Boletim Letras 360º #692
DO EDITOR
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| Katherine Mansfield. Foto: Ida Baker |
LANÇAMENTOS
Duas publicações recentes reanimam a presença da obra de Katherine Mansfield entre os leitores brasileiros: um livro de contos e um de poemas.
1. Domingos de amêndoa. Esta é a maior seleção de contos da autora neozelandesa já publicada no Brasil. Os trinta contos aqui reunidos fogem da repetição tradicional das histórias mais famosas da autora, mostrando outras facetas da sua literatura. A reunião trouxe textos de cada um dos seus livros, sem deixar de fora nenhum período de sua produção. É claro que também estão presentes alguns dos contos mais famosos, como “Êxtase”, “Je ne parle pas français” e “Miss Brill”, do qual foi pinçada a expressão que dá título a este livro e condensa as epifanias dolorosas típicas da sua obra. “É muito comum ver Katherine Mansfield tensionar a angústia e a beleza das alegrias intensas e breves. Dupla perigosa: angústia e beleza. Há muitas vezes uma alegria forte e fugitiva, algo que precisa ser agarrado e, ao mesmo tempo, algo precioso justamente por ser pequeno, quase imperceptível, difícil de segurar”, atesta a pesquisadora Talissa Ancona Lopez, responsável por esta tradução e seleção. Admirada por escritoras como Virginia Woolf, Clarice Lispector e Ana Cristina César, Mansfield é um nome incontornável do modernismo de língua inglesa, e esta edição procura fazer jus à importância do seu legado. Publicação da editora Autêntica. Você pode comprar o livro aqui.
2. Quando fui pássaro. Este é o primeiro livro de poesia de Katherine Mansfield publicado no Brasil. Contém quarenta poemas, de diferentes fases da produção da escritora neozelandesa que ficou mais conhecida no Brasil e no mundo como contista. Esses poemas raramente chegaram a ser conhecidos, ao serem publicados em jornais ou revistas, ou por terem sido lidos em voz alta pela própria Mansfield, ou ainda enviados por ela a alguém, em alguma carta. A maioria só foi publicada postumamente. A antologia foi organizada por Katherine Funke e sai pelas Edições Jabuticaba com tradução de Katherine Funke, Laura S. M. Chagas, Lúcia Ely Paiva e Taty Guedes. Venda apenas no site da editora.
Antologia que apresenta a obra de María Mercedes Carranza, uma das poetas mais relevantes da Colômbia.
Organizada por sua filha, a seleção de poemas em O ofício de viver percorre emoções até o encontro inevitável com a solidão e a morte ― seja a do seu irmão sequestrado pela guerrilha, a de parte do povo colombiano assombrado pelo conflito civil, ou a sua própria. Em quarenta e seis poemas o livro explora a angústia e o medo com uma voz que equilibra a emoção e a lucidez. Poeta, jornalista e gestora cultural, Carranza esteve à frente da Casa de Poesía Silva, onde defendeu a literatura como forma de enfrentar a violência de seu país, sob a premissa de que as palavras podem substituir as balas.
Sua poesia nasce dessa intersecção entre o íntimo e o político, entre a vida cotidiana e a história. O ofício de viver constitui um testemunho do legado de uma escritora cuja escrita perpassa a história política recente da Colômbia com versos afiados e delicadeza. Com tradução de Eduarda Rocha, esta é a primeira vez que a autora é publicada no Brasil. Livro sai pela Isto É Edições. A edição traz o prólogo de Melibea Garavito, filha da autora e organizadora da obra, e tem apoio do governo colombiano através do programa Reading Colombia. Você pode comprar o livro aqui.
Uma nova tradução de um raro texto da safra de tragédias de Sêneca.
Lúcio Aneu Sêneca viveu sob os cinco primeiros imperadores de Roma, pertencentes à chamada dinastia júlio-claudiana (Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero). É singular sua trajetória, tanto biográfica, quanto literária: na juventude, um “auto-exílio” no Egito talvez por cerca de dez anos; na maturidade, já como senador, o exílio na ilha de Córsega, por quase oito anos. Teria sofrido, além disso, três condenações à morte, sob Calígula, Cláudio e, por fim, Nero. Como escritor, foi o mais prestigiado em sua época, com a produção de uma obra notável pelo número e pela variedade de gêneros: discursos oratórios, prosa filosófica e poesia. Entre as obras poéticas, são-lhe atribuídas oito tragédias, das quais se estima que uma das últimas teria sido Tiestes. A peça aborda um dos mitos mais emblemáticos do gênero trágico, com várias versões gregas, de Sófocles e Eurípides, entre outros, e romanas, desde Ênio e Ácio até autores do início da época imperial. No entanto, o Tiestes de Sêneca é a única peça sobre esse mito que nos chegou da Antiguidade. O elemento central do enredo é a famosa cena Thyestae, a ceia da vingança, fartamente retratada na versão senequiana mediante a combinação de recursos dramáticos e narrativos, com intensos efeitos visuais, rítmicos e sonoros. Como detectado pela crítica, conexões com aspectos da realidade romana contemporânea, ante o colapso de uma dinastia, são perceptíveis. Porém, atributo reconhecidamente característico da obra remanescente do autor, também a aspectos da atualidade podem ser associadas as imagens e situações representadas nesse drama. Tradução de José Eduardo dos Santos Lohner, professor de Língua e Literatura Latina na Universidade de São Paulo (USP). Publicação da editora Mnēma. Você pode comprar o livro aqui.
Destacado primeiro romance de Maria Reva: uma excêntrica história situada na Ucrânia de 2022.
Yeva é uma cientista que tenta salvar caracóis ameaçados de extinção e financia sua pesquisa, desenvolvida em um trailer-laboratório, com o dinheiro que ganha como noiva em uma agência de casamentos internacionais. Nastia e Sol, duas irmãs infiltradas nessa mesma agência, querem a ajuda de Yeva para sequestrar alguns dos pretendentes estrangeiros, em um protesto para expor a indústria global que transforma mulheres em mercadoria romântica. Assim se estabelece a premissa excêntrica deste romance — mas a história se passa na Ucrânia, em 2022. Poucas horas depois de o plano entrar em execução, o primeiro estrondo ecoa na capital, Kiev. Começam os ataques russos. Entre caracóis raríssimos, pretendentes ocidentais desorientados e um mundo que desmorona, Extinção é, a um só tempo, um brilhante exercício narrativo e um romance vertiginoso sobre guerra, devastação ambiental e as histórias que contamos para compreender o presente. Publicação da editora DBA; tradução de Gisele Eberspächer. Você pode comprar o livro aqui.
Nathacha, Chahinez e Emma atravessaram a noite mais escura, aquela em que o amor se torna controle, posse, aniquilamento. Todas as três tentaram fugir de seus companheiros violentos, para se salvar. Apenas uma sobreviveu para contar essa história.
Em Noite no coração, Nathacha Appanah constrói um romance perturbador, recuperando a caso da jovem Chahinez Daoud, assassinada na França pelo ex-marido em 2021, e a de Emma, sua prima, morta pelo companheiro nas ilhas Maurício em 2000. Para devolver a voz a essas duas mulheres condenadas ao silêncio, Appanah retorna à experiência que durante anos evitou narrar: a relação que manteve, dos dezessete aos vinte e cinco anos, com um homem mais velho, possessivo e violento, que a manipulou, isolou e quase a matou. Ao revisitar o seu passado, ao mesmo tempo em que reconstrói as vidas de Chahinez e Emma, Nathacha Appanah reúne as memórias de familiares e amigos, examina as narrativas da imprensa, da justiça e dos agressores, buscando trazer à luz o mecanismo fatal em que todas as três ficaram presas, e insistindo em nomear as dinâmicas de dominação e violência que tantas vezes permanecem na sombra. Publicação da Bazar do Tempo; tradução de Mariana Delfini. Você pode comprar o livro aqui.
Em uma Brasília marcada por secas, enchentes e queimadas, Catarina cresce tentando decifrar o mundo ao seu redor. Entre laços familiares frágeis, uma amizade perigosa e o tarô como linguagem possível, o novo romance de Fabiane Guimarães lida com vínculos, presságios e sobrevivência.
Nascida em meio a um blecaute, Catarina vem ao mundo sob o prenúncio do fim. Filha de uma artista plástica que tenta reencontrar a inspiração e de um bancário pragmático e silencioso, ela cresce em meio a secas, enchentes e apagões que parecem ditar o ritmo da vida familiar. Desde cedo, carrega uma sensibilidade fora do comum — ouve o que os outros não escutam, enxerga presságios nas pequenas coisas e acaba por buscar respostas em um velho baralho de tarô da mãe. Em uma Brasília que alterna entre estiagens e tempestades, ela cresce como uma criança solitária em uma sociedade em que ter filhos beira o imoral. Quando Augusto, acompanhado apenas da mãe, muda-se para a casa ao lado, o destino dos dois se entrelaça. A amizade entre as crianças nasce da curiosidade e da solidão, mas logo se transforma em algo ambíguo: uma relação tão afetuosa quanto cruel, que atravessa a infância e a juventude. Enquanto o mundo à sua volta se fragmenta, Catarina tenta compreender a realidade e a si mesma. No simbolismo das cartas de tarô ela busca sentido para o caos, como se nelas houvesse uma forma não de prever o futuro, mas de decifrar as ruínas. Em A linguagem dos desastres, Fabiane Guimarães conduz o leitor por uma história de afeto e de sobrevivência, em que o íntimo e o apocalíptico se confundem. Publicação da Alfaguara Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
Numa obra que se equilibra entre ensaio e memórias, Michel Laub trata de temas como desejo, passagem do tempo e morte.
O que a obra de Renato Russo, artista romântico que morreu precocemente, teria a ver com a de J. M. Coetzee, cerebral e octogenário vencedor do Nobel de Literatura? Partindo dessa pergunta inusitada, Michel Laub escreve uma obra de difícil classificação, tendo como fio condutor a relação do autor com as drogas, em especial a cocaína. Os impasses daí surgidos moldam um livro breve e corajoso, que ironiza elementos da psicanálise e das narrativas de superação. Numa época de incertezas trazidas pela tecnologia e pela política, Verão na Névoa é uma resposta possível ao cinismo e à melancolia. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Embora mais conhecido no Brasil por sua obra cinematográfica, Pier Paolo Pasolini se considerava, acima de tudo, um poeta, a ponto de definir seus filmes como “cinema de poesia”. A até agora mais completa antologia com sua poesia entre os leitores brasileiros ganha nova edição.
Esta coletânea — em edição bilíngue, com textos críticos e notas para o leitor brasileiro — reúne poemas de diferentes fases da trajetória de Pasolini e demonstram a variedade formal e temática de sua produção: do experimentalismo em dialeto friulano às longas composições de tom ensaístico e narrativo, passando por versos que dialogam com o pensamento marxista de Gramsci, com a marginalidade urbana, o desejo homoerótico e as contradições da modernidade. A obra poética de Pasolini permanece tão inquietante quanto visionária. Esta reedição oferece ao leitor a oportunidade de reencontrar um autor cuja poesia atravessa toda a sua criação — dos romances aos ensaios, dos artigos políticos ao cinema — e cuja voz continua sendo uma das mais originais e indispensáveis do século XX. A montagem da antologia talvez construa a seu modo a série “O romance dos massacres” (1974), reconfigurando um procedimento caro a Pasolini, o qual “articula fatos mesmos distantes, que reúne os cacos desorganizados e fragmentários de todo um quadro político coerente.” Ou como lemos no poema “Balada das mães”: “Eu sou uma força do Passado.” Reedição das Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui.
Nova edição de Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum.
Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do Eldorado, num vaivém entre a miragem e a matéria: a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, em primeiro lugar, mas também, em círculos concêntricos que se expandem e se contraem, a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base de seiva de seringueira e crédito inglês, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico. Com as figuras admiráveis de Arminto e Dinaura, Florita e Estiliano, Juvêncio e Denísio Cão, Milton Hatoum concentra numa novela de sonho e pesadelo a vasta matéria romanesca que vem explorando desde Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
As aulas de Piglia. A recente editora Igrá Kniga, publica as quatro aulas que o escritor argentino ministrou no programa Cenas do romance argentino transmitido em 2012 pela TV Pública em colaboração com a Biblioteca Nacional. A tradução é de Bruno Xavier e Nina Meirelles.
Inédito no Brasil de Henry James. A também nova editora Lume publica A idade ingrata, um romance que denuncia as imposições sociais sobre a mulher e o casamento. O livro foi traduzido por Solange Pinheiro.
Os ensaios de Leonardo Fróes dedicados à literatura. Organizado por Cid Piquet para a Editora 34, sai uma coletânea de 38 textos reunidos a partir de conferências, publicações avulsas em livros e periódicos do poeta e tradutor.
Orides por vir 1. A editora Hedra prepara alguns inéditos da poeta: um livro infantil organizado por Augusto Massi com ilustrações de Cynthia Cruttenden e uma coletânea de entrevistas.
Orides por vir 2. Ainda para este ano estão previstos um livro reunindo a fortuna crítica da poeta, com os já conhecidos textos de Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr., entre outros e uma nova edição da poesia completa com inéditos.
DICAS DE LEITURA
1. Reflexões do gato Murr, de E. T. A. Hoffmann (Trad. Maria Aparecida Barbosa, Estação Liberdade, 440p.) As memórias de gato petulante que, em meio a reflexões filosóficas e divagações mundanas, repassa ao leitor os momentos cruciais da sua vida. Você pode comprar o livro aqui.
2. A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos, de Anne Carson (Trad. Emanuela Siqueira e Julia Raiz, Bazar do Tempo, 168p.) A história de um casamento contada em tangos é entrelaçada com uma reflexão acerca da ideia de John Keats de que a beleza é verdade. Você pode comprar o livro aqui.
3. Contos orientais, de Marguerite Yourcenar (Trad. Martha Calderaro, Nova Fronteira, 120p.) Dez contos em que a escritora refunda lendas, mitos e narrativas ancestrais que cruzam diferentes países e culturas, da China à Grécia, dos Bálcãs ao Japão. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Depois da notícia de uma nova tradução de Grande sertão: veredas para o inglês, a ser publicada em janeiro de 2027, soubemos mais, nesta semana da nova tradução para o alemão, também prevista para sair no mesmo mês. Foi quando recordamos desta entrevista com o tradutor para o alemão Berthold Zilly para o DW Brasil. Zilly levou quinze anos no trabalho de oferecer outra possibilidade de leitura do grande romance de Guimarães Rosa para o leitor alemão. A primeira saiu em 1964 e foi feita por Curt Meyer-Clason
Estamos lendo mais? Talvez. Mas, estamos lendo mal? Sim, sem dúvida. E o problema, com a ainda nossa falta de adequação com os modelos de comunicação impostos pelos senhores do capital, atinge o mundo inteiro. Sem ir para questões fora do pequeno mundo da literatura, eis o caso da semana: um depoimento da escritora Prêmio Nobel de Literatura Olga Tokarczuk sobre o uso de IA no Poznán Impact, principal evento de tecnologia, inovação e economia da Europa Central e Oriental, gerou polêmica nas redes sociais e mesmo na imprensa, obrigando novas explicações da escritora. Por aqui, a casa que edita sua obra, esclareceu o episódio no seu Instagram.
BAÚ DE LETRAS
Neste 23 de maio de 2026 passam-se 120 anos da morte do dramaturgo Henrik Ibsen. Buscamos, ainda da superfície do nosso baú, este texto de Juliano Pedro Siqueira comentando a peça Um inimigo do povo.
DUAS PALAVRINHAS
Escrever é lutar!
— Ferreira de Castro
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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.
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