Setembro negro, de Sandro Veronesi
Por Sérgio Linard
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| Sandro Veronesi. Foto: Matilde Fieschi |
No Brasil, o primeiro contato da maior parte dos leitores, inclusive deste que escreve, com a obra de Sandro Veronesi se deu com o excelente O colibri (obra também já resenhada para este blog). Certamente, o romance mais recente alcança o leitor com mais facilidade, pois já traz impresso em sua capa a chancela do prêmio Strega de 2020; um recurso comum do jogo mercadológico. Faz parte. Registro, também, que a ordem de publicação das obras no Brasil ocorreu de forma inversa ao andamento original da obra do escritor.
Diante disso, posso dizer que o movimento de se encantar com a narração de O colibri tem conduzido os leitores na busca por mais obras do autor e chegam em Setembro negro.¹ Trata-se do percurso que todo escritor deseja: o de que sua obra sirva como “propaganda” para sua própria obra. Para o caso de autores multifacetados e inventivos como Veronesi, isso pode esbarrar na pouca abertura do leitor justamente para essas faces distintas, porque, saindo de um texto para outro do mesmo autor, costuma-se criar expectativas de encontrar o mesmo ou similar ao que se acabou de ler.
Também pode pesar contra Sandro Veronesi a proximidade literária com nomes de mesma origem já consolidados entre o público brasileiro, como Domenico Starnone e Elena Ferrante, pois, nestas duas situações, temos conhecimento de histórias que foram publicadas como Trilogia Sentimental, no caso daquele, e Tetralogia Napolitana, no caso desta; assim, é razoavelmente justificável a crença do leitor de que no caso de Setembro negro teremos acesso ao mesmo tipo de narrativa e de escrita encontrada em O colibri. Se esse for o caso, a expectativa pelo mesmo, registre-se por agora, a leitura será frustrante.
É importante não encarar estas obras como continuidades, para que os projetos literários de cada uma delas sejam compreendidos sem prejuízo de um ou de outro. Faço este alerta para que não entremos em uma leitura comparada prejudicial, em que propostas diferentes sejam tratadas como se iguais fossem e, deste modo, registrem falhas entre si.
A memória, certamente, é o elemento que pode ser destacado como elo para estes dois livros de Veronesi. Mas no caso de Setembro negro a rememoração ganha um teor mais expositivo, em que o drama de quem conta a história é convidativo — quase novelesco — ao típico envolvimento com a trama narrativa proporcionado pelos narradores em primeira pessoa do singular. As comuns descrições dos personagens são, aqui, substituídas por capítulos dedicados a eles em que as experiências do narrador com eles ajudam-nos a construir informações sobre os personagens secundários, mas sempre com a ressalva de que é uma leitura encalacrada pela focalização exclusiva daquele que conduz a história. Os onze capítulos da primeira parte do romance — o livro está dividido em duas partes —dedicam-se, pois, a essa apresentação com descrição-narrativa do pai, da mãe, da irmã e de Astel, figuras cruciais para a história que o hoje sexagenário Gigio conta-nos.
“Eu gostaria de dizer logo a vocês o que me aconteceu no verão dos meus doze anos, mas sei que, se o fizesse, além do que se perdeu naquela ocasião, também se perderia a possibilidade de responder à pergunta pela qual decidi narrá-la. Minha esperança é me libertar desse prego enferrujado que cravei na cabeça – inverter completamente aqueles dois versos de Auden que citei no início e dos quais gosto tanto, e um dia conseguir dizer que, embora seja impossível esquecer-se de ter sido infeliz, isso não significa que se deva sempre recordar o porquê.” (p.97)
O acontecimento anunciado no trecho acima é mencionado desde as primeiras páginas do romance e a preparação para sua chegada se sustenta até muito próximo do fim da narrativa. Por meio desta escolha e da reiterada reafirmação dela, o autor cria uma nítida tensão, excitação em que o mistério se constrói paulatinamente; a obra materializa-se, pois, como um thriller em que a revelação iminente, tergiversada com o aprofundamento psicológico, prende o leitor a cada página. Salvas as devidas proporções, a obra se aproxima com a do autor conterrâneo de Veronesi, Starnone que em Laços cria similar mistério. Algo também facilmente percebido em A filha perdida, de Elena Ferrante.
Obras que adotam este expediente, é bem verdade, acabam tendo reconhecimento menor entre críticos, ainda que, por vezes, sejam bem aceitas por um grande público, como se o fato de dialogar de forma mais ampla com vários grupos de leitores fosse condição automaticamente excludente da qualidade literária. Esse é um burburinho que, inclusive envolvendo os escritos de Ferrante, tomou conta das redes sociais brasileiras há pouco tempo, sob o qual parece-me recair o pecado da generalização. Obras literárias precisam ser analisadas caso a caso. Ou esqueceremos dos famosos romances de estreia de muitos escritores que, por vezes, são esquecíveis em comparação com as suas obras seguintes?

Analisando, então o caso específico de Setembro negro, é bastante pertinente a recomendação da leitura com demarcação explícita de elogios para a forma como a história foi conduzida. Vejamos que se trata de uma pessoa com, pelo menos, sessenta e dois anos de idade que, agora, conta-nos um grande acontecimento ocorrido quando ele tinha apenas doze anos. Para que não apenas o conteúdo demarque esta passagem, o apelo adolescente da forma faz-se pertinente porque há naquilo que se lê acontecimentos que são comuns para a juventude, mas que com o olhar da adultês podem parecer simples.
Aqui, dessa feita, o autor recorre a uma inventividade em que a forma do romance se mostra capaz de prender até mesmo o leitor mais cético da máxima de que a infância é um terreno sob o qual pisamos eternamente. Há, portanto, nesta obra motivos suficientes para que concordemos com Starnone ao dizer que Veronesi é um dos mais “habilidosos e profundos contadores de histórias”. Uma narrativa com apelo adolescente que se articula para convencer o público de quem fala, mas também o público com quem fala.
Dentre os diversos momentos em que essa habilidade narrativa de Sandro Veronesi pode ser destacada, encontramos na página 222 uma das mais emblemáticas. Gigio, o filho-narrador, está escondido abaixo do quarto dos pais e tenta ouvir informações sobre um possível assassinato ocorrido no litoral onde a família anualmente passa o período de férias. Na tentativa de tentar entender o que ocorreu com algum detalhe inaudito para crianças, o filho precisa contentar-se com aquilo que consegue “pescar” dos sussurros dos pais. Nesse momento, o narrador não cai na tentação de fazer a ansiosa vontade do leitor ao criar um diálogo sem qualquer verossimilhança, apenas para que uma riqueza de detalhes seja dita. Afinal, se os pais já sabiam do ocorrido e conversam apenas para atualizar-se, o que justificaria repisar todas as informações sobre o ocorrido? Sabiamente, pois o narrador reflete: “[...] Mas ainda não dava para entender o que tinha acontecido. Não o diziam. De resto, eles sabiam, por que haveriam de dizer? Era eu quem não sabia.” (p. 222, grifos meus)
Como se vê, esta é uma escolha que exigirá que a história, para não apresentar lacunas, gaste mais tempo e espaço na mancha gráfica e na verticalidade do texto para criar um ambiente crível em que as informações sejam descobertas. Algo que demonstra como o autor sabe exatamente o caminho pelo qual decidiu trilhar e tem plena consciência dos desafios impostos pela própria escrita. Habilidade, compromisso e atenção com o fazer literário que destacam mais ainda o autor e seus escritos.
Neste romance, temos, portanto, uma forma de fazer com que o mistério seja utilizado a favor da continuidade da narrativa, sem precipitar a história apenas neste abismo. Há, logo, nessa profundidade da forma, uma profundidade do conteúdo que se retroalimentam e fazem este um texto que consagra o autor, considerando as poucas publicações dele a que temos acesso até o momento.
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Setembro negro
Sandro Veronesi
Karina Jannini (Trad.)
Autêntica Contemporânea, 2025
Autêntica Contemporânea, 2025
288 p.
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Notas
1 Consta também no Brasil, Caos calmo. Mas, o livro publicado pela Rocco está esgotado nas livrarias.

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