Bibelôs ausentes na estante em Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei

Por Douglas Sacramento 

Aline Bei. Foto: Isadora Arruda



No Dicionário Michaelis, uma das definições para o verbete ausência é “a falta do que se supunha existir”. A ausência, ao analisarmos e interpretarmos essa definição dicionarizada, pressupõe que algo existiu, mas desapareceu de uma hora para outra. Contudo, a sensação de falta permanece como uma constante, ou seja, a presença fantasmática continua a se manifestar.

É essa a temática de Uma delicada coleção de ausências, livro com que Aline Bei encerra a Trilogia Involuntária. A escritora paulistana foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2022, com segundo volume, Pequena coreografia do adeus, e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2018, com o primeiro, O peso do pássaro morto

Mas, antes de entrar no romance, não consigo me afastar — enquanto leitor afetado pela obra — da minha própria experiência. A ausência também marcou minha relação com o livro. Durante a leitura, eu vivia o luto da morte de meu avô, que morava comigo, e tentava lidar com a falta daquilo que se supunha existir. Se, no romance, a ausência é marcada pelas inúmeras vírgulas que percorrem o texto — pausas para respirar, marcas de silêncio, sinais da falta —, entendi e senti na vida essas vírgulas de algum modo. 

A ausência deixa marcas de presencialidade. Aline Bei apresenta ao leitor uma coleção, um romance dividido em quatro partes, no qual somos apresentados a uma família formada por avó e neta, Margarida e Laura. Margarida lê a mão das pessoas na feira e cuida da neta, deixada sob sua responsabilidade pela filha antes de desaparecer no mundo. Laura é a narradora, uma criança em transição para a adolescência, vivendo suas primeiras descobertas, inclusive àquelas envolvendo a sexualidade. Mas, tudo muda com o retorno de Felipa, a bisavó de Laura — mulher enviada para a casa de Margarida e cuja relação com a filha não é tão boa.

Além dessas figuras femininas, há Camilo, personagem que nutre interesse afetivo por Margarida e a ajuda constantemente com as coisas para a casa, da alimentação a consertos domésticos.



À primeira vista, pode parecer que os eixos temáticos do livro giram apenas em torno das relações entre mães e filhas: Felipa e Margarida; depois, Margarida e Glória, uma relação interrompida, marcada por uma gravidez indesejada e envolta em mistério — quem a engravidou e como isso aconteceu; por fim, Laura, que tem Margarida como figura materna, apesar de ser sua avó. 

“tirando a avó, a família de Laura na árvore genealógica que um dia a professora desenhou na lousa era feita só de fantasmas: fantasma mãe, fantasma pai, fantasma palhaço-vô, mas pelo menos agora Laura tinha uma bisa. até onde ela sabe era a única, não vale pôr gente morta nos quadradinhos — ou até vale, só que uma bisa viva é muito valiosa.” (p. 117)

Essas relações são pautadas pelas ausências deixadas pelo desaparecimento da figura materna e pela quebra de expectativa em torno do que é ser mãe e do que é ser filha. Por se tratar de uma coleção de relações estruturadas pela falta, a presença fantasmática é constante. Margarida vive com o fantasma da mãe, até ele se materializar; e, quando isso ocorre, não há um consenso. Existe disparidade e ressentimento — consequências da falta —, logo, não conseguem chegar a uma resolução. O mesmo ocorre com Laura, que sente falta da mãe e convive com lacunas e perguntas sem resposta – questões que estão longe de serem resolvidas. 

“— conta uma história da minha mãe?
— quer a do cinema? 
— sim!
— (puxa um banco para mais perto) [...] quem visse de longe, achava que ela estava dormindo. mas é que depois de assistir uma cena, ela fechava os olhos para ouvir o que tinha visto. quando descobriu o cinema, quer todo o dia.” (p. 37)

Camilo é a personagem que desordena e instaura a certeza da ausência na vida de Laura. Ele, a princípio, surge como um amigo da família, sempre disposto a ajudar Margarida de bom grado em tudo, numa relação aparentemente sem nada em troca. No entanto, esconde um interesse afetivo. E esse interesse não é em Margarida, mas se conecta ao desaparecimento de Glória e ao desfecho em fuga da protagonista. 

“— e como você dorme?
— como eu durmo?
— com que roupa. 
— de pijama, ué. 
 curtinho, igual aquele da mureta? (move a mão por dentro da calça)
e Laura sente uma eletricidade, que derrete seus pensamentos.” (p. 249-250)

Contar o final seria retirar o efeito surpresa que a narrativa constrói. Diferente dos outros dois romances que formam a trilogia, neste livro Aline Bei desenvolve melhor a atmosfera, criando uma sensação de que algo está em descompasso — ou melhor, de que existe uma situação não contada, algo que permanece ausente. 

As personagens aparecem desenvolvidas de forma mais elaborada do que nas obras anteriores, e muitas situações são cotidianas, o que pode deixar a leitura um pouco mais lenta, mas é importante para o desenrolar da trama. A autora não deixa nada solto, tudo importa. 

“talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrerem de antecipação.” (p. 159-160)

Aline Bei continua surpreendendo de forma positiva seus leitores. Ao abordar temas pertinentes e pintar nuances e subjetividades femininas diversas — neste romance, a velhice é uma pauta que paira sobre as figuras mais velhas —, a autora vai além das infâncias retratadas em seus livros anteriores. Uma delicada coleção de ausências é um romance interessante que encerra uma trilogia de sucesso. Ainda que não alcance o esplendor e a estética dos dois romances anteriores, trata-se de um trabalho sensível e bem-feito. 


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Uma delicada coleção de ausências
Aline Bei
Companhia das Letras, 2025
288 p.


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