Masuaki Kiyota imprimia fotos com a mente e/ou Mutarelli escrevia uma vida com a literatura

Por Felipe Vieira de Almeida

Lourenço Mutarelli. Foto: Karime Xavier



Por mais bem estabelecido que Lourenço Mutarelli seja como escritor, quando leio seu nome me vem à cabeça a capa do livro A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, de 2011, editado pela Cosac Naify. Nessa edição, a ficha catalográfica fica no final do livro e, só depois de ter lido tudo e ver por acaso quem assinava a capa, nunca esqueci a pertinência daquele trabalho. Mais de uma década depois, recebo um exemplar cedido por esse site para resenhar o livro mais recente do autor, Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos, editado pela Companhia das Letras.

Este é antes de tudo um frenesi de memórias, pesadelos, imagens, sobreposições e... fantasmas, tanto subjetivos quanto propriamente ditos no enredo. O livro começa como termina, logo após atingir uma voltagem altíssima, entretanto, o leitor também aprende a ler ao longo do processo. O início me pareceu lento e confuso, personagens que não são quem são, fantasmas, aparições, memórias, idas e vindas no tempo, além de linhas narrativas que se tocam e se alteram. No livro, o que foi lido nunca é garantido, conforme o leitor avança a história pregressa se altera com tanta frequência que a certa altura o processo se torna até esperado e eu já lia na expectativa de uma subversão logo adiante. O livro perpassa o passado, arrependimentos e ressentimentos sem nos oferecer um lugar seguro, Mutarelli construiu um passado sempre presente, se transformando à revelia do desespero de seus personagens e narradores. Diria até, à revelia de seus leitores menos dispostos a lidarem com um livro traiçoeiro, mas delicioso.

Ler Masuaki é uma experiência que extrapola o convívio com a escrita. Há muitas técnicas de notação gráfica ao longo do texto, desde simples palavras sublinhadas até trechos justapostos em quadros lado a lado contando de formas diferentes a mesma cena; isso sem falar no uso recorrente dos quadradinhos dos jogos de caça palavras, proêmios e títulos duplos para todos os capítulos, citações de Ovídio, inúmeras notas de rodapé e até uma foto pessoal. Aqui há excesso (chega a ser um erro?) e acerto, Mutarelli demonstra pleno controle das técnicas que emprega e é feliz em transpor visualmente o ritmo vertiginoso e confuso da narrativa; por outro lado, também é um mecanismo intrusivo e que compete com o fluxo da história. Há trechos nos quais o artista visual e o escritor, que são uma mesma pessoa capaz de realizar ambas criações com maestria, parecem disputar espaço e o texto soa atravancado pelo excesso. Dito isso, importa ressaltar que é um excesso individualmente excelente; o escritor alcança, dá conta, em termos técnicos, mas nem sempre o estilo bem executado funciona a favor do livro como experiência integral para o leitor. Por momentos, me peguei tentando manter vivo o fio narrativo que se atenuava em meio ao jogo gráfico/ estilístico.




Muito tem se falado do aspecto autobiográfico deste romance, uma seara que, a bem da verdade, se me fez conhecida através do próprio livro. Sei muito pouco da biografia do autor e, conforme avançava na leitura, o despudor e a forma como abordava temas, como o da perda do irmão, fizeram-me pesquisar na internet e tomar conhecimento de alguns aspectos biográficos relevantes em Masuaki. Mutarelli, parece-me, fez do livro um confessionário sem ressalvas. Quase escrevi que ele exorcizou seus demônios, mas a sensação não é bem essa; a crueza do texto cumpre mais uma função de autoflagelo público, uma tentativa de expiação de culpas que ele não sabe como abandonar.

Já agora me perco divagando à volta do que não conheço: a vida pessoal do escritor. Esse é um grande porém do livro: alguns trechos soam como sinalizações do escritor para pessoas específicas e parecem perder em subjetividade para o leitor que não o conhece. O peso do autobiográfico parece ter impedido que o escritor se colocasse distante o bastante para enxergar melhor alguns aspectos da narrativa menos ricos  porque nem todos acessam o que para ele deve estar em carne viva. Mas, isso talvez seja esperado. Penso na cena em que o Professor chora com a angústia de não compreenderem seu sofrimento; uma história contada nem sempre alcança as nuances que podem existir em uma ridícula queda na calçada de uma ex-companheira. 

A felicidade da autobiografia é que nossas derrotas, tristezas e felicidades não são tão diferentes entre uma casa e outra. O escritor se coloca literalmente no livro já perto do final, mas há um coração pulsando que brota com força também em outros pontos. Em uma das cenas, um filho recebe em sua casa o pai derrotado pela vida e aqui o escritor mantém seu estilo — quem ler saberá; mas há uma beleza trágica e melancólica, digna dos correligionários de Ovídio e contada ao gosto de Mutarelli. 

Considerando o que foi dito, é preciso aceitar os termos propostos pelo livro; não faz sentido tentar julgar uma obra por aquilo que ela não se propõe a ser e se Mutarelli peca pelo excesso, é por uma certeza do que deveria alcançar. Estão postos os seus pilares: narrativa caótica, marcações visuais e grafismos, autoficção inclemente. Esses fundamentos se impõem de forma tímida e crescem ao longo do livro, ao ponto em que demora um pouco a surgir a percepção do excesso que citei. A familiaridade com o ritmo geral da narrativa constrói uma camada extra, além do conteúdo do texto em si, na qual tudo vai em direção a um paroxismo atrelado aos extremos a que chegam seus personagens e esse é um dos maiores êxitos: colocar o leitor no centro do caos oferecendo a mesma estabilidade permitida aos seus personagens, nenhuma.

Enquanto Valter Hugo Mãe assinava um de seus livros a pedido meu na Flip do ano passado, brinquei com ele dizendo que gostava das edições que tinham se esgotado com o fim da antiga editora, ele sorriu e concordou, disse que também as considerava entre as edições mais bonitas de seus livros. Quando eu disse isso pensava na capa que Lourenço Mutarelli fez lá em 2011, mas daqui pra frente, ao me lembrar dessa capa, lembranças de irmãos que se desencontraram, amores fracassados e um tal Masuaki Kiyota estarão presentes nesse insuspeitado repertório afetivo de longa data.


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Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos
Lourenço Mutarelli
Companhia das Letras, 2026
384 p.

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