Godzilla Minus One: o símbolo revisitado
Por Davi Lopes Villaça

Antes de assistir a Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki, eu já havia assistido a dois filmes com o monstro, ambos americanos: Godzilla de 1998 e Godzilla de 2014. Um mais esquecível do que o outro (embora o primeiro, assistido aos seis anos de idade, tenha me impressionado bastante). Por um longo tempo imaginei que filmes de Godzilla eram, em essência, bobagem. Nalgum momento alguém me contou que o monstro tinha um significado profundo para os japoneses, que ele era uma metáfora para as armas atômicas, mas isso não me parecia melhorar muito as coisas. Então, depois de escutar vários comentários positivos sobre o novo filme, fui ao cinema com amigos na expectativa de me divertir com uma bobagem muito bem produzida. Saí da sala positivamente surpreso, tendo enfim compreendido que, se Godzilla se tornara um monstro tão icônico, isso tinha a ver com sua grande força simbólica, e não apenas com nosso gosto por ver lagartos gigantes quebrando coisas.
Mas o que Godzilla simboliza? Talvez não se possa dar uma resposta conclusiva. Alguém uma vez disse sobre Moby Dick: trata-se evidentemente de um símbolo, embora ninguém saiba exatamente do quê. Talvez esse não saber tenha a ver com a própria natureza dos símbolos; se pudéssemos de fato saber o que a baleia representa, diríamos tratar-se de uma alegoria ou de uma metáfora, algo que o próprio Melville quis deixar claro que ela não era. Símbolos, por sua vez, fazem mais do que substituir: eles evocam e condensam ideias diversas, sem se reduzir a nenhuma delas.
Era isto que autores como Freud e Jung tinham em mente ao se referir ao caráter simbólico dos sonhos. Ambos afirmavam que as imagens que vemos quando dormimos simbolizam uma porção de coisas, para além do que nos é possível destrinçar. Jung, mais particularmente, enfatizava que as várias ideias reunidas no símbolo, qualificando-se umas às outras, acabam de tal modo interligadas que produzem uma ideia nova e autônoma. Em última análise, um símbolo não representa uma ideia, nem mesmo um conjunto delas: ele é uma ideia, cuja complexidade semântica apenas o próprio símbolo pode expressar na sua inteireza. Quando nos propomos a explicar um símbolo, elencando seus diversos significados, procedemos a um trabalho de dissecação no qual corremos o risco de matar a expressão da ideia viva.
Uma fundamental diferença entre a perspectiva freudiana e a jungiana está em que, enquanto a primeira busca a origem das ideias formadoras do sonho na experiência individual do sonhador, a segunda recorre a uma suposta memória comum de humanidade, a um imaginário acumulado durante milênios de evolução e que cada indivíduo traz como herança, mesmo que não saiba disso. No livro organizado por Jung, O homem e seus símbolos, no artigo “Chegando ao inconsciente”, do mesmo autor, há uma imagem do primeiro Godzilla (1954), de Ishirō Honda, com a seguinte observação: “seres mitológicos são, agora, curiosidades de museu. Mas os arquétipos que exprimiam não perderam o seu poder de atingir as mentes humanas. Talvez os monstros de filmes de horror modernos sejam versões distorcidas de arquétipos não mais reprimidos”. Realmente, é fácil pensar em Godzilla como algo saído de um antigo sonho da humanidade, qual uma fera mitológica. Lembremo-nos do Leviatã bíblico e do monstro marinho Ceto (que dá nome à família dos cetáceos), enviado pelo deus Posidão para devorar a princesa Andrômeda, que acaba sendo salva pelo herói Perseu.
No filme de 1954, na ilha onde Godzilla costumava aparecer, os habitantes locais realizavam rituais e ofereciam meninas em sacrifício para aplacar sua ira; depois, os cientistas descobrem tratar-se de uma criatura muito antiga, como já sugeria sua aparência jurássica. Aliás, embora Godzilla faça pensar num monstruoso dinossauro, seu nome japonês, Gojira, tem uma raiz cetácea: a criatura fora preliminarmente pensada como um misto de gorila, gorira, e baleia, kujira. Todas essas bestas marinhas parecem encarnar, como o próprio meio de onde elas saem, a força do caos primevo que preexistiu à ordenação do universo e que ameaça destruí-lo. Elas pertencem a profundezas abissais e a tempos imemoriais, como o próprio Inconsciente descrito por Jung, cujas manifestações volta e meia invadem a plácida ilha de nossa jovem consciência.
Deixando de lado os arquétipos universais, Godzilla dialoga também com certa experiência histórica e regional. Num país insular como o Japão, regularmente assolado por tsunamis e terremotos, a figura do colosso traiçoeiro que sai do mar para arrasar prédios tem feições bem familiares. E claro, como todo fã sabe, o monstro foi pensado como uma metáfora para as bombas atômicas que os americanos lançaram sobre Hiroshima e Nagasaki. Desde o seu surgimento, Godzilla tem sido uma forma de os japoneses elaborarem o trauma da devastação nuclear, que acabou por moldar a própria identidade do país no pós-Guerra, com sua índole pacifista e anti-militarista. No filme de 1954, a criatura é expulsa de seu habitat submarino por testes com bombas atômicas, cuja radiação acaba também por transformá-la. Godzilla, portanto, é tanto a encarnação de uma força natural ancestral quanto o produto da hybris do homem moderno.
Vale frisar, contudo, que o monstro, tantas vezes reciclado pelo cinema (com 33 filmes no Japão e outros 5 nos Estados Unidos) não representa sempre a mesma coisa, ou pelo menos não do mesmo modo. Obras de arte não vivem apenas de recuperar e expressar grandes ideias culturais cujo significado já está dado. Elas a todo momento redefinem e ressignificam os símbolos com que trabalham, atualizando-os para contextos específicos. Nesse sentido, estão sempre recriando-os, acrescentando-lhes novos significados — ou então, esvaziando-os, como geralmente ocorre com filmes de baixa qualidade. Se é verdade que Godzilla é uma figura de grande potencial simbólico, isso não quer dizer que todos os seus filmes estão empenhados em explorar esse potencial.
Portanto, vejamos qual é especificamente o caso de Godzilla Minus One. Num Japão derrotado, numa Tóquio devastada pela guerra, pessoas reconstroem seus lares em meio aos escombros. Famílias improvisadas se formam a partir dos restos das antigas. Uma vida nova está pronta para começar, e parece possível esquecer a dor, a perda e a vergonha. Mas o espírito da guerra e da destruição estava apenas adormecido: ele retorna para atormentar os sobreviventes na forma de um gigantesco monstro reptiliano que solta raios radioativos pela boca. Além de repercutir algo da História recente do país, Godzilla se liga à história particular do protagonista, Koichi Shikishima, um ex-piloto kamikaze que, logo antes do fim da Guerra, desertou de sua missão suicida, fingindo uma falha técnica no seu caça. Enquanto seu avião está sendo examinado, a base aérea onde Koichi pousara é atacada por um ainda jovem Godzilla, com discretos 15 metros de altura. O piloto consegue chegar à cabine de seu caça, mas suas mãos paralisam e ele não consegue disparar os canhões contra a criatura, que mata vários de seus companheiros antes de desaparecer no mar. Não se explica o porquê de Koichi não conseguir atirar, mas sua inação nesse momento parece correlata à sua recente deserção. Como pegar em armas quando a luta está tão identificada com a morte? E, depois, como viver, quando a vida é narrada como fracasso e desonra? No presente do pós-guerra, Koichi, tendo fugido duas vezes ao combate, é dominado pelo remorso, perdendo-se entre dois tempos e entre dois ethos distintos: um que preconiza o sacrifício, a morte heroica pela glória nacional, e outro que opta pela vida. É dessa forma que o drama particular do herói se reconecta com o destino coletivo de seu país. Trata-se da história de um Japão que teve de se haver com seu passado, de se desligar de seus mitos nacionalistas e imaginar para si novos paradigmas civilizatórios.
Seria lógico pensar que Koichi falhou em lutar contra Godzilla da mesma forma como falhou em lutar contra os americanos. Mas o filme evita essa identificação do monstro com o inimigo da nação, na medida em que evita o próprio discurso nacionalista. A luta contra a criatura é empreendida não pelo governo ou pelo exército japonês, vistos sempre com desconfiança, mas por uma livre associação de pessoas diversas, que aspiram não à glória, mas à defesa do futuro de suas famílias. O que o monstro simboliza é a própria guerra, na qual pouco tempo antes o Japão tão orgulhosamente tomara parte. Como o filme enfatiza (de forma talvez excessivamente didática), já não é uma luta em que é honroso morrer, mas uma luta contra a própria morte, ou, mais propriamente, contra a sanha destrutiva que não está apenas em Godzilla.
Tal luta é, por definição, eterna. O monstro, que sempre se regenera e sempre retorna, não pode ser derrotado, apenas provisoriamente neutralizado. E ele também não pode ser aplacado, até porque não sabemos o que o move. Qual é a motivação de Godzilla? O que ele espera obter com a destruição da cidade? Parece não haver objetivo: o monstro destrói apenas por destruir. Sua figura, a urrar para o céu fumacento, sobre os escombros de bairros recém-pulverizados, faz pensar num deus da carnificina, deslumbrado com seu poder aterrorizante – o que também apela para algo muito arraigado em nós. Em sua famosa carta a Einstein, Freud argumentou em 1933 que, se as guerras sempre têm suas razões particulares, historicamente determinadas, elas encontram um importante respaldo na constitutiva inclinação do ser humano para a destruição, tanto a sua quanto a de seu semelhante. A “pulsão de morte”, diz ele, “opera no interior de cada indivíduo e almeja então levá-lo à dissolução, reconduzir a vida ao estado de matéria inanimada”. Não está nisso parte fundamental de nosso prazer com filmes de Godzilla? Amamos o monstro, tanto quanto o tememos, porque ele simboliza a libertadora aniquilação da pesada ordem a que nos submetemos não só para vivermos em sociedade, mas também para nos constituirmos como um Eu mais ou menos coeso e definido. A criatura, ao mesmo tempo em que nos pisoteia, vinga-nos dessa coisa aborrecida chamada civilização.
Caberia pontuar ainda que nenhum símbolo tem significado em si mesmo. Aliás, nada tem: o que significa, significa sempre para alguém. A força simbólica das imagens artísticas não está na variedade de ideias que elas encerram, mas na variedade de ideias que elas são capazes de evocar e articular nos espectadores, apelando ao seu imaginário. Obviamente, esse processo é direcionado: a obra é feita com o objetivo de simbolizar; porém, muitas vezes há que se contar também com boa dose de simbolismo acidental, que se afirma à revelia da intenção consciente do artista. Depois de assistirmos a Godzilla Minus One, eu e meus amigos nos reunimos para assistir a Shin Godzilla (2016), de Hideaki Anno, lançado cinco anos após o acidente na usina nuclear de Fukushima. O fogo bafejado pela criatura evoca o revitalizado pavor dos japoneses diante de ameaças nucleares. Godzilla, coberto de tumores e cuspindo sangue, é ele mesmo uma vítima da radioatividade. Assistimos à triste caminhada de seu corpo pútrido, em contínuo e doloroso processo de mutação. A cada novo estágio, ele se mostra mais poderoso, sem perder, contudo, seu jeito desengonçado, como se mal ajustado à própria forma. A evolução da criatura se confunde com a progressão da doença. Nisso podemos entrever algo de nossa marcha civilizatória, cujos aperfeiçoamentos técnicos e culturais (se ainda podemos julgá-los assim) trazem sempre novas formas de sofrimento e a atualização de nosso incontornável mal-estar.
Bibliografia citada:
FREUD, Sigmund, “Por que a guerra?” In: Cultura, sociedade e religião: O mal-estar na cultura e outros escritos. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
JUNG, Carl Gustav (org.), “Chegando ao inconsciente” In: O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1995.
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