A escrita e o ser em Análise de Vera Iaconelli

Por Herasmo Braga



No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser.

Aristóteles, como já mencionado em outras oportunidades, em sua Poética, expressa a constituição do homem pela narrativa. Seria, portanto, o homo narratum. Dessa maneira, não é de se estranhar, nas interpretações e inferências do cotidiano, a necessidade do indivíduo de construir sua própria narrativa, ser o protagonista da sua história, entre outras. Todavia, importa diferenciar como essa narrativa será escrita. Será ela tecida por uma escrita que se vive e, portanto, por meio dela, compartilha-se experiências ou, de outra ordem, será ela pautada em falsidades, alheia à vida e, por essa razão, não se poderá tomá-la como ficcionalidade e sim com uma falsificação da escritura, devido à ausência de organicidade, de vitalidade, de expressividades das vivências, substâncias essas que se encontram nas produções ficcionais? Sob a égide dessa significativa diferenciação, é preciso uma pequena reflexão, pois, ao se deparar com essas modalidades de escrita, sem qualquer dificuldade, é possível reconhecer qual a desnecessária e, portanto, incapaz de produzir sentido ou qualquer tipo de envolvimento nem para quem se escreve, muito menos para aquele, quiçá por descuido, se deparou no ato da leitura, com essa narratividade sem resplandecência de vida.

Jorge Luis Borges em Outras inquisições, no texto “Do culto aos livros”, no livro seis das Confissões de Santo Agostinho, evidencia: ‘Quando Ambrósio lia, corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido, sem proferir uma palavra nem mover a língua...’ — lembrando que Santo Ambrósio foi bispo em Milão por volta de 384, e Santo Agostinho fora o seu discípulo. Desse episódio que, hoje, nada de anormal, mas no momento em que a escrita passa a ganhar cada vez mais projeção, provocou em Santo Agostinho um espetáculo singular, que Borges irá interpretar: “Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição, omitindo o signo sonoro; a estranha arte que ele iniciava, a arte de ler em voz baixa, resultaria em consequências maravilhosas. Resultaria, passados muitos anos, no conceito do livro como fim, não como instrumento de um fim”. Essa interessante observação de Jorge Luis Borges enaltece a grandiosidade do compartilhamento de ideias, concepções, narrativas que estejam incididas de vitalidade e de relação com a vida, com os seus múltiplos sentidos.

No momento em que o indivíduo se depara com a palavra a ser escrita, com a ideia a ser desenvolvida, a narrativa a ser produzida, há o encontro no testemunho da página em branco, dele com o seu íntimo. Seja este de vida ou de conhecimento. Estar desprovido de qualquer um dos dois será logo denunciado nos primeiros registros. Até quando se tenta falsear com o uso da escrita, incontinenti o texto se mostrará disparatado. Vera Iaconelli, no tocante ao processo da escrita, em sua obra Análise, destaca: “Escrever modifica tudo isso, criando ordem onde nunca houve, inteligibilidade no caos, e revelando furos naquilo que parecia completo e acabado”. Destarte, o ato da escrita é um diálogo profundo do indivíduo consigo mesmo, seja no âmbito cognitivo consciente, seja nos rastros do seu inconsciente. Não há como se desprover dessas relações caso se pretenda compartilhar vivências em ideias, formulações, narrativas. 

A escrita que vigora é aquela pautada na entrega, tanto na modalidade consciente ou inconsciente. Não há escrita com sentido e que seja relevante se não houver essa cumplicidade e esse permitir ao por vir de maneira propedêutica ao escutar a si mesmo. Como compartilha Vera Iaconelli em outra passagem da sua obra, ao confessar na ação da escritura: “A FUNÇÃO DA ESCRITA segue enigmática para mim, e a angústia que a acompanha me faz pensar que essa é uma das poucas situações — entre as quais eu incluiria a clínica, a leitura e o sexo — em que ou estamos totalmente presentes ou nada acontece”. Essa dedicação momentânea e egoísta à escrita, que problematiza algum aspecto da existência ou contribuição na expansão do conhecimento, apesar de parecer muito, na realidade é pouco do que entregamos para ouvir a nós mesmos e, por meio da tessitura no papel, podemos compreender em algum ponto algo ainda não superado, ou vivenciar pela memória algum afeto marcado, compartilhar experiências ou iluminar ideias para que outras pessoas possam se reconhecer também nesse tear da escrita. 

Toda essa carga que reside na escrita é responsável pela expansão das subjetividades dos sujeitos nas narrativas coexistenciais de realidade e ficcionalidade. Distanciar-se dessa apropriação é ficar no turvo das artificialidades em que nos deparamos continuamente e que possui como uma das grandes funções silenciar o indivíduo dele mesmo. Portanto, escrever é um traço de contato com o mundo e perceber-se nele. 

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Análise
Vera Iaconelli
Zahar, 2025
208 p.


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