As máscaras em Osamu Dazai
Por Amanda Fievet Marques

É notável na obra literária do escritor japonês Osamu Dazai, especialmente em As flores da bufonaria (1935) e Declínio de um homem (1948), o trabalho na construção das máscaras. A primeira revela Yozo Oba como bufão, enquanto a segunda realiza o desnudamento progressivo da personagem, conduzindo-o ao estado de homem em ruínas, cujo rosto já não cabe mais em nenhuma máscara. O percurso de Yozo, da pantomima à animalidade, ressalta a função primordial da comédia como mecanismo de sobrevivência nesse caso, bem como sua insuficiência. Com o gesto derradeiro, a queda da última máscara, Dazai emerge e se esvai.
A primeira máscara: o bufão
O livro As flores da bufonaria (1935) é a prequela do romance Declínio de um homem (1948). A ficção, em ambos, recolhe sua matéria, seus detritos, nas profundezas das sensações e lembranças do próprio Dazai.
No primeiro, Dazai desenvolve o período da internação de Yozo Oba num sanatório após a tentativa de duplo suicídio com Sono, sua namorada, lançando-se ao mar de Tamotogaura. Sono não sobreviveu, enquanto Yozo foi resgatado por um pescador. Essa novela é arrojada sobretudo quanto à construção da voz narrativa, que oscila entre o narrador em primeira pessoa do singular e o narrador em terceira pessoa, observando Yozo, seus amigos Hida e Kosuge, e a enfermeira Mano de um ponto de vista exterior.
O narrador em primeira pessoa é fundamentalmente metaficcional, e tece comentários ora sobre as dificuldades de escrever sua obra — o desejo de perfeição, a atração da “obra-prima” —, ora sobre o desprazer de lidar com as constrições narrativas: “Devo dizer que não gosto desses artifícios narrativos. E, no entanto, procuro usá-los mesmo assim” (Dazai, 2023, p. 16, tradução minha). Ele divaga sobre sua parca vontade de descrever cenários, assim como erige e demole paradigmas para a obra que se escreve aos olhos do leitor: “Queria que este romance fosse um romance atmosférico. […] Enquanto escrevia, comecei a me envergonhar dessa ideia de um, ah, romance atmosférico — então a demoli intencionalmente” (p. 27). Ainda consciente de que o próprio escritor não pode enxergar o valor real da obra, ele esmiúça os motivos que o levam a fazer literatura, se desejo de glória ou dinheiro, pelo que conclui que se trata, na verdade, de vingança: “Pois bem. Correndo o risco de parecer pomposo, vou dizer assim: para me vingar” (p. 28). Ele se vê como um bobo, um louco, condenado a perseguir as consequências de seu próprio trabalho, alternando entre a crença no valor da obra, e a dúvida em seu talento.
Alguns elementos que marcarão Declínio de um homem, como a constante sensação de alheamento de Yozo — “como se ele fosse algum tipo de alienígena” (p. 15) —, sua bizarrice, seu medo de ser ridicularizado, já estão presentes na novela de 1935. A animalidade aparece em As flores da bufonaria primeiro como disfarce: “Yozo Oba. Vá em frente e ria. Ele é um corvo vestido de cormorão” (p. 9). Há também o tema do riso, já que Hida e Kosuge estavam o tempo todo rindo: “Eles achavam irresistível. Pode-se dizer que eram glutões por riso” (p. 22). O que Yozo entende como uma forma de niilismo de repleção. Percebe-se o contraste entre interior e exterior, que também será desenvolvido em Declínio de um homem. Por mais que Yozo também risse e brincasse, ele o fazia apenas como gesto de retribuição da gentileza. O princípio implícito da atuação nas relações sociais prevalece, pois mesmo nos momentos em que é tomado por um turbilhão de sentimentos, Yozo não os exprime, mas se obstina na encenação do melancólico.
As flores da bufonaria, a habilidade cultivada de rir de si e do mundo, expressas na obra literária, provêm de um irremediável fundo de tristeza: “Se ao menos você [caro leitor] pudesse compreender a tristeza daqueles que cultivam as delicadas flores da bufonaria, protegendo-as da menor rajada de vento e sempre à beira do desespero!” (p. 39). Yozo estende, além disso, a bufonaria à própria vida: “Somos todos um bando de palhaços. Se quiser ver uma farsa, olhe no espelho. […] A vida é uma farsa, então que seja uma das boas” (p. 60). A primeira máscara — o bufão —, apresenta-se não só com artifício cômico, mas como mecanismo narrativo e quiçá existencial, já que Yozo exerce a comédia, isto é, “faz graça”, como forma de se integrar ao mundo.
O colapso das máscaras
Já em Declínio de um homem, o leitor se depara com três cadernos narrados em primeira pessoa, que contam a história de Yozo. Apenas o prólogo e o epílogo se constroem de um ponto de vista exterior, o de um homem que teria encontrado esses cadernos acompanhados de três fotos. No prólogo, tem-se uma análise das fotos, cujo tom pressagia a ruptura dessa vida com a sociedade, o processo de exílio dos outros e de si que desaguará na loucura e no suicídio.
Na primeira foto, o menino que sorri é descrito pelo observador como um animal: “É um macaco. É o sorriso de um macaco. Está apenas franzindo o rosto de forma grotesca” (Dazai, 2018, p. 14). Na segunda foto, o menino tornou-se um estudante, um rapaz cujo sorriso é agradável, “mas, por algum motivo, não parece o sorriso de um ser humano. […] passa uma impressão de artificialidade do início ao fim” (p. 14). Na terceira foto, o homem já tem os cabelos algo grisalhos. O observador nota que “esse rosto não só não tem expressão, como nem ao menos deixa alguma impressão ao ser visto” (p. 15) e, em seguida, retorna à animalidade: “talvez se colocassem a cabeça de um cavalo no corpo de uma pessoa o resultado fosse semelhante” (p. 16). Essa desumanidade, ou melhor, tal inaptidão ao que é humano, marcará a vida de Yozo, bem como os cadernos subsequentes.
No primeiro caderno, o narrador retraça algumas lembranças de sua infância, intercalando-as com reflexões sobre os hábitos de seus familiares, colegas e, por extensão, os hábitos humanos. Os sentimentos predominantes são a vergonha, o medo, a fragilidade — tendo em vista sua saúde debilitada — e, fundamentalmente, um alheamento, uma desconexão profunda do tecido social. Yozo não sabia o que era a fome, não tinha grande prazer em comer, nem gostava das reuniões familiares para as refeições. Ele não conseguia, tampouco, falar com seus semelhantes: “Quase não consigo falar com meus próximos. Simplesmente não sei o que dizer e tampouco como dizê-lo” (p. 23). Justamente por esse motivo, Yozo tem necessidade de forjar para si a máscara do palhaço, do pierrô, do bobo da corte: “A minha solução para isso foram as palhaçadas. […] Sentia apenas medo e, sem suportar aquele ambiente pesado, me tornei um grande palhaço” (p. 23). Yozo estende a pulsão dissimuladora às trocas sociais em geral, pois é apanágio humano intrujar: “as pessoas escondem a índole inata” (p. 24). As relações supostamente saudáveis são apenas enganos mútuos bem-sucedidos, e as pessoas tidas como respeitadas o são apenas na medida em que conseguem enganar a todos quase completamente. Atuar e ocultar são modos de existir no mundo adotados por Yozo para não ser repreendido, nem ser taxado de esquisito.
No segundo caderno, a máscara do bufão de que se vale Yozo ainda parece funcionar socialmente, garantindo-lhe certa popularidade entre os colegas da escola. Essa estabilidade se rompe quando Takeichi percebe a intenção deliberada de suas palhaçadas, episódio vivido pelo narrador como vertigem e ameaça de dissolução psíquica. É também Takeichi quem desperta em Yozo o desejo da pintura, entendida como tentativa de apreender uma verdade estética desvencilhada das expectativas sociais. Contudo, ao mudar-se para Tóquio, Yozo conhece Horiki, figura decisiva para seu declínio, que o introduz ao álcool, à prostituição, e propicia sua autodestruição. Tais vícios deixam de aparecer apenas como excessos juvenis e passam a funcionar como instrumentos de amortecimento diante do “pavor dos seres humanos” (p. 55). O suicídio duplo com uma namorada de dois dias, Tsuneko, desponta como consequência da impossibilidade de sustentar indefinidamente a máscara que lhe permitia existir em sociedade.
No terceiro caderno, a breve tentativa de reconstrução da vida de Yozo ao lado de Yoshiko, jovem e virgem esposa com quem se casara, fracassa entre suas recaídas, sua dependência química e, finalmente, a internação psiquiátrica. A ruína se desvela enquanto desagregação do pertencimento humano. No epílogo, uma voz narrativa externa relata que não conheceu Yozo, e que teria recebido esses cadernos da dona do bar de Kyobashi.
Enfim, se em As flores da bufonaria ainda existe o disfarce, em Declínio de um homem o colapso das máscaras se imiscui ao processo de ruína. A figura do homem esfacelado irrompe quando já não há mais máscara capaz de proteger nem encobrir. O que resta é o rosto despido, sem a mediação do riso. Ao contrário do bufão, que fazia da pantomima um recurso de sobrevivência, Yozo se encontra à deriva, entregue à autodestruição, arrasado pela vergonha e pelo vício. O epílogo, ao deslocar novamente a voz narrativa para fora do protagonista, reforça o desnudamento. Yozo agora é uma história, um corpo alquebrado, desterrado da humanidade.
Referências
DAZAI, Osamu. Declínio de um homem. Tradução de Ricardo Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.
DAZAI, Osamu. The flowers of buffoonery. Translated by Sam Bett. New York: New Directions Books, 2023.
Referências
DAZAI, Osamu. Declínio de um homem. Tradução de Ricardo Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.
DAZAI, Osamu. The flowers of buffoonery. Translated by Sam Bett. New York: New Directions Books, 2023.
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