieira Junior é doutor em Estudos Étnicos e Africanos pelo Pós-Afro/ Universidade Federal da Bahia; pesquisou o quilombo de Iuna, na Chapada Diamantina, investigação que serviu ao primeiro romance da trilogia Terra. Torto Arado publicado no Brasil depois de ser reconhecido prêmio LeYa em Portugal, ultrapassou um milhão de cópias vendidas e valeu ao autor o prêmio Jabuti na categoria Romance em 2020 e a indicação da tradução em língua inglesa no International Booker Prize, em 2024.
Com o segundo volume da trilogia, Vieira Junior também recebeu o prêmio Jabuti na categoria Romance, em 2024. Além dos romances referidos, o autor publicou o livro de contos A oração do carrasco, Doramar ou a odisseia e o livro para a infância Chupim.
III
Coração sem medo organiza-se em cinco partes. Na primeira, “Correnteza”, é apresentado o nó górdio da narrativa: o desaparecimento de Cid e o início da procura de Rita Preta pelo filho, marcada por sucessivas tentativas de obter informações na delegacia, no Instituto Médico Legal (IML) e entre a vizinhança do bairro. É neste último espaço que as informações começam a surgir e, por meio de uma pessoa da comunidade, a protagonista descobre que o filho foi levado numa abordagem policial. Mas, a procura por notícias não se limita apenas ao microespaço da periferia. A extensa mobilização leva o caso à televisão e isso resulta em constantes ameaças por telefone, pois há a certeza, por parte da mãe, do envolvimento dos policiais no desaparecimento do menino.
Coração sem medo organiza-se em cinco partes. Na primeira, “Correnteza”, é apresentado o nó górdio da narrativa: o desaparecimento de Cid e o início da procura de Rita Preta pelo filho, marcada por sucessivas tentativas de obter informações na delegacia, no Instituto Médico Legal (IML) e entre a vizinhança do bairro. É neste último espaço que as informações começam a surgir e, por meio de uma pessoa da comunidade, a protagonista descobre que o filho foi levado numa abordagem policial. Mas, a procura por notícias não se limita apenas ao microespaço da periferia. A extensa mobilização leva o caso à televisão e isso resulta em constantes ameaças por telefone, pois há a certeza, por parte da mãe, do envolvimento dos policiais no desaparecimento do menino.
Assim, entra em domínio o interior onde Preta viveu. É na segunda parte do romance “Carmelita”, quando a correnteza que transforma as águas calmas da protagonista a leva se afastar da capital — onde corre o risco de morte. No interior da Bahia, ela busca informações sobre o fim da vida da avó e descobre que Carmelita havia salgado a terra, morrido alucinada, mas amparada pelo retorno da filha, Mazé. Aqui a temporalidade da história começa a se deslocar: nem sempre o leitor encontra o presente narrativo, mas tem acesso a essa personagem tão misteriosa na trilogia Terra.
Afinal, Carmelita é a filha perdida de Donana, que foge após ser estuprada pelo companheiro da mãe, morto pela faca encontrada por Bibiana e Belonísia no primeiro livro da série: “Seus pés eram os pés de sua mãe, Mazé, de sua avó Carmelita, de sua bisavó, a velha Donana. Eram os pés das mulheres e dos homens sem nome que antecederam sua existência. Seus pés eram primordiais e tão antigos quanto o próprio tempo, e com eles se moveu, se perdeu e se encontrou, e reencontrou os caminhos por onde andou e por onde ainda precisava caminhar.” (p. 64)
Esse tempo embaralhado é apontado por Denise Carrascosa, intelectual negra e baiana que aparece no livro de Itamar Vieira Junior com seu projeto de extensão “Corpos indóceis e mentes livres”, como característico da literatura negro-brasileira. Para ela, escritoras e escritores negros, ao abordar a questão negra, suas demandas e expressões culturais, não conseguem elucubrar o tema de forma retilínea, cartesiana e tradicional; é preciso movimentar uma temporalidade outra, que a modernidade não dá conta de explicar, o que ela denomina de con(tra)temporâneo. Segundo a autora, a forma espiralada do tempo seria importante para que aquele que morre no tecido narrativo tenha a possibilidade de contar sua história ou aparecer, por exemplo, pois existe um embate, tensionamento e questionamento com as formas pelas quais o Ocidente compreende determinados temas.
No livro Corpo de vento: Exu da teoria: travessias crítico-performativas pelas artes negras, Carrascosa aponta que o con(tra)temporâneo é “uma linha de força de certas práticas que, para além de lidar com a simultaneidade das relações tríade entre aquilo que está no próprio tempo, contra e a seu favor, sub-repticiamente fazem exceder aquele traço contrário, tensionador, deslocador das margens do pensamento, das representações e das produções cotidianas.” (p. 79) É o caso em Coração sem medo.

O romance de Vieira Junior caracteriza-se por dar voz aos ceifados pelo Estado, de forma física e simbólica: o filho desaparecido de Rita Preta, cujo corpo nunca é encontrado; Mazé, que morre pelo dono da fazenda onde ficava a casa de Carmelita e que antes viveu em situação de quase escravização como empregada doméstica na casa dos patrões; as vozes dessas mães enlutadas contando como perderam seus filhos; um escravizado fazendo a travessia do Atlântico; e até os perseguidos pelo capitão do mato. Ou seja, o leitor não encontrará um romance em que o tempo da narrativa e suas categorias de passado, presente e futuro estejam compartimentadas. Ao abordar a necropolítica, o escritor embaralha os tempos para apontar que a violência e o tratamento de corpos negros como descartáveis é uma prática constante e fundante no país.
Na terceira parte de Coração sem medo, “Terra-sudário”, ao retornar para a capital, Preta se depara com novas informações. A vizinha, ao ser presa, é quem consegue outras pistas; isso a leva a visitar um detento que diz à Mater Dolorosa que o filho foi confundido com outro jovem e levado para um ponto de desova na capital baiana. Nesse local, a mãe encontra um casal de moradores, e a mulher está com a sandália perdida de Cid. Os dois, então, a levam a um lugar onde possivelmente houve a queima de um corpo. Não encontram rastros do menino, mas, a partir desse momento, Rita Preta consegue compilar nomes e suspeitos; há um avanço na investigação e ocorre até uma reclamação sobre o modo como o governador lida com essas mortes, remetendo à associação que o governador Rui Costa fez entre as mortes de jovens negros na favela e a marcação de gols:
“Meu filho”, as palavras ecoam sob a tenda, “meu filho foi raptado pela polícia, governador. Vim saber o que o senhor vai fazer. Quero que me tragam ele vivo, como ele foi retirado de mim. Mas, se por acaso a polícia matou ele, me digam onde está o corpo para que eu possa dar um enterro digno a ele. Para que eu e os irmãos dele, a gente possa se despedir e viver nosso luto. O que estamos vivendo não é vida, governador. Não é vida! Nem luto. Nem esperança. Morremos com ele.” (p. 232)
Se Rita Preta é uma mãe em périplo por respostas, a sua mãe também queria saber como estariam os filhos. Na quarta parte do romance, “Mazé”, a referida personagem toma a palavra e denuncia a fuga do trabalho análogo à escravidão, esclarece o retorno à casa de Carmelita e a morte dessa anciã. Mas, como a vida da personagem é ceifada, a parte curta em paginação é sintoma dessa vida que se vai ainda jovem. Assim, estamos diante de reproduções diversas de uma violência geracional vivida por corpos negros na capital ou no interior da Bahia, com a questão da terra ecoando o tempo todo no romance.
Na última parte de Coração sem medo, “Os cadernos de Cainho” – e, para mim, o ponto alto do livro –, existe o movimento que Denise Carrascosa explana: a literatura negra, em suas mais variadas facetas, realiza a passagem “entre Necro&Ikupolítica”, ecoando o ensaio de Wanderson Flor do Nascimento, intitulado “Da necropolítica à ikupolítica” (Cult, 2020). Para o autor, se a necropolítica, grosso modo, indica o modo como o Estado extingue o corpo negro, inclusive barrando rememorações desses sujeitos e colocando-os no esquecimento, a ikupolítica seria a forma pela qual a comunidade negra rememora esse sujeito, não o deixando cair na morte simbólica, como ocorre dentro das religiões de matriz africana.
Portanto, aqui Itamar Vieira Junior faz esse movimento. O foco narrativo ora é Cid e seus últimos momentos de vida, a tortura física e psicológica sofrida dentro do carro da polícia e no ponto de desova. Nesse momento, ecoam as vozes dos antepassados, a travessia do Atlântico e a violência física no navio negreiro, que ali parecem ser duplicadas nos minutos finais do menino ou como pontua Denise Carrascosa, no texto “9 Eguns Dançam entre Necro Iku políticas”: “O espaço, tempo e linguagem desses corpos são feitos dos materiais dos “espaços de confinamento” e dos dramas do momento histórico que separam as vozes dos corpos pela política da Morte e da Desmemória — violenta e imputada pelo Estado-Nação” (p. 276).
Em outro momento, ainda na última parte do romance, o autor traz à tona os policiais, mostrando como os agentes também têm famílias e como existe uma mudança em alguns discursos ao adentrar na instituição policial. Aqui ecoa ainda fuga de escravizados seguida por um capitão do mato, figura que ressoa nas ações policiais, pois, no romance, são policiais pretos matando um sujeito preto. Portanto, ao estarmos diante de um romance que faz a denúncia de uma violência diária nas periferias do Brasil, a discussão não se encerra sem apontar potencialidades da luta coletiva, o que reverbera as práticas da ikupolítica: Cid retorna e narra; o irmão Cainho, com seus cadernos e escritos, produz literatura a partir da mãe e do irmão; e, com o passar do tempo, a luta de Rita Preta é amparada por outras mulheres que criam laços de resistência a partir da dor da perda do filho de forma prematura pelas mãos do Estado, o que Vilma Piedade denomina de dororidade, conceito segundo o qual a dor une essas mulheres e ocasiona uma rede de apoio:
“Muitas mulheres a procuraram nesses dias e seguraram suas mãos para conclamá-la à vida. Se puseram a seu lado mais para dizer do que para escutar, já que Rita resistia a falar sobre seus sentimentos. Então, elas narravam histórias com sentido ou não para o momento — com seriedade e humor —, no intuito de resgatar Rita da tristeza prolongada. [...] Eram vizinhas novas e antigas, como Fátima, de todos os lugares por onde passou, ex-colegas de trabalho, clientes fiéis ou novas das refeições produzidas por muito tempo, de sua habilidade em podologia, mães do movimento e projeto social, mulheres de axé, católicas e espíritas confortando-a com sua presença.” (p. 316-317)
IV
Itamar Vieira Junior encerra a trilogia Terra como o próprio elemento natural que dá nome à série: de forma dura. Ao longo dos três romances, percebo temáticas importantes para compreender o Brasil contemporâneo e os ecos persistentes da colonização — ainda que os romances se passem na Bahia. Coração sem medo, por exemplo, ao narrar a via crucis de uma mãe em busca do filho, reflete uma experiência vivida por inúmeras mulheres — realidade que, tragicamente, continua a crescer.
Este é um romance cuidadosamente gestado, de enredo bem costurado, que dialoga com as histórias anteriores e apresenta experimentações estéticas que ajudam o leitor a compreender que o tema abordado não é recente. Estamos diante de um livro que faz jus aos seus antecessores e mostra o amadurecimento literário do escritor, consolidando-o como relevante para a literatura negra no Brasil. Prevejo indicações a prêmios e uma vida longa para esse romance.
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Coração sem medo
Itamar Vieira Junior
Todavia, 2025
345 p.

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