(Re)imaginação é poder nas lentes de Kleber Mendonça Filho
Por Luis Fernando Novoa Garzon

O cineasta Kleber Mendonça Filho só pode ser plenamente entendido em seu impulso e transbordamento glocal — entendido aqui como intersecção de dinâmicas horizontais e verticais, de fixos e fluxos, do universal e do particular. O tempo-espaço que condiciona seu olhar é uma periferia da periferia, em que grassa um cosmopolitismo revirado, assumido na corrosão do cosmopolitismo raso que o subordina. Por isso, são tantas e tão contraditórias as camadas de identificação entranhadas neste Recife que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de seus filmes.
Nesta cidade cindida, o cineasta recompõe trajetos ruinosos e escapes labirínticos e nos induz a saltos para dentro, trazendo à luz recônditos acervos para fazer frente a uma espiral que não para de dilapidar referentes sociais, culturais e cognitivos. A mensagem liminar é que, nos marcos de imaginários coletivos irredimíveis, nada está definido. Isso, em tempos de sobredeterminação financeira e midiática, é bom augúrio. Ao invés de saudosismo, para Kleber Mendonça Filho, lembrar significa tensionar, romper e superar o tempo mercantil: memória e devastação têm grandezas inversamente proporcionais.
Lembremos da “grande recusa” de 1968, também de como ela foi relativizada na forma de uma espécie de “espasmo geracional”. Pois é essa mesma recusa, irredutível e de longa duração, que comparece nos filmes do cineasta pernambucano, sempre revolvendo remansos de sociabilidade desinteressada e transgressiva. É vida socializada e desejada por muitos corpos, mãos e mentes, retrospectivamente.
Em O agente secreto (2025), a liberação segue na contramão da ditadura empresarial-militar de 1964, compilando vitórias clandestinas, secretas (e reveladas) neste sentido. Em Retratos fantasmas (2023), as ausências deixam rastros e permanências registradas em foto, película, texto e delírio. Em Bacurau (2019), amar e lutar desmedidamente, sem mais nada a perder diante do cerco privatista e genocida. Em Aquarius (2016), e O som ao redor (2012) perfilam-se laços telúricos feitos, desfeitos e refeitos durante à implosão-explosão urbana do Recife nas últimas décadas.
Em toada similar ao mangue beat e de seu maracatu atômico/molecular: do caos à lama, um homem roubado, e cidades roubadas, não mais se enganam. A origem não é o mal, e sim o medo dela. Na colônia penal global em que povos indisciplináveis são encerrados, o futuro precisa ser incessantemente socavado. E no entanto, de novo brota. Imersos, pois, no que fomos e podemos ser, traçamos espaços de autodeterminação em meio aos vazios e agentes da desaparição.
Vale retomar a expectativa que despontava no horizonte dos novos movimentos sociais após a primeira crise do neoliberalismo nos anos 2000. Surgiria um sujeito coletivo em condições de medir forças com a soberania empresarial que se absolutizava com a globalização econômica? Paulo Arantes (cf. Boletim CEPAT Informa, n. 137, set. 2006) retorquia de forma certeira: “nosso drama é outro, e a política de que carecemos também. A saber: [esse sujeito] ainda não se apresentou em cena — e como poderia?” Como poderia, podemos agregar hoje, na vigência de uma plutocracia belicista e mistificadora que vai implodindo as chamadas instituições democráticas e a própria ideia de um direito internacional?
É certo que o sujeito ainda não tomou forma, mas ensaios e prefigurações promissoras dele estão em cartaz.
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