Aforismos de um imoralista

Por Thiago Teixeira


André Gide. Foto: Laure Albin-Guillot



O imoralista é o romance em que a influência de Nietzsche mais se faz presente na obra de André Gide. O protagonista Michel leva às últimas consequências o individualismo, o abandono da moral cristã, o desprezo pela fraqueza e pela doença, e positivamente passa a adotar um amor à vida, aos sentidos, aos prazeres, à força, ao corpo. Os valores cristãos são simplesmente substituídos pelos valores de um novo homem, em sentido de plena positividade perante a vida e a ação. Mas quem realmente conhece Nietzsche percebe a presença dele em outros aspectos do récit (Gide não chamava O imoralista de romance, mas de récit), sobretudo quando se lembra das considerações que ele fazia a respeito da História. Nietzsche pregava uma História que levasse o homem à ação, uma História que não fosse negação da vida, mas afirmação, uma História que, em vez de domesticar o homem, o levasse à invenção, percebendo que a vida é um quadro em branco sobre o qual se deve necessariamente criar. Daí Gide escolher como personagem principal um historiador, precisamente um filólogo, que abandonara o corpo de tanto se concentrar no “espírito” e, decadente, olhava para o passado de maneira fetichista, como um colecionador de antiguidades. 

Acontece que esse intelectual começa a cuspir sangue. Depara-se com a morte iminente, diante da qual ele refaz os próprios valores. Na busca por se curar, ele passa pelo tema nietzschiano da convalescença, prestando atenção ao corpo, enquanto vai-se dissolvendo todo o padrão moral cristão em que fora criado “exercícios físicos que, decerto, implicavam mudanças em meu estado moral”. A transvaloração de todos os valores faz com que o homem voltado ao espírito se faça corpo, instinto, entregue-se ao impulso, potência e à mais intensa vontade de viver. É então que Gide nos oferece uma das mais belas páginas da literatura moderna, o capítulo VI da primeira parte do récit, quando assistimos de perto ao processo de desconstrução da personagem, à reavaliação dos valores, à descoberta do corpo, à afirmação da vida e do presente, em verdadeira apologia do sensualismo. 

É no capítulo VI que Michel percebe melhoras no pulmão e no comportamento: “eu estava mudado”. Desde a doença, diz ele, tem vivido o presente, como um animal ou uma criança, já inserindo o leitmotiv do tempo (“é possível viver quase sem lembrança” escreve Nietzsche, “e mesmo viver feliz, como mostra o animal”). Ele já não consegue mais voltar aos estudos, mesmo na tão histórica Siracusa, terra de Platão, pois o passado já não conseguia mais concorrer com o presente “percebi que alguma coisa, em mim, se não tinha suprimido, ao menos modificara meu gosto: nada mais que o sentimento do presente”. O passado mostrou-se para ele nada mais que imobilidade, e a imobilidade lhe suscitava a morte. Ecoando as lições de Considerações extemporâneas, o passado só lhe interessava, de agora em diante, enquanto se remetia ao presente, e a erudição se provava mais um dos sinais deletérios de que queria livrar-se: “Minha erudição se revelava a cada passo, sobrecarregando-me; um empecilho à minha alegria”. É que ela, a erudição, morbidamente o levava às ruínas de um tempo que não mais existia, à morte desse tempo, e, para o convalescente, nada repudiava mais que a imobilidade e a negação da vida: “eu tinha horror à morte”. 

O filólogo, o pesado erudito de outrora, já não existia mais. Michel descobria novos traços em seu ser, traços sufocados e contidos, encerrando em si novos gostos e novos valores, como se revelando por trás do antigo homem de supressões, recalques e sufocamento de instintos. O homem não é o ser eterno e imóvel que os essencialistas tanto se esforçam em pintar, e sim o devir, o vir a ser, a mobilidade constante. Ele sabia que ele não era mais o ser decadente de antes, mas um ser novo que nascia diante de seus olhos: “A bem da verdade, eu não era mais aquele sujeito doente e estudioso a quem a antiga moral, tão rígida e restritiva, convinha”. Os gostos mudaram porque o homem já não era mais o mesmo, um novo ser se revelava aos poucos naquele ser antigo, como um inseto novo nasce da antiga casca, mais vivo e verdadeiro “ser autêntico que se escondia”. 

E para explicar esse ser soterrado que agora se revelava em potência, o filólogo ironicamente se vale de uma imagem pertencente à técnica filológica: o palimpsesto: “E me comparando a um palimpsesto, eu experimentava a alegria do sábio que, sob a escritura recente, descobre no mesmo papel um texto mais antigo e mais precioso”. Ele ainda não está curado (vejamos, suas metáforas ainda pertencem ao mundo erudito, seus termos de comparação ainda são termos do mundo filológico), o ser recalcado por uma educação moral é comparado a texto antigo que subjaz a um texto mais novo de um pergaminho, mais valoroso pela descoberta e pelas possibilidades no bojo desse ser, o qual só poderá revelar-se com o apagamento de toda a moral e de tudo o que a educação e a cultura imprimiram nele: “Qual é o conteúdo desse texto oculto? Para lê-lo, não seria necessário primeiro apagar o texto recente?”. 

Apagar o texto recente: neste passo, apelamos a mais um filósofo — Descartes. É que Michel empreenderá a suspensão de seu próprio ser, abandonando tudo o que lhe ensinaram, despindo-se de todas as suas crenças, abolindo todas as regras morais que se arquitetaram em si por forças exteriores. Tudo agora está suspenso diante da dúvida. Ele quer apagar o texto novo, recuperar o texto antigo, esquecer-se de tudo o que externamente se sedimentou nele e não era dele. E o que ele descobre no pergaminho raspado?

O que se revela por sob as linhas da moral e do estudo é o corpo. Michel descobre-se um ser corporal, descoberta processada em três fases. Há primeiramente o interesse em estudar o corpo — mantém-se ainda, nesse momento, a figura do estudioso —, processo em que, superada a fase da convalescença, revela-se um sangue vivo e forte, delicadezas e a promessa de um novo ser: “Ali havia mais que uma convalescença; havia uma elevação, uma recrudescência, o afluxo de um sangue mais rico e quente”. Em um segundo momento, abate-lhe a tristeza de perceber a feiura corporal de quem se abandou durante toda a vida, abatimento que cederá lugar ao desejo de um corpo saudável. 

Aliás, perceber o próprio corpo como decadente só é possível porque este que percebe já não mais se identifica com esse corpo, o perceber em si mesmo é já índice de um novo homem. Aqui já há um processo mais avançado de melhora da saúde, Michel já consegue caminhar, recuperou-se dos pulmões, agora ele é ser desejante, é movido por um impulso positivo, um ímpeto de vida. É a terceira fase, a fase em que o egoísmo se afirma, os próprios valores se individualizam, os prazeres se manifestam sem culpa e a vida passa a ser positiva — e com ela tudo o que pertence ao mundo terreno, mutante e aberto às infinitas possibilidades. O ideal e imóvel (agora visto como antigo e mórbido) dá lugar ao real e contingente, a vida enquanto não formatada ou fechada. A ideia, em suma, dá lugar ao corpo. 

E quão tocante é vermos o corpo real de um homem adoentado — padecendo de uma doença cultural, moral, de uma época doente —, com toda a fraqueza do abandono, de tal modo esquecido que o choque de o ver resulta em vergonha de quem o esqueceu tão displicentemente... 

“Uma manhã, fiquei nu e me contemplei; a vista de meus braços muito magros, de meus ombros [...] mas sobretudo a brancura, ou melhor, a descoloração da minha pele, encheu-me de vergonha e lágrima. 

... e quão mais tocante ainda vermos, depois, o protagonista se recuperando em um processo de verdadeira cura, em autoaceitação positiva da vida e de que tudo nela é natural e físico – sem reflexão, apenas o instinto corporal: 

Na manhã de um dos últimos dias [...] eu ousei mais. Em uma anfractuosidade das rochas a que me referi, uma fonte clara corre [...] avancei resoluto ao fundo da água mais clara que nunca, e, sem refletir, mergulhei nela inteiramente. Logo transido, sai da água, estendi-me na grama, ao sol. Lá cresciam as mentas odoríferas; eu as colhi, esmaguei as folhas, eu as esfreguei em todo o meu corpo úmido, mas quente. Eu me contemplei longamente, sem mais vergonha alguma, com alegria. Eu me tomei, não vigoroso ainda, mas podendo sê-lo, harmonioso, sensual, quiçá belo.” 

E que belos movimentos sintáticos neste exemplo. As quatro imagens ou divisões do período “Logo transido, / sai da água, / estendi-me na grama, / ao sol” são as mais curtas do trecho, em ritmo breve, porque acompanham a velocidade com que o sujeito saiu da água tremendo de frio e apressadamente se expôs para aquecer-se ao sol. A forma com que termina a última frase, fechando o capítulo, passando os adjetivos ao fim da oração, mostra o potencial da cura, a possibilidade de o corpo se revigorar. E possibilidade, aqui, do francês presque, é a possibilidade de algo aberto, da vida aberta, do mundo enquanto contingência. Terminar o capítulo com essas promessas adjetivais é abrir o mundo de Michel para o campo das infinitas possibilidades, ressaltando o quanto a vida é algo aberto e sem enquadramento. E que gesto de anseio pela vida o esfregar a vegetação no corpo, como aproximação à natureza, à terra e ao material, unindo o corpo à natureza em simbólica reconciliação com a vida!

E é claro que um autor trágico como Gide, trágico no sentido nietzschiano, trará seu sutil, delicado e quase imperceptível travo de ironia. Ela se realiza no plano estilístico, na composição de algumas frases impactantes que funcionam como aforismos. Nisto está a ironia, uma vez que o aforismo é um gênero que, desde La Fontaine e, principalmente, com La Rochefoucauld, está atrelado ao moralismo. A ideia mesmo de uma frase capital, que dê conta de sintetizar um conjunto de pensamentos, é em si um movimento de conclusão moral, de sabedoria filosófica ou teórica. É como se Michel, por mais que abandonasse o ranço intelectual para a vida corporal, ainda assim convivesse com essa parcela especulativa e de autoanálise. Claro que Gide, sendo moderno, tira o aspecto moral do gênero e o perverte — do que dará exemplo um Kafka —, mas temos para nós que um dos primeiros a o perverter foi justamente Nietzsche. Talvez haja algum eco dos aforismos nietzschianos nos sutis aforismos gideanos, estes mais interessantes se pensarmos que são forjados por um imoralista. Verdade é que são frases de sabedoria, como uma espécie de constatação ou formatação de uma experiência adquirida, não raramente belas ou dissonantes frases, para choque do pensamento comum. 

Diga-se de passagem, que os aforismos deste récit, como é bem comum, estão misturados na narração, de modo que acabam funcionando como pequenos rasgos não narrativos em meio ao fluxo narrativo. Daí os considerarmos como ensaios, a porção especulativa ou argumentativa que toda narração costuma carregar, por mais pura que seja, à exceção de obras com narrador-câmera, por exemplo. Em épocas e autores em que o romance aglomera outros gêneros em si, o ensaio se manifesta; no nosso caso, na forma do aforismo. 

Encerremos com uma amostra desses aforismos. Fizemos questão de um levantamento generoso, ainda que incompleto, para que sintamos a verve frasal de Gide e a força do pensamento dissonante de seu protagonista Michel. Leiamos, pois, as conclusões de um imoralista:

Aforismos de um imoralista

Ah! Eu queria que em cada frase, aqui, toda uma colheita de volúpia se destilasse.

E cada dia cresce em mim o confuso sentimento das riquezas intactas, que cobriam, escondiam, sufocavam as culturas, as decências, as morais. 

A pobreza do homem é escrava; para comer, ele aceita um trabalho sem prazer; todo trabalho que não dê alegria é detestável [...]

Tudo está no homem.

Tenho horror à simpatia; nela se escondem contágios; não devemos simpatizar senão com os fortes.

Lamentos, remorsos, arrependimentos são alegrias do passado, vistas de costas. 
 
Não gosto de olhar para trás, e me afasto para longe do meu passado, como o pássaro, para voar, deixa sua sombra. 

Que cada instante carregue tudo o que for carregado (literalmente: Que cada instante leve o que havia trazido).

Mas o futuro desencanta o presente ainda mais que o presente desencanta o futuro.

Quantos homens seguros não devem sua força só por terem sido compreendidos pela metade!

 Ah, se fosse ainda felicidade, eu sei que teria o desejo de retê-la, como tentamos reter nas mãos em concha, em vão, uma água que escorre.

Saber libertar-se é nada; o difícil é saber ser livre. 

As mais belas obras dos homens são obstinadamente dolorosas. 

Ao oásis prefiro agora o deserto — esse país de mortal glória e intolerável esplendor.

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