Eco de Dostoiévski: revelações literárias nos diários de Lúcio Cardoso
Por Juliano Pedro Siqueira
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| Van Gogh. L'église_d'Auvers-sur-Oise, 1890. |
Ao ler os diários do escritor mineiro Lúcio Cardoso, fui grandiosamente surpreendido. Deparei-me com um conjunto de ideias autênticas que supera muito os tradicionais relatos pessoais e de memórias. O diarista escreveu sobre uma variedade absurda de temas, destacando o seu interesse peculiar pela literatura; que vai desde os clássicos até textos sagrados, como os da Bíblia. Divididos entre relatos íntimos e não íntimos, os diários revelam um homem de espírito inquietante e sagaz inteligência. A leitura permite perscrutar a alma transbordante do homem e do escritor, cuja existência era devotada à escrita e à reflexão de questões de corte universal.
Através dos diários, Lúcio exerceu um tipo de crítica despreocupada com o julgamento alheio. Seu espaço é soberano e a criatividade está em consonância com a liberdade e a fecundidade do artista; sempre pronto a dar vazão as vozes internas que o sufocava. A escrita sempre afiada e franca, possibilitou-lhe fazer dos diários um projeto altamente confessionário; ousadia esta, extremamente cara a um autor já consagrado. Talvez, esta seja a razão de os diários terem transcendido a abordagem intimista.
O seu tamanho alcance deve-se à proposta de expor a relação do diarista com a literatura, elevando-a ao mais alto prestígio. Lúcio — assim como Franz Kafka — demonstra só se envolver profundamente com aquilo que possui inteira ligação com a literatura. O compromisso com a escrita tem nele um efeito arrebatador, senão hipnótico, pois escreve com paixão, furor e protesto, formas de lidar com as aparentes contradições de um mundo que parece esmagá-lo com questionamentos tão profundos. E por não se adequar a outros métodos para apaziguar seu deslocamento existencial, a literatura é a única e fidedigna fonte para confrontar suas angústias.
Fica claro ao leitor — dentre tantas outras —, que a questão moral e religiosa ocupa o núcleo das preocupações metafísicas, na vida do autor. Nos diários do ano de 1942, por exemplo, Lúcio Cardoso dedica-se a anotações a respeito do problema da crença em Deus, a partir da obra Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O escritor começa declarando que, apesar de saber que existe no mundo um valor absoluto — segundo ele, necessário para justificar a existência —, possui extremas dificuldades em converter este princípio, em crença. Afirma, honestamente, não saber a utilidade da crença em um Deus; que talvez fosse preciso de argumentos ou provas mais sólidas para alcançar tal verdade cristã. Em um momento do diário, Lúcio parece simpatizar com Aliócha, personagem emblemático da trama de Dostoiévski que se apresenta como um fervoroso cristão, uma espécie de superego da família, sempre disposto a apaziguar os conflitos apaixonados entre o pai e seus irmãos.
É nesta estrutura espiritual encarnada na personagem Aliócha, que Lúcio Cardoso toma de empréstimo uma citação que ensaia uma aproximação de Deus. É provável que fosse a única e genuína personagem que pudesse servir de ponte entre o conflito existencial do diarista e a sede pelo ideal salvífico: “impressiono-me demais com Aliócha, quando diz, acerca de Ivan, que ele busca o sofrimento, que ele é dos que tem necessidade de resolver um problema; e ainda com Aliócha, quando roga: Senhor, perdoa todos, protege os desditados e os rebeldes, guia-os e dirige-os ao bom caminho.” Ou seja, o autor parece flertar com a proposta do bom caminho e do perdão, mencionada pela figura dostoievskiana.
Inferimos que Lúcio Cardoso vislumbrava essa fé sem reserva e desapegada da rígida racionalidade, entretanto, sua ânsia pela verdade exigia isso fosse justificado pela utilidade, sem a qual, não fazia sentido levar adiante. A fé de Aliócha chega a constranger o comentarista, que buscava algo de concreto, palpável e positivo; perspectivas não defendidas pelo religioso de Os irmãos Karamázov. Sendo assim, relutante, Lúcio recorre a outro autor, desta feita, ao poeta francês Léon Bloy, a fim de confrontá-lo com Aliócha, numa disputa entre o lírico e o místico. Por fim, numa outra sentença, o escritor mineiro se dobrará, ao afirmar que: “Aliócha na Bodas de Caná, ele sim, pode ser minha salvação, e não o terrível Bloy.”
É o escritor numa batalha espiritual sob a ótica da obra de Dostoiévski. E mesmo diante do paradoxo encontrado nas personagens que analisa, sua alma arde pela beleza e a verdade; conceitos contemplados por Lúcio e detectados nas obras do autor russo. O autor de Crônica da casa assassinada reconhece na voz profética de Dostoiévski, a alegria e a beleza, mesmo diante de mundo dilacerado pelo mal. Sabemos que em suas obras maiores, esse escritor defende que tanto a natureza humana como o mundo físico sofreram as consequências do pecado original; o que não significa conformidade ou passividade diante do estado corrompido de ambos. Para isso, a partir da construção de figuras complexas, Dostoiévski foca na busca incessante da redenção e dos valores absolutos, para fazer frente às principais correntes humanistas de seu tempo.
Lúcio Cardoso pode não ter encontrado a salvação que tanto o afligia, mas sua honestidade intelectual o fez perceber que a realidade materialista não basta como resposta última aos questionamentos essenciais do humano. Diante das revelações pessoais e de seus maiores temores, ele foi tomado de assombro e encantamento pelos ecos reverberados nas obras dostoievskianas, verdades que ainda latejam no coração do homem contemporâneo: seja por meio do confronto, da contemplação estética ou da aceitação da verdade pela fé.
Referências
CARDOSO, Lúcio. Diário completo. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

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