A vida como experiência literária em O azul também se revolta, de Paulo Gustavo
Por Raísa Almeida Feitosa
Que se compra comprando Poesia?
Que carícia, que gozo, que produto,
Que abismo, que impostura — roto fruto...
Que dor temível — mar sem maresia —
Vem se afogar na teia dos incautos?
Poesia, perdão, é sol infausto!
— Paulo Gustavo (2018)

Paulo Gustavo de Oliveira (Recife, 1957) é um poeta e ensaísta com sete livros de poesia publicados, além de um livro de contos e dois de ensaio dedicados à obra de Marcel Proust. Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, ele é membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2015 e publica artigos e crônicas periodicamente na Revista Será?. Tendo como referência seu primeiro livro de poemas, Queda para o alto (1979), neste ano de 2026 totalizam-se quarenta e sete anos devotados à literatura, motivo para celebração e divulgação de sua poesia.
O azul também se revolta (2018), assim como os títulos que o antecederam, O poder da noite (2004) e Coisas que se quebram (2015), é um livro que apresenta uma poética sensível ao cotidiano, à passagem do tempo, à memória, aos encontros com as pessoas e com os livros, e, de forma transversal, à experiência de existir — o eu lírico de seus poemas aborda-a sob diferentes ângulos, a partir de uma visão única que captura a delicadeza dos detalhes. Ler Paulo Gustavo significa, sobretudo, tornar-se um aprendiz literário, pois tornamo-nos partícipes de sua biografia de leitor e ampliamos nossa consciência de leitura a partir das referências literárias e filosóficas que costuma trazer em suas obras. Também é digno de nota o carinho que expressa pelas pessoas de sua vida, seja dedicando-lhes poemas, seja tornando-as matéria-prima para o fazer poético.
O título do livro por si só se abre a diversas conotações. O Azul, em Paulo Gustavo, parece-me condensar o que há de mais íntimo em seu processo de engendrar experiências imaginativas; a meu ver, ele o faz a partir de um existencialismo de tom melancólico cujos pilares principais são a memória, a imaginação e a própria literatura — concebida como modo de vida. E o Azul se revolta talvez porque o Tempo se agiganta à medida que o nosso corpo se deteriora, porque resta-nos a eternidade dos instantes enquanto duramos nesse intervalo entre o nosso nascimento e a nossa morte. Mas, veja bem, o Azul também se revolta, e, quem esperaria do Azul tal sentimento? Uma cor que podemos associar à placidez, a uma tristeza indefinida, a uma solidão que descansa sobre si mesma — como um céu esvaziado de nuvens — revoltar-se? É na Poesia e por meio dela que a revolução acontece:
Toda poesia é possível
Há que se mostrar o azul sobre as pedras frias,
O azul que não se toca,
O azul que se esconde da pátria,
Que não brilha neste instante.
Mas há também que se tomar as pedras frias
E poli-las com o ferro da Esperança
E sobre elas subir além do sofrimento.
Tomá-las também nas nossas mãos cansadas...
Tanta realidade pesa sob o sol.
Tantos tropeços doem no coração.
Um deus bondoso poderia dizer aos homens castigados:
— Desfaçam-se as pedras,
Morem no azul, toda poesia é possível.
A partir de hoje, a Terra é um pássaro;
E este país — este país sem nome —, uma canção feliz
(Gustavo, 2018, p. 18)
O azul que se esconde da pátria (cujo brilho está momentaneamente obscurecido) pode nos levar de volta a 2018, ano de publicação do livro e momento histórico no qual o Brasil sofria os efeitos de um impeachment orquestrado por forças políticas interessadas apenas em obter vantagens para si próprias. O azul aqui pode ser aquilo que resiste — quintessência da vida — em meio à falta de sentido, à sensaboria, à vulnerabilidade e ao vazio; mesmo quando as pedras sobre as quais se derrama são ou estão frias e insensíveis. Encanta a postura de polir “as pedras frias” com “o ferro da Esperança”. As pedras condensam semanticamente o caminho por onde subimos na busca por transcender o sofrimento e o castigo de as carregar enquanto se escala o monte por elas formado. Aliás, as pedras talvez sejam as pessoas, endurecidas pelas circunstâncias. Tomá-las nas “mãos cansadas” é já as polir, polir a si mesmo, tornar vivo o azul que a tudo visita nos voos da linguagem e da imaginação. Nos versos é possível até criar um “deus bondoso”, capaz de desfazer as pedras e de convidar ao Azul e à Poesia os viventes, fazendo da Terra um monumento à liberdade, uma pátria feliz.
Na página seguinte do livro, deparamo-nos com o avesso da utopia no poema “As antigas casas humilhadas”. Aqui, os signos do abandono acumulam-se verso a verso, “O sêmen do caos por toda parte”. Percebe-se a crítica enunciada por uma voz lírica atenta a degradação dos centros urbanos, consequência direta da falta de vontade política e símbolo da morte lenta da História do lugar; como ocorre em Recife, cidade histórica em que a casa onde morou Clarice Lispector, em frente à Praça Maciel Pinheiro, é testemunha muda da decadência do entorno. Nesse poema de Paulo Gustavo, “Tudo é rumor do que não fala” (Gustavo, 2018, p. 19). Aos poucos, vamos compreendendo a “revolta” do Azul, o lirismo que é reflexivo e crítico, ao mesmo tempo em que louva o poder da arte.
Avançando um pouco no livro, vemos a evocação da Beleza numa citação a Baudelaire sob a forma de epígrafe, que abre o poema “O amante”. O eu lírico, nesse poema, respira e repousa um pouco, como se entrasse no espelho que antes o refletia melancolicamente. Pode ser plenamente um “dócil amante da Beleza”, que o torna desconhecido de si mesmo enquanto a persegue séculos a fio, percorrendo os lugares por onde ela passou apenas “Para tocar seu vulto” (tantos livros lidos e relidos para a [re]encontrar...). Uma obsessão insone que se realiza como busca de uma “permanente alvorada”. Assim como o garoto Marcel de No caminho de Swann — primeiro tomo de Em busca do tempo perdido — espera ansioso o beijo de boa noite da mãe, o eu lírico espera o beijo da Beleza, que é “— O que mais importa e o que mais tarda!” (Gustavo, 2018, p. 23).
Nessa busca constante pela Beleza, a poética de Paulo Gustavo também constitui um lugar de realização afetiva, de encontros biográficos e literários. Pensando nisso, não posso deixar de compartilhar um dos poemas-homenagem integrados a este livro. O homenageado, José Rodrigues de Paiva, também é poeta, ensaísta e intelectual dedicado à pesquisa e à literatura. O título do poema, “Soneto do navegante”, remete diretamente à obra de Paiva, Memórias do navegante (2000), cuja leitura também recomendo:
Soneto do navegante
Para José Rodrigues de Paiva em seus 70 anos
Muitos anos deságuam neste dia,
Há vertigens, tumulto, vagas luas,
E o pequeno oceano da Alegria
Em minhas águas tristes se insinua.
As horas que venci, eu só venci-as
Vencendo a própria dor que o tempo esfuma,
Atravessando o mar-melancolia
Que a meu rosto tingiu de doce bruma.
É desse mar que deixo o meu legado,
O longo curso aceito e dominado
Após tantos perigos e rochedos...
À Vida, à Vida mesma, não perguntes
Se nela cabe o barco transeunte
Cuja proa de sonho vence o medo!
(Gustavo, 2018, p. 27)
É um exemplo feliz de que um poema dedicado a alguém pode ser, ao mesmo tempo, dedicado a todos que o leem. Sua universalidade está na constatação dos anos que deságuam em cada dia de (re)nascimento, a cada data de aniversário; na compreensão de que são inevitáveis as vertigens e os tumultos, e que a Alegria é um “pequeno oceano” que pode se insinuar, ainda que brevemente, em “águas tristes”. A dor, nesse sentido, parece preponderar, mas o eu lírico não se dá por vencido, não nos deixa fazê-lo, pois as horas se vencem vencendo a dor — o “mar-melancolia” existe para ser atravessado. O navegante que nos fala tão intimamente conta de si, conta de nós, é o navegante de Paiva, de Gustavo, podemos sê-lo enquanto lemos o poema; podemos sê-lo se em nós couber “o barco transeunte/ Cuja proa de sonho vence o medo!”.
Nesta apresentação pretendi, de forma breve, portanto, insuficiente, dar a ver um pouco do eu lírico gustaviano, os poderes que alberga como voz feita de linguagem capaz de congregar miríades de temas — geralmente relacionados aos pilares a que aludi no terceiro parágrafo. Sua poética nos oferece a vida como uma experiência literária que fala conosco. Note-se o tom: de quem se aproxima, de quem nos chama para uma conversa e, ao mesmo tempo, compartilha o seu olhar crítico e a quintessência que o move — capaz de criar realidades e projetá-las na nossa mente. Uma dessas realidades criadas é o Azul, palavra que se dilata poeticamente em significações que não são fixas; como o alpiste, as sementes e as frutas frescas oferecidas aos pássaros, esse Azul de Paulo Gustavo nos alimenta:
Sempre escolho o azul
Para Bruna Bandeira
Sempre escolho o azul, a doce
Lâmina transfigurada,
A luz oculta nas flores
Tão permanente nas águas.
Lâmina transfigurada,
A luz oculta nas flores
Tão permanente nas águas.
Sempre escolho o azul, a porta
Que os sonhos, os mais belos,
Deixam pra última hora
Com seus segundos incertos.
Sempre escolho essa surpresa
Ante o naufrágio da vida:
Não me salva a sua seiva,
Só me resta a sua ilha.
Sempre escolho esse olho
De cujo olhar não me perco:
Sou seu anjo, sou seu sono,
Sou o seu sonho desfeito.
Sempre escolho (quanto equívoco!)
O azul que tanto me escolhe,
O azul, não o do céu perdido,
Mas o azul da minha sorte
— Ou o azul da minha angústia,
Onde sou pura linguagem,
A primeira cor da chuva,
A derradeira viagem.
Sempre escolho o azul
Ainda que seja tarde.
(Gustavo, 2018, p. 58-59).
______
O azul também se revolta
Paulo Gustavo
122 p.
Cepe, 2018
Referências
GUSTAVO, Paulo. O azul também se revolta. Recife: Cepe, 2018.
PAIVA, José Rodrigues de. Memórias do navegante. 2 ed. Recife: Edições Dédalo, 2000.

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